Cuiabá, 02/11/2026

Com redes sociais, saúde mental se torna vítima do algoritmo, avaliam psicólogas

O que devia ser um benefício e funcionar como porta de entrada na busca pelo tratamento adequado da saúde mental pode acabar se tornando algo perigoso

A intensa busca por autoconhecimento, pertencimento e compreensão emocional tem impulsionado o consumo de conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais. Embora a linguagem acessível e o sentimento de proximidade atraiam milhares de pessoas, especialistas alertam que o caminho que começa com pesquisas online pode evoluir para o autodiagnóstico e até para a automedicação, práticas que oferecem riscos reais e podem gerar consequências graves a longo prazo. Para a psicóloga clínica Fabianne Barreto e a psicóloga e neuropsicóloga Shirlene Costa, a ausência de acompanhamento profissional nesse processo é um dos principais pontos de alerta.

Gerado por IA

Com foco em autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, criadores de conteúdo sobre saúde mental acumulam milhões de visualizações, especialmente em plataformas como o TikTok. O formato dinâmico e a linguagem simplificada facilitam o primeiro contato do público com temas complexos, além de oferecerem um espaço percebido como mais acessível para falar sobre sofrimento psíquico. “As pessoas acabam encontrando na rede social esse lugar de acolhimento inicial. No TikTok, a comunicação é mais rápida e direta, o que aproxima o público e desperta interesse pelos temas da saúde mental”, explica Shirlene Costa.

“As pessoas acabam encontrando na rede social esse lugar de acolhimento inicial.”

Shirlene Costa, neuropsicóloga

O que devia ser um benefício e funcionar como porta de entrada na busca pelo tratamento adequado da saúde mental acabou se tornando algo perigoso. De acordo com Fabianne, o movimento de identificação sem o acompanhamento profissional pode gerar alguns problemas, inclusive sociais. 

“Um dos maiores riscos é a mãe que vê um conteúdo sobre TDAH e acaba identificando pontos em comum com o filho. Então, por falta de conhecimento, ela passa a justificar as ações da criança. O que as crianças precisam não é de justificativa, mas sim de acompanhamento e suporte especializado”, conclui.

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Fabianne Barreto, psicóloga clínica, durante atendimento

Pesquisas recentes indicam que o aumento do consumo de conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais tem contribuído para a prática do autodiagnóstico, especialmente em relação a transtornos como TDAH, depressão, ansiedade e TEA. Um estudo publicado em 2024 analisou mais de 450 mil postagens em um fórum online e identificou que pessoas autodiagnosticadas buscam validação emocional e identificação de sintomas nas redes antes de qualquer avaliação clínica, o que pode gerar interpretações equivocadas sobre transtornos mentais.

Falta de sono, cansaço constante, lapsos de memória e dificuldades de concentração: de repente, os sintomas descritos nos vídeos curtos parecem encaixar perfeitamente na experiência pessoal de quem assiste. O problema é quando esse "check list" se torna ferramenta única de diagnóstico de alguém que sequer estudou para isso. 

IA

 

Um estudo publicado no ano passado e realizado com jovens em início de acompanhamento psicológico apontou que a maioria dos participantes já havia se identificado com algum diagnóstico após consumir conteúdos nas redes sociais, sem confirmação profissional. Segundo os autores, esse comportamento pode atrasar o diagnóstico correto e comprometer o tratamento adequado.

“Para se chegar de fato em um diagnóstico, precisa ter uma investigação muito bem aprofundada, no mínimo uma avaliação neuropsicológica”

Shirlene Costa, neuropsicóloga

Conforme analisa a neuropsicóloga Shirlene, o risco está na interpretação equivocada dos sinais comuns à experiência humana: “Temos nossas emoções primárias: a tristeza, a raiva, a alegria. Então, ela encontra isso na rede social, seja no TikTok ou no Instagram, e não consegue fazer a interpretação correta disso. Para se chegar de fato em um diagnóstico, precisa ter uma investigação muito bem aprofundada, no mínimo uma avaliação neuropsicológica”.

Uma pesquisa publicada no Journal of Autism and Developmental Disorders concluiu que a maior parte do conteúdo viral tem caráter experiencial e emocional, com pouca ou nenhuma base científica, o que pode reforçar generalizações e incentivar o autodiagnóstico.

