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Domingo, 29 de Abril de 2007, 13h:43 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Vou-me embora de Pasárgada

   Em artigo abaixo, a professora universitária Margareth Krause "viaja" para o paraíso de Pasárgada, que inspirou o poeta Manuel Bandeira. Conta que, como amiga do rei, vivia feliz, sem inflação, mensalão, roubo, corrupção e violência. O problema é que o rei se corrompeu. Aí, ela virou inimiga do rei e não quer mais saber de Pasárgada. Margareth conclui que o poder vicia, mata e distancia um pessoa das outras. Um duro recado, principalmente para os políticos. O seu artigo está imperdível. Confira abaixo.

   Há mais ou menos uns vinte anos que Manuel Bandeira me convenceu ir embora pra Pasárgada, e lá fui eu, cheia de expectativas, pois parecia ser o paraíso, uma outra civilização. E ainda havia a promessa de que eu seria como ele, também amiga do rei.
    E de fato, tudo aconteceu como previu Bandeira. Tornei-me amiga do rei. Lá em Pasárgada do grego Xenofonte, fui feliz, fui mais louca que a Joana, a Louca da Espanha. Lá, aprendi até andar de bicicleta, pois eu não sabia. Não fiz só ginástica, fui mais além, ousei, pratiquei Tai Chi Chuan e Yoga. Não tomei banhos de mar, mas de rio. As histórias que me contaram na beira do rio, pareciam ter mais vida, mais cor que às dos Irmãos Grimm.
    Eu vivia tão feliz em Pasárgada, que eu não sentia saudades da aurora da minha vida, da infância querida lá na minha terra natal, quando eu tinha só oito anos.
     Não havia inflação, indexação, mensalão, não havia roubo não. Não havia tanta corrupção. Violência?! Palavra pouco usada, quase em desuso, arcaica.
      Pasárgada era um paraíso terrestre, que inspirou o poeta. Hoje não! Falta pão, falta feijão. Falta dignidade, decência, brio na realeza, porque até o rei se corrompeu.         
      Pareço nefelibata, ledo engano, estou atenta a tudo, ao ponto de refletir acerca do poder e concluo que ele vicia, mata, distancia uma pessoa das outras. Foi o que aconteceu com o rei, que se distanciou de seus súditos, principalmente daqueles que lhe eram fiéis, pois ao seu lado agora há quarenta ou mais ladrões que fariam inveja a Ali Babá.
     Não há alegria em Pasárgada, tudo é tristeza, pesar. O povo descontente, temente aos poderosos está.
      As ruas que eram planas, limpas, sem buracos, deram lugar às esburacadas, que mais parecem a superfície  da lua.
      E o rei? Que saudades daquele amigo que ria comigo, com seus vassalos, das coisas mais tolas. Comia da nossa comida.
     Rei posto, rei morto, (ocorreu o contrário no reino de Lothian). Realmente o poder matou aquele rei, o rei que era meu amigo.
     Todos o temem agora, não pelo o que fala, porque ele não cumpre o que fala,  mas pelo que faz, ou talvez pelo que não faz. Seu cetro transformou-se em uma caneta poderosa, que com ela, assina, não assina, faz, desfaz, manda, desmanda. Meu amigo, o rei, é triste dizer, foi picado pela voraz mosca azul, segundo o que se ouve nos corredores do palácio, onde até os ratos conspiram e sussurram. O rei, meu amigo, esqueceu-se do que disse Paulo, o maior dos apóstolos do verdadeiro rei: tudo posso, mas nem tudo me convém.
     Meu rei se esconde agora de seus súditos, que são outros agora, agem sorrateiramente como Fouché, aguçado cão do estado que farejava as conspirações a distância, que filtrava as informações, que fazia as intrigalhas da corte, na França napoleônica, em 1799; às vezes, agem como Rasputin, que em russo significa depravado, que foi um personagem enigmático, bruxo, esperto, que tirava proveito da situação no período que antecedeu a Revolução Russa.
    Entendi tudo. Tudo está tão claro agora. Custo aceitar. Amiga do rei já não sou. Inimiga tornei-me.
    Se Manuel Bandeira pudesse me ouvir, eu não lhe diria apenas, eu gritaria: VOU-ME EMBORA DE PASÁRGADA, porque sou inimiga do rei.
    Movida pela esperança, mesmo com vontade de defenestrar o rei, penso que não posso me entregar tão fácil, e cheia de coragem, tentarei uma última vez resgatar o rei da falange famigerada, sequiosa de poder.
     Para essa missão impossível, evocarei como Castro Alves no Navio Negreiro, os astros, tempestades: Varrei os rios de Pasárgada, tufão! Assim, talvez Pasárgada renasça das cinzas como Fênix, e o rei volte a ser um pouquinho do que era, meio bobalhão bem o sei, mas era bom, ou quem sabe não era, quem sabe sempre foi assim, o poder apenas acentuou-lhe as características que apresenta agora.
     Queria tanto que entre uma intempérie e outra, o rei parasse um segundinho e perguntasse, que REI SOU EU?!
     Manuel, vou-me embora de Pasárgada, pois não há mais rei, nem para eu ser amiga, quanto mais inimiga.

Maria Margareth Costa de Albuquerque Krause é professora universitária em Cáceres

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