Aos 39 anos, filho adotivo investiga sua própria história para achar mãe biológica
Rodinei Crescêncio
Demetrinho de Arruda Filho está a procura de sua mãe biológica, mas já se passram quase 4 décadas e ele tem muito poucas informações sobre sua origem
Demetrinho, aos 10 anos de idade
Era dezembro de 1979, véspera de Natal. Uma freira saiu às ruas de Rosário Oeste (a 105 km de Cuiabá), perguntando quem queria uma criança, que havia nascido em um bordel, em Nobres, cidade vizinha. Um casal que não podia ter filhos biológicos, se dispôs a criá-la. Eram Demétrio de Arruda e Bonifácia Eugênia.
É somente isso que Demetrinho de Arruda Filho, sabe de sua origem. Aquele bebê indefeso tem hoje 39 anos, é casado, tem um enteado com quem se relaciona muito bem, trabalha como ator e produtor cultural da dupla humorística de sucesso Nico e Lau, mas ainda sofre por não conhecer o início de sua história.
Ele passou a vida toda sem saber por onde anda a mãe biológica, se está viva ou morta, e, em respeito aos pais adotivos, principalmente à mãe, que se sentia muito insegura com isso, resolveu esperar e não ir atrás do passado.
Essa insegurança da mãe adotiva, conforme Demetrinho, é grande bobagem dela, porque o amor que tem por quem o acolheu e o criou é grande o suficiente para nunca ter pensado em substitui-los.
Acontece que os pais adotivos dele morreram. A mãe aos 55 anos, de mal súbito. A pressão arterial caiu e a diabetes subiu e até o diagnóstico ser dado já não havia mais tempo para salvá-la. O pai ficou deprimido, até que, aos 79 anos, uma pneumonia, associada a outros problemas de saúde, o levou.
Agora se sente mais à vontade para saber de onde vem seu sangue, biótipo, sua origem biológica.
Arquivo Pessoal
Bonifácia Eugênia e o marido Demétrio de Arruda, ambos já falecidos, com o filho adotivo, Demetrinho, que ficou sabendo disso somente aos 8 anos
A busca
“Não sinto que esta mãe que procuro tenha me parido, sinto por ela um grau de parentesco e tenho a pretensão de quem sabe fazer uma amizade, almoçar em um domingo”
“Não sinto que esta mãe que procuro tenha me parido, sinto por ela um grau de parentesco e tenho a pretensão de quem sabe fazer uma amizade, almoçar em um domingo”, comenta.
Branco, cabelo encaracolado, olhos castanhos, 1,65m, sereno, simpático, sorridente. Assim é Demetrinho. Até hoje, ele olha multidões, em shows pelo interior, tentando ver um traço que seja parecido com o seu.
Formalmente, aos 8 anos ficou sabendo que era filho adotivo. Os pais o chamaram no quarto e, chorando, anunciaram que tinham algo a revelar. No entanto, ele já sabia de tudo. Na rua, a criançada “zuava”: você é adotivo, você é adotivo – diziam. Demetrinho “ficava vendido” e não respondia nada. “Se eu soubesse desde sempre, poderia responder: sim, sou, e não tem problema nenhum nisso”.
A princípoio não sentiu vontade de procurar pela mãe biológica, provavelmente uma prostituta de um antigo bordel em Nobres. “Quando você tem amor e carinho em casa, não vai querer buscar fora”, ressalta.
Depois da revelação oficial, a mãe adotiva sempre dizia que a biológica não queria o filho, que ameaçava bater a cabeça dele na parede, que ele foi encontrado todo sujo, com feridas e rodeado por moscas.
“Talvez fosse bem jovem quando engravidou, menor de idade e, se isso for verdade, pode estar viva”
Demetrinho porém nunca julgou. Acredita que o ser humano pode enfrentar dificuldades e a mãe de sangue, na vida de prostituta, talvez na miséria, possa ter sentido vontade de despachar a criança, por incapacidade de criá-la. “Talvez fosse bem jovem quando engravidou, menor de idade e, se isso for verdade, pode estar viva”, supõe.
Na terça (7) à noite, o caso deu uma reviravolta. Ele fez contato e se encontrou com a adolescente que acompanhou a dona Bonifácia, quando ela foi buscar o filho do coração recém-nascido.
O primeiro desta testemunha é Antonina. Hoje já mulher feita. Ficou
Arquivo Pessoal
Demetrinho encontra testemunha, que foi com a mãe adotiva buscá-lo na casa da biológica
feliz em revê-lo. Na época, trabalhava no hospital onde ele nasceu. Pensou em ficar com ele, mas era muito nova, não tinha estrutura. Ela contou que foram até uma casa muito humilde, que não seria bordel. Que ela e a dona Bonifácia entraram e aguardaram. Uma outra mulher intermediou a entrega entrou no quarto da parturiente e ambas demoraram. "Talvez ela estivesse pensando sobre o assunto com dificuldade de tomar a decisão", supõe Demetrinho.
Na casa, havia um menino de 3 ou 4 anos de idade. "Parece que tenho um irmão mais velho, talvez sobrinhos", se anima Demetrinho. "Estou animado. A casa era na entrada da cidade, do lado esquerdo. Ou seja, para quem chega, deve ser um dos primeiros bairros à esquerda da antiga BR que cortava a cidade. Hoje a BR passa por fora".
Demetrinho não né o único a ter sido adotado pelo casal Demétrio e Bonifácia Eugênia. Mais tarde, quando já tinha 10 anos, ganhou uma irmã, também adotiva, a Dulcineia, que é mais morena e também não conhece sua origem. Por enquanto, não sente vontade de procurar. Trabalha no hospital onde nasceu, em Rosário.
Quem tiver qualquer informação sobre esta história, pode ligar no telefone (65) 99926-9801.
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