Cuiabá, 30/10/2026

Da corrida ao salto: Cida e Vicente constroem dinastia de atletas no topo

Atletas, que são casados, fazem do atletismo o coração da família e transformam vidas em Cuiabá com um instituto esportivo, destinados a crianças e adolescentes

A história de Maria Aparecida Barbosa de Souza e Vicente Lenílson de Lima começa com dois encontros improváveis: o dela com o atletismo, aos 9 anos, no fundo de uma escola pública em São José dos Quatro Marcos (a 308 km de Cuiabá); o dele, em Currais Novos, no Rio Grande do Norte, com uma pista de corrida, já aos 17 anos, quando saiu de casa para ver uma partida de futebol e acabou fisgado pela velocidade de um colega. Cida e Vicente poderiam ter seguido rumos bem distintos, mas foi o esporte que os uniu e é nele que, até hoje, trabalham, criam os filhos e inspiram gerações.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Maria Aparecida Barbosa de Souza, a Cida, e o marido, Vicente Lenílson de Lima

“Antes do atletismo, eu não tinha muita perspectiva. Eu era um garoto meio rebelde, não gostava de estudar. O atletismo foi o início de uma mudança para melhor”, admite Vicente.

Já Cida descreve o esporte como a porta que a transformou em quem é atualmente. 

“Conheci países que eu jamais imaginaria. Graduei em educação física, fui atleta por 24 anos e hoje sou treinadora. Tudo isso começou com meu treinador, o Tid [Aristides Junqueira - falecido em 2018], que foi como um segundo pai pra mim”, declarou.

A conexão entre os dois se fortaleceu tanto dentro quanto fora das pistas. O romance virou casamento e o casamento se tornou um projeto de vida. Juntos, eles somam quatro Olimpíadas no currículo - Cida em Atlanta (1996) e Vicente em Sydney (2000), Atenas (2004) e Pequim (2008).

“Depois da primeira medalha, tudo mudou, em todos os segmentos: financeiro, de visibilidade, de patrocínios, de reconhecimento. Depois veio a segunda medalha. Mudou um pouco mais ainda, então é um privilégio ter as medalhas Olímpicas”, conta Vicente, que conquistou prata e bronze na categoria de revezamento 4x100m.

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Vicente Lenílson de Lima segurando sua medalha de bronze, à esquerda, conquistada nas Olimpíadas de Pequim (2008) e, à direta, a medalha de prata recebida nas Olimpíadas de Sydney (2000)

 

Legado continua

Pedro, o primogênito, também trilhou o caminho como saltador e foi convocado para a Seleção Brasileira no salto triplo. Já o caçula, Davi, ganhou o ouro na mesma categoria que o irmão, nos Jogos da Juventude do Comitê Olímpico Brasileiro em 2024. Atualmente, Davi é apontado como um dos melhores do mundo em sua categoria.

"Os dois são saltadores. Então, o sangue que corre na veia deles é meu", brinca Cida. Vicente rebate com bom humor: “Mas para saltar, precisa correr. Então tem um pouquinho de mim também”.

A rotina da família gira em torno de corridas, saltos, dores e superações. Vicente e Cida coordenam o Instituto Vicente Lenílson (IVL), em Cuiabá, que atende mais de 250 jovens com treinos, apoio técnico e orientação para “formação cidadã”. 

“Quando eu fui à minha primeira Olimpíada, eu não tinha metade do material que essas crianças têm hoje. Nosso projeto é isso: dar oportunidade para outros viverem o que vivemos”, declarou Vicente.

Cida é treinadora. E, apesar dos pedidos do marido para que diminua o ritmo, segue firme à “beira da pista”. “Eu sou Cida esposa, mas também sou funcionária do Vicente”, diz rindo.

“Teve um dia que ele foi me dar uma bronca em casa por algo do treino e eu falei: calma, em casa você é marido. Me chama para conversar no Instituto”, conta.

