Cuiabá, 02/11/2026

Entre saudade e fé, Finados deve reunir 110 mil visitantes nos cemitérios de Cuiabá

Além de homenagens a familiares falecidos, líder religioso destaca período como momento de autorreflexão e esperança na ressurreição

A tradição católica que nasceu do conceito de obter indulgências e interceder em favor das almas que aguardam a purificação no purgatório deve movimentar mais de 110 mil pessoas nos cemitérios de Cuiabá, nesta segunda-feira (02), feriado nacional de Finados. Marcada pelo luto, a data se tornou também um momento de homenagens aos entes queridos e um convite a cristãos e fiéis de outras tradições à reflexão sobre a fé e o sentido da própria vida.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 Entre velas e orações, a saudade encontra na fé uma forma de manter vivos os vínculos

O padre Renan Cunha, vigário da Paróquia São José Operário, no bairro Dom Aquino, mora na capital há 13 anos e destacou a forte adesão da população local à data. Segundo ele, a mobilização reflete o perfil religioso do município, que é de maioria católica: são 323.410 fiéis registrados no Censo de 2022 do IBGE, número que representa cerca de 53% dos habitantes.

De acordo com o clérigo, a tradição de oito séculos está fundamentada na doutrina da Igreja Católica sobre a salvação e o purgatório. Ele explicou que o dia 2 é apenas a data central do oitavário da indulgência plenária, que começa em 1º de novembro (Dia de Todos os Santos) e segue até o dia 8. O período representa um momento de reafirmação da esperança dos fiéis na ressurreição, na vida eterna e no descanso das almas.

“É um dogma da nossa fé católica. No dia primeiro, nós celebramos aqueles que já estão na glória de Deus, no céu. No dia dois, nós celebramos as almas que estão no purgatório, esperando serem purificadas de seus pecados”, pontuou. “Quando vamos ao cemitério, é para nos recordar de que aquela carne que foi sepultada ressuscitará. E que um dia, em corpo e alma, todos participaremos da vida eterna com Deus”, completou o padre em entrevista ao #rdnews.

Arquivo pessoal

Padre Renan Cunha, vigário da Paróquia São José Operário, no bairro Dom Aquino, em Cuiabá

O vigário explicou que, ao longo do oitavário, os fiéis são orientados a confessar-se, repudiar todo apego ao pecado, comungar na missa, visitar cemitérios e rezar pelas intenções do Papa Leão XIV. Dessa forma, conforme a tradição da Igreja, os vivos podem buscar remissão de pecados em favor das almas que se encontram no purgatório.

A estudante Camilly Souza, de 21 anos, contou à reportagem que mantém o hábito de ir ao cemitério e orar pelos parentes falecidos desde muito antes de perder o pai, em 2023. Ela relata que, desde a infância, acompanha a mãe e a avó em visitas aos jazigos do avô e do tio maternos.

Isso te faz ver que o luto não é feito só de momentos ruins. Ele vai me acompanhar para o resto da vida e eu quero levá-lo do melhor jeito.

“Lembro que, desde que eu era criança, a gente comprava e acendia velas e hoje continuo fazendo, ainda mais do que antes. Eu sempre visito e não deixo para ir só no Dia de Finados”, afirmou.

Para Camilly, que é católica, a data transcende o rito religioso: serve também para refletir e resgatar as boas lembranças ao lado de quem já partiu. “É uma questão que vai além da religião. Lembrar você lembra todos os dias, mas é um dia de pensar mais naquela pessoa e valorizar os bons momentos”, disse.

Destinar momentos para pensar nas pessoas amadas ajuda a lidar com a perda ao longo do tempo, avalia a estudante. Ela acredita que a saudade nunca passa, mas não precisa ser encarada com sofrimento constante. “Isso te faz ver que o luto não é feito só de momentos ruins. Ele vai me acompanhar para o resto da vida e eu quero levá-lo do melhor jeito. O que eu vivi com meu avô, meu tio e meu pai não foram só momentos difíceis, e sim muitas lembranças boas”, completou.

Arquivo Pessoal

Camilly Souza com o pai, Luiz Mário Magalhães de Souza, que faleceu em 2023

Para o padre Renan Cunha, o período de Finados é complementado por um convite à autorreflexão. Mais do que lembrar quem já partiu, a data propõe um olhar para os vivos, suas condutas e escolhas diárias. “[É] uma meditação sobre a nossa morte, sobre o que nós estamos fazendo com a nossa vida”, destacou.

Preparativos

No Cemitério Parque Bom Jesus, único particular da capital, a previsão do administrador Valmir Garavaglia é de receber cerca de 75 mil pessoas. Com portões abertos das 6h às 17h30, o local terá programação ecumênica: missas católicas às 8h e às 16h, culto evangélico às 9h45 e palestra espírita às 11h. A estrutura reúne 45 mil jazigos e cerca de 90 mil pessoas sepultadas.

Já os seis cemitérios públicos da área urbana de Cuiabá - Piedade, Porto, Coxipó, Pascoal Ramos, São Gonçalo e Despraiado - devem receber cerca de 35 mil pessoas ao longo da data, conforme estimativa da Central Municipal de Serviços Funerários, vinculada à Prefeitura.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 Cemitério do Porto, localizado na Avenida Ipiranga, em Cuiabá

Nos cemitérios municipais os portões funcionarão das 6h às 18h. A programação nas principais necrópoles - Piedade, Porto e Coxipó - ao longo da data inclui missas e palestras conduzidas por paróquias e lideranças religiosas locais. Para receber o público, a Prefeitura montou uma estrutura com tendas de apoio, cadeiras de rodas, banheiros químicos acessíveis, distribuição gratuita de água mineral nas entradas e café da manhã aos visitantes.