Casal de jogadoras do Cuiabá se prepara para casamento coletivo LGBT+ nesta 6ª
Arquivo Pessoal
Jocimara Neves e Jéssica Glória fizeram ensaio cheio de representatividade no Pq. das Águas, em Cuiabá; nesta sexta elas vão trocar as alianças
O relacionamento da cuiabana Jocimara Neves, 33, e da carioca Jéssica Glória, 27, começou de modo inesperado. Elas atuavam na equipe feminina do Operário Várzea-Grandense quando se conheceram. Em seguida, se apaixonaram. Jéssica teve de ir embora para o Rio de Janeiro, mas elas mantiveram o namoro. Hoje, sete anos depois do começo da relação, após superar dificuldades como a distância e o preconceito, elas se preparam para o casamento.
O casal será um dos 12 que oficializará a união no primeiro Casamento Comunitário para casais homoafetivos de Cuiabá, que acontecerá nesta sexta (28). O evento é organizado pelo Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual (CMADS).
A decisão que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi proferida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em maio de 2011. A medida somente se tornou obrigatória em todos os cartórios dois anos depois, quando as uniões começaram a ser realizadas em todo o Brasil. Para os homossexuais, a decisão foi a conquista de um importante direito.
Para Jocimara, o casamento será uma forma de legitimar a união com a amada. “Assim como um casal heterossexual, também queremos estar dentro da Lei. Queremos ter coparticipação no plano de saúde e todos os outros direitos de um casal”.
Enquanto planeja o casamento, Jocimara relembra do modo como conheceu a futura esposa. A cuiabana era zagueira e Jéssica era goleira do Operário. No começo de 2011, jogaram na mesma equipe por três meses, até que a carioca retornou ao Rio de Janeiro ao fim da temporada. “Na época, éramos somente amigas. Não havia nada entre a gente”, diz Jocimara.
Arquivo Pessoal
Jocimara Neves e Jéssica Glória durante ensaio fotográfico
Dois meses depois, Jéssica voltou a Cuiabá para uma nova temporada. Foi quando as duas perceberam que estavam apaixonadas e começaram a namorar. “Eu nunca tinha namorado uma mulher antes, então foi uma surpresa muito grande. Mas me encantei por ela”, detalha a cuiabana. O namoro foi oficializado em 1° de janeiro de 2012.
Porém, meses depois do início da relação, mais uma temporada do campeonato se encerrou e Jéssica voltou para o Rio de Janeiro. O amor, porém, foi mais forte e elas decidiram manter o namoro a distância. Por quatro anos, entre viagens para a capital carioca ou para Cuiabá, elas mantiveram o relacionamento.
Em 2015, Jéssica deixou a vida no Rio de Janeiro e decidiu morar com a namorada. Juntas, passaram meses na casa de uma amiga de Jocimara. “A gente não tinha condições de alugar uma casa, então uma amiga nos abrigou por alguns meses. Depois, alugamos uma quitinete”, detalha. Hoje, as duas moram em uma residência alugada em um conjunto habitacional.
As duas definem que a família delas é formada pelo casal e três cachorros vira-latas, um resgatado em uma residência abandonada e outros dois que pertenciam a um amigo. Para o futuro, planejam um filho por meio da inseminação artificial. “Estávamos planejando para esse ano, mas com o casamento, decidimos adiar”, diz Jocimara.
Atualmente, elas ainda jogam futebol durante temporada de campeonatos, na equipe do Cuiabá Esporte Clube. Além disso, têm emprego fixo: Jocimara trabalha como enfermeira e Jéssica é segurança em um hospital.
Jocimara considera que sua história com a futura esposa é uma prova de que o amor pode dar certo. Para ficarem juntas, elas tiveram de enfrentar o preconceito de parte da família da cuiabana. “A minha mãe e meu padrasto não aceitam a nossa relação”, lamenta a enfermeira, que não terá a presença dos dois na cerimônia.
“Mas hoje estou muito tranquila em relação ao meu casamento. O meu pai morreu no ano passado e me disse para eu ser feliz, fazer o que tivesse vontade. Isso me deixou aliviada e mostrou que não estou errada”.
Já a família de Jéssica não tem problemas com a orientação sexual dela. “Os parentes dela não têm preconceito. Sempre viajamos para o Rio e somos muito bem-recebidas. É muito tranquilo. Eles só não vão vir para o casamento porque não conseguiram se programar a tempo”.
Arquivo Pessoal
Com a bandeira do arco-íris, casal exala amor
A cerimônia
Jocimara e Jéssica estão focadas nos preparativos para a oficialização do matrimônio. Os noivos do casamento comunitário terão festa com buffet, que será aberto para os convidados dos casais.
Enquanto Jocimara usará um vestido longo branco, a noiva irá com um terno preto e cinza. Elas não pagaram pelos aluguéis das roupas. “O cabelo e a maquiagem, será pago por nós mesmos. Mas não teremos muitos gastos”, diz.
Para que os casais participassem da cerimônia, foi necessário preencher alguns requisitos, principalmente a comprovação de carência financeira, para que pudesse ganhar doações para o evento.
Participar do primeiro casamento coletivo para casais homoafetivos em Cuiabá é considerado motivo de orgulho por Jocimara. “Estou muito feliz, porque isso abre as portas para que as pessoas saiam do anonimato e queiram se assumir diante da sociedade. Essa é só mais uma luta contra o preconceito, porque ainda há muitas outras pela frente”, afirma.