Nas redes sociais, os conteúdos focados em saúde mental possuem uma média de 1 a 2 minutos, para que tenha um potencial viral. Embora a brevidade favoreça a atenção do público, o engajamento pode potencializar ainda mais o alcance, ampliando também o risco de que diagnósticos simplificados se espalhem e influenciem milhares de pessoas.  Shirlene alerta que a produção de conteúdo voltado à saúde mental precisa ser feita por profissionais responsáveis e com cadastro visível do CRM. No entanto, reforça lado positivo nestes conteúdos.

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Shirlene Costa, neuropsicóloga

“Vejo muitos pontos positivos quando o conteúdo é responsável, feito por profissionais da área. A rede social ajuda muito a reduzir aquele estigma em relação à saúde mental, porque ele amplia o acesso à informação, encoraja muitas pessoas a buscarem a ajuda profissional de fato”, conclui.

Automedicação

Estudos sobre comportamento de saúde apontam que a exposição a conteúdos sobre tratamentos e medicamentos nas redes sociais pode estimula, além do autodiagnóstico, práticas de automedicação, em que indivíduos passam a usar remédios sem prescrição profissional com base em informações encontradas online. 

Uma pesquisa de 2025, intitulada “A influência das redes sociais na automedicação e no consumo irracional de medicamentos” analisa como plataformas digitais como YouTube, TikTok e Instagram têm sido utilizadas para buscar informações sobre saúde e tratamentos, muitas vezes sem respaldo técnico.      

Mesmo que remédios para tratamento de transtornos sejam vendidos somente mediante a receita, não é incomum a venda sem prescrição. Para Fabianne esse tratamento “por conta própria” pode, inclusive, agravar um processo que poderia ser mais simples.

“Tomar remédios e fazer atividades que não correspondem ao tratamento correto pode agravar a saúde física e mental. Talvez a vida do paciente fosse muito diferente se ele tivesse o diagnóstico prévio correto. É como tentar se encaixar em algo e ainda assim se sentir perdido”, apontou. A neuropsicóloga argumenta ainda que existe a possibilidade da automedicação causar danos em curto e longo prazo.   

“No curto prazo, ele pode causar efeitos colaterais graves, interações medicamentosas perigosas e o mascaramento de sintomas importantes. A longo prazo, há risco de dependência, um agravamento no quadro clínico dela e o atraso no diagnóstico correto”, finaliza Shirlene.

"Terapias" com IA

Recentemente, a empresa Talk Inc realizou uma pesquisa em que foi possível afirmar que uma a cada dez pessoas já utilizaram alguma Inteligência Artificial (IA) como amiga ou conselheira. Mais do que uma porcentagem, este número mostra como as IAs estão se inserindo no cotidiano do brasileiro. 

Um estudante da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que preferiu não se identificar, compartilhou os motivos que o levaram a utilizar uma plataforma para organizar seus pensamentos. “Acho que meu primeiro contato foi como o da maioria das pessoas, utilizei como auxílio nos estudos. Aí foi avançando até que um dia estava contando como foi meu dia”, revelou ele. A falta de dinheiro também foi um fator decisivo para o estudante utilizar a inteligência artificial.

“Quando a pessoa acredita fortemente em um diagnóstico incorreto, pode resistir à avaliação do profissional capacitado”

Shirlene Costa, neuropsicóloga

De acordo com o relato, estudar em tempo integral dificulta encontrar um emprego formal e a bolsa que recebe não permite pagar por terapias que são muito caras. “Eu definitivamente não tenho condições de arcar com uma terapia que custa cerca de R$ 300 por hora, e também não acho que seja esse o meu caso. Só uso a IA como um diário”, refletiu ele, dando risadas. 

Tomar decisões ao se consultar com uma inteligência artificial pode transformar pequenas questões em grandes problemas clínicos, afirma Shirlene. “Quando a pessoa acredita fortemente em um diagnóstico incorreto, pode resistir à avaliação do profissional capacitado, que aí vai dificultar, com certeza, o cuidado adequado. Então, se ela tem um autodiagnóstico baseado em fontes das redes sociais e não realiza a avaliação profissional, vai fazer um tratamento ineficaz, e isso vai sim, agravar o quadro clínico", pontua.

*Sob a supervisão de Kethlyn Moraes