Cuiabá, 29/10/2026

Brinquedo tecnológico nem sempre é educativo; veja como escolher

Especialistas orientam pais a priorizar opções que estimulem a criatividade e a autonomia; materiais simples também favorecem o aprendizado

Brinquedos ligados à ciência, à tecnologia, à engenharia e à matemática ganham espaço nas vitrines com a promessa de desenvolver raciocínio lógico, criatividade e habilidades digitais. Conhecidos pela sigla inglesa STEM, kits de robótica, blocos de programação e circuitos eletrônicos estão entre as opções. Mas nem todo brinquedo tecnológico é educativo, alertam especialistas.

Divulgação

 

Para as educadoras da Uniasselvi, o potencial de aprendizado depende menos dos recursos digitais e mais das oportunidades que o brinquedo oferece para a criança experimentar, errar e criar.

“Antes de avaliar um brinquedo STEM, é importante entender que a sigla não significa necessariamente tecnologia ou uso de telas. Um brinquedo STEM não precisa ser eletrônico ou sofisticado. O mais importante é que ofereça oportunidades para a criança explorar, criar, investigar, testar ideias e resolver problemas”, afirma Ana Clarisse Alencar Barbosa, doutora em Educação e coordenadora de cursos de licenciatura da Uniasselvi.

Segundo a pedagoga, alguns produtos apenas pedem que a criança repita comandos, escolha personagens ou siga etapas prontas, com pouco espaço para criação. Outros permitem fazer escolhas, testar, errar e tentar novamente, favorecendo o aprendizado.

A indústria aposta na categoria. Os brinquedos educativos estão entre os destaques do mercado, que tem projeção de crescimento de 5% a 9% nas vendas, segundo a Abrinq.

Autonomia pesa mais que tecnologia

Ana Carolina Gadotti Aurélio, coordenadora dos cursos de Licenciatura em Informática e Jogos Digitais da Uniasselvi, propõe um teste simples aos pais.

“Depois que a criança aprendeu a usar o brinquedo, ela consegue criar algo que o fabricante não ensinou? Se consegue, temos um importante indício de autoria. Um brinquedo pode ser muito interativo e, ainda assim, oferecer uma experiência bastante passiva. O que faz a diferença é o espaço que ele dá para a criança pensar, experimentar, criar e encontrar suas próprias soluções”, explica.

A especialista reconhece que os kits tecnológicos podem proporcionar boas experiências, desde que permitam à criança criar e resolver problemas. A presença de tecnologia, porém, não deve ser o único critério de escolha.

“É importante não confundir brinquedo tecnológico com brinquedo melhor. Alguns têm custo mais elevado e podem depender de aparelhos, aplicativos ou conexão com a internet. Também existem opções muito fechadas, que deixam pouco espaço para a criação da criança.”

Materiais simples também ensinam

Desenvolver essas habilidades não exige equipamentos caros. Materiais disponíveis em casa também podem estimular a aprendizagem.

“Uma caixa de papelão, blocos, tampinhas, massinha, água ou areia também podem estimular criatividade, planejamento, raciocínio, contagem, formas, medidas e resolução de problemas. O que importa não é apenas o brinquedo em si, mas o que a criança é convidada a fazer com ele”, destaca Ana Clarisse.

A pedagoga lembra que até noções de computação podem ser trabalhadas sem computador, por meio de desenhos, histórias, percursos e maquetes.

Acompanhar sem transformar a brincadeira em aula

A idade indicada na embalagem ajuda na escolha, mas não deve ser o único critério, já que cada criança tem seu ritmo. Diante de um desafio, uma pergunta feita por um adulto ou a troca com um colega pode ajudar.

“Um bom desafio não precisa ser fácil. Ele precisa ser possível de ser enfrentado, mas também provocar curiosidade, descoberta, tentativa e novas possibilidades”, afirma Ana Carolina.

Para Ana Clarisse, o papel do adulto é acompanhar sem cobrar.

“É importante observar, escutar e deixar a criança experimentar. Quando algo não funciona, em vez de dar a resposta, podemos fazer perguntas e incentivá-la a pensar sobre o que aconteceu. Assim, o erro deixa de ser visto como fracasso e passa a fazer parte do próprio processo de aprendizagem”, orienta.

Cuidados antes da compra

Nos modelos conectados, é preciso avaliar o que a internet acrescenta à brincadeira.

“Se a conexão permite que a criança explore mais, crie ou resolva problemas, ela pode fazer sentido. Mas, se o brinquedo funciona da mesma forma sem internet, é válido questionar se essa conexão é realmente necessária”, avalia Ana Carolina.

Ana Clarisse acrescenta que os pais precisam saber quais dados o produto coleta. Contas parentais, filtros e ajustes de privacidade ajudam, mas não substituem a conversa com a criança.

Na hora da compra, a recomendação é conferir a faixa etária, o selo de conformidade do Inmetro e a presença de peças pequenas. Também vale verificar se as instruções estão em português e se o brinquedo exige gastos extras com aplicativos, assinaturas, pilhas ou internet.

As promessas da embalagem também merecem cautela. “Um brinquedo pode, sim, criar boas oportunidades de aprendizagem, mas não faz isso sozinho e não produzirá o mesmo resultado para todas as crianças”, alerta Ana Clarisse.

Para Ana Carolina, o critério final é simples. “No fim, a escolha deve considerar as possibilidades que o brinquedo oferece para que a criança explore, crie, experimente e aprenda.”