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Quinta-Feira, 21 de Junho de 2007, 09h:31 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Vivendo e aprendendo a jogar

     Volta e meia ouço a pergunta: é possível formar líderes? De cara eu já digo que não existe líder nato. Essa história de que aquelas crianças que tomam a frente de tudo nas brincadeiras ("as chamadas donas da brincadeira"), aquelas que falam mais alto, aquelas que conseguem mobilizar multidões de crianças ao seu redor, são líderes natos, como dizem lá no interior, é "conversa mole pra boi dormir". Líder nato não existe, existem pessoas que nascem com o dom para a liderança.
     Em primeiro lugar, é preciso diferenciar dom de capacidade. O dom favorece a capacidade, mas a ausência do dom não elimina nenhuma capacidade. Todas as pessoas de sucesso que conheço, em qualquer momento de suas vidas, com dom ou sem dom, tiveram que "suar" muito, tiveram que estudar muito, tiveram que se preparar muito, tiveram que buscar o seu caminho. O dom talvez dê uma certa aliviada nesse caminho difícil que sempre temos que atravessar para conseguir algo maior em nossa vida, apenas isso. Ele pode servir como "norte" da nossa jornada profissional.
     Em segundo lugar, nós não podemos doar nada que não é nosso. Tudo o que podemos e devemos ser para os outros, primeiro temos que ser para nós mesmos, temos que vivenciar. Os maiores empresários passaram por vários setores da empresa, alguns começaram até como office-boys, para depois se tornarem grandes executivos. Por que as empresas familiares encontram problemas de continuidade? Exatamente porque os pais que tanto lutaram para conseguir o patrimônio, falham com os filhos, não os colocando nas bases da empresa antes de lhes darem um cargo de maior escalão.
     Pegando esse gancho, o terceiro e maior problema sobre o tema liderança é sobre aquelas crianças da qual tratamos no início do artigo e que não têm dom para a liderança, pois ser líder não é mobilizar multidões pela fala, não é mandar, nem tampouco saber mandar. Ser líder é mobilizar multidões (ou apenas um que seja) pelo exemplo. É pelo que faz, não pelo que fala. Líder não é o dono da brincadeira, é aquele que cuida do ambiente para que todos brinquem. Líder não precisa falar alto, falar grosso. O líder é ouvido em qualquer tom que falar, muitas vezes é "ouvido" apenas pelo olhar. O líder serve sem ser escravo. O líder tem autoridade para dizer o que tem que ser dito. O líder não é autoritário, o líder não é arrogante.
     Tendo tudo isso colocado, eu creio que haja uma inversão. Se tem alguém com dificuldade de exercer a liderança é exatamente aquele tipo de criança que manda em tudo. Ela não consegue ser liderada, não vivencia ser liderada, então isso cria barreiras para que ela saiba ouvir, saiba dizer, saiba sentir, saiba servir. As pessoas arrogantes, via de regra, vêm de uma infância onde tudo podiam, onde mandavam, onde dominavam. Essas pessoas não conhecem o outro lado da moeda, não conhecem o que se passa no coração quando você é desrespeitado, não sabem a dor da humilhação, então humilham. Já as crianças que eram as quietinhas, as que mais sofriam, essas têm grande chance de se tornarem grandes líderes, pois sabem o quanto vale o peso de uma decisão no ombro de alguém.
     Então, é possível formar líderes?
     Ninguém torna o outro um líder, mas todos nós podemos nos tornar um. Ser líder é uma opção de vida, tem seus preços e suas glórias. E, sendo uma opção, qualquer um pode se tornar um líder. Quem não viveu o outro lado da moeda enquanto criança, que viva agora. Só que, em primeiro lugar, é preciso se tornar líder de si mesmo. Esse é um caminho árduo, mas que traz muita riqueza de vida. O líder tem que ser sábio. A sapiência exige esforço, exige dedicação, exige disciplina. Quem quer ser líder tem que se relacionar com as pessoas conscientemente, aprendendo com as discórdias, com as derrotas, muito mais do que com as vitórias. Enfim, ser líder é viver como diz a música do Guilherme Arantes, imortalizada na voz de Elis Regina: é seguir "vivendo e aprendendo a jogar, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar" (jogar consigo mesmo, com a vida, não contra alguém).

Claudinet Antônio Coltri Júnior é consultor organizacional nas áreas de marketing, gestão de pessoas, coordenador e professor universitário e escreve em A Gazeta às quintas-feiras ( junior@coltri.com.br)

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