“As pessoas veem o atleta só no glamour. Veem o Vicente com duas medalhas olímpicas, mas para ele conquistar a medalha de Sidney, teve que suportar uma lesão que sofreu na semifinal da prova. Ele só contou pra fisioterapeuta, então assim, é bem solitário essa vida de atleta”

Maria Aparecida de Souza Lima

O casal busca, acima de tudo, passar valores para os filhos e os alunos e destacam o desejo de que se tornem pessoas íntegras e profissionais, dentro ou fora dos esportes. "A gente ensina que eles precisam construir a própria história, seja no esporte, seja na vida. O mais importante é serem homens de bem", diz Cida.

Dor, superação e propósito

A trajetória olímpica também teve seus tombos. Literalmente. Lesões, distância da família e momentos de solidão fizeram parte do árduo caminho.

“O pior momento, pra mim, era ficar longe da minha família, da Cida e das crianças. Como eu competi mais tempo do que ela [Cida], que parou em 2004. Eu fui até 2011 e, entre esse período de 2004 a 2011, nasceram nossos filhos. Então, a Cida cuidou das crianças por muito tempo sozinha. Eu ficava muito tempo na Europa, competindo. Essa ausência de estar em casa foi o mais difícil pra mim”, relembrou Vicente.  

Cida fala com firmeza que os piores momentos eram as dores físicas e emocionais durante a carreira de atleta: “As pessoas veem o atleta só no glamour. Veem o Vicente com duas medalhas olímpicas, mas para ele conquistar a medalha de Sidney, ele teve que suportar uma lesão que sofreu na semifinal da prova. Ele só contou pra fisioterapeuta. Então, assim, é bem solitário essa vida de atleta. Ao mesmo tempo é por isso que a gente escolheu isso, porque a gente não depende do outro, somos nós por nós mesmos”.

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Maria Aparecida Barbosa de Souza, a Cida, primeira mulher mato-grossense a participar de uma Olimpíada, a Olimpíada de Atlanta (1996), na modalidade do atletismo

Apesar das dificuldades, ambos reconhecem que o esporte mudou suas vidas e querem retribuir. “O que eu digo pros pais é: invistam um pouquinho de tempo nos seus filhos. Levem para um projeto esportivo. Hoje, com as telas, as crianças estão cada vez mais paradas. O esporte é ferramenta de mudança”, enfatiza Vicente.

E não é só discurso. Crianças atendidas pelo Instituto conquistaram bolsas, vitórias em competições, medalhas e concluíram faculdades. “O nosso maior orgulho é ver que todos que passaram pelo projeto e já pararam, continuaram os estudos. Isso é o que importa”, diz Cida.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

“Quando eu fui à minha primeira Olimpíada, eu não tinha metade do material que essas crianças têm hoje. Nosso projeto é isso: dar oportunidade para outros viverem o que vivemos”

Vicente Lenílson

Como participar do Instituto

Interessados em participar do projeto em Cuiabá podem se inscrever por meio do link que consta no perfil do Instagram do @instituto.ivl. Segundo Vicente, há mais de 30 vagas disponíveis para crianças e adolescentes entre 10 e 16 anos. Para mais informações entre em contato por meio do telefone (65) 99817-0132 (WhatsApp).

Os treinos ocorrem às:

  • Terças e quintas - iniciação esportiva no 9º Batalhão de Engenharia e Construção
  • Segunda a sexta - treinos avançados no Centro Olímpico de Treinamento (COT) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)

“Hoje temos uma estrutura que não existia na nossa época. As crianças têm material, acompanhamento e oportunidades reais de mudança de vida”, reforça Vicente.

Se depender do casal, as pistas de Mato Grosso ainda vão revelar muitos talentos. 

“É um orgulho, a gente quer dar pra essas crianças a mesma oportunidade que deram pra gente, de sonhar, de acreditar, de ver que é possível. A nossa fala pra todos eles é que se tornem uma pessoa de bem. É lógico que todos temos o desejo de estar em uma Olimpíada, de conquistar uma medalha olímpica, mas não é pra todos, infelizmente. O que mais importa é que os atletas que passaram no nosso projeto - que já pararam de competir - todos terminaram os estudos, fizeram faculdade, então isso nos deixa muito orgulhosos”, afirmou Cida.