Síndrome de Sjögren: boca seca pode indicar doença autoimune diagnosticada por biópsia
Arlindo Aburad
Boca seca persistente, dificuldade para engolir alimentos, ardência na língua e necessidade frequente de beber água podem ser sinais de uma doença autoimune que, muitas vezes, demora a ser identificada. A síndrome de Sjögren, caracterizada principalmente pelo comprometimento das glândulas salivares e lacrimais, pode provocar alterações que ultrapassam a cavidade oral e afetam diferentes órgãos. É importante reconhecer os primeiros sinais para evitar complicações e reduzir o tempo até o diagnóstico.
A doença ocorre quando o sistema imunológico ataca, por mecanismos ainda não totalmente esclarecidos, estruturas do próprio organismo, especialmente as glândulas responsáveis pela produção de saliva e lágrimas. Embora seja mais frequente em mulheres, principalmente na meia-idade, também pode atingir homens e pessoas mais jovens. Fatores genéticos, imunológicos, hormonais e ambientais estão associados ao seu desenvolvimento.
A redução da saliva costuma ser um dos sinais mais perceptíveis. Além da sensação de ressecamento, o paciente pode apresentar dificuldade para mastigar, falar por períodos prolongados ou engolir alimentos secos. Alterações no paladar, fissuras nos lábios, infecções fúngicas recorrentes e aumento da incidência de cáries também merecem atenção. Isso acontece porque a saliva não serve apenas para umedecer a boca. Ela é usada na digestão, protege os dentes e ajuda a controlar microrganismos.
A boca pode revelar alterações de saúde muito além dos dentes. Quando a secura deixa de ser ocasional e passa a comprometer atividades cotidianas, investigar sua origem é mais importante do que apenas aliviar o desconforto
Para quem convive com a síndrome, atividades simples podem se transformar em desafios diários. Uma refeição pode exigir vários goles de água para facilitar a deglutição, enquanto uma conversa prolongada pode provocar desconforto pela falta de saliva. O ressecamento dos olhos também pode causar sensação de areia, ardência e sensibilidade à luz. Em alguns casos, o cansaço persistente compromete o trabalho, o convívio social e a disposição para atividades habituais. São limitações que nem sempre são percebidas pelas pessoas ao redor, mas que podem afetar significativamente a qualidade de vida.
O problema é que esses sintomas nem sempre são reconhecidos como manifestações de uma doença sistêmica. O ressecamento bucal pode ser atribuído ao envelhecimento, ao uso de medicamentos ou à baixa ingestão de líquidos. Quando persiste, especialmente se houver olhos secos, fadiga intensa, dores articulares ou aumento das glândulas salivares, é necessário fazer uma investigação.
Os exames salivares entram em cena nesse cenário. A sialometria permite medir objetivamente a quantidade de saliva produzida, em condições estimuladas ou não estimuladas. Nos critérios internacionais de classificação da síndrome, um fluxo salivar não estimulado igual ou inferior a 0,1 mililitro por minuto constitui um dos achados relevantes. O resultado, entretanto, não confirma isoladamente a doença e precisa ser interpretado com os demais dados clínicos e laboratoriais.
A avaliação pode incluir ainda exames de sangue para identificar autoanticorpos, como o anti-SSA/Ro, testes oftalmológicos e, em situações indicadas, biópsia das glândulas salivares menores, geralmente obtidas na região interna do lábio inferior. A análise microscópica permite identificar alterações inflamatórias características.
Os avanços científicos estão ampliando as possibilidades de investigação. A ultrassonografia das glândulas salivares vem ganhando espaço como método complementar não invasivo. Em 2026, uma pesquisa publicada na revista científica RMD Open investigou o uso da ultrassonografia de frequência ultra-alta nas pequenas glândulas salivares dos lábios, com resultados promissores na identificação de alterações relacionadas à doença. A técnica ainda necessita de validação adicional e não substitui, na prática clínica atual, os exames tradicionalmente utilizados.
A investigação não deve depender exclusivamente da presença de sintomas clássicos ou de um único resultado laboratorial. A integração entre avaliação clínica, testes salivares, exames imunológicos e análise histopatológica, quando necessária, aumenta a capacidade de reconhecer a doença, inclusive em apresentações menos evidentes.
Embora não exista cura definitiva, o diagnóstico permite controlar sintomas, prevenir danos à saúde bucal e acompanhar possíveis manifestações sistêmicas. O tratamento depende da gravidade e dos órgãos envolvidos, podendo exigir acompanhamento conjunto de cirurgião-dentista, reumatologista e oftalmologista.
A boca pode revelar alterações de saúde muito além dos dentes. Quando a secura deixa de ser ocasional e passa a comprometer atividades cotidianas, investigar sua origem é mais importante do que apenas aliviar o desconforto. Reconhecer esses sinais da síndrome de Sjögren faz diferença no cuidado e na qualidade de vida.
Arlindo Aburad é dentista, doutor em Patologia Bucal pela Universidade de São Paulo (USP)