Famosa fila dos ossinhos é uma ação social que acontece há 12 anos
Segundo proprietária que faz as doações, quem bate à sua porta não sai sem ter o que comer
Apesar de ter virado manchete e estampado páginas de jornais nacional e até internacional, a doação de "ossinhos" por proprietários de um açougue, localizado no CPA III, na Capital de Mato Grosso, trata-se de uma ação social que acontece há mais de 12 anos. Os 2,5 quilos do produto entregues no local a cada pessoa que aguarda na fila nas primeiras horas da manhã de segundas e quintas-feiras chegam a alimentar mais de 200 famílias da Grande Cuiabá.
A entrega acontece de forma organizada. As filas são divididas entre homens e mulheres e compostas, em sua maioria, por idosos, crianças e deficientes. Alguns trazem o pouco que têm em casa para dividir em um café da manhã.
Rodinei Crescêncio/RDNews
O #rdnews esteve no local, acompanhou a fila e conversou com beneficiados. Porém, muitos se mostram arredios, não se deixam filmar por receio que ação seja interrompida pelos empresários devido à falsa disseminação de notícias sobre a doação e a repercussão negativa da atividade.
Um idoso, que aceitou falar com a reportagem, mas preferiu não se identificar, conta que tem 67 anos, e que, há pelo menos cinco, está toda segunda e quinta na fila para complementar o alimento em casa.
Aposentado, o homem era o terceiro da fila e estava acompanhado de um cachorrinho que é bem conhecido por todos. “Tem uns 5 anos que venho aqui. Tenho amigos, venho e pego o pacote do ossinho, e isso ajuda com as despesas de casa. A carne está cara e a aposentadoria não dá para quase nada”, confidencia.
Dona do local, a empresária Samara Oliveira, de 35 anos, explicou que as doações às famílias acontecem há 12 anos. A ideia surgiu como forma de ajudar as pessoas mais necessitadas que viviam no entorno do açougue e que têm dificuldade em comprar um quilo de carne.
Ela conta que, incialmente, o número de beneficiados era menor. Porém, o volume cresceu muito nos últimos cinco anos e se acentuou durante a pandemia da Covid-19, porque as pessoas tiveram que ficar um bom período em casa e não tinham como trabalhar, nem mesmo fazer pequenos “bicos”.
Segundo Samara, com a expansão, a empresa passou a organizar melhor as entregas, definir dia e horário para conseguir atender a todos. Assim, ficou fixado segundas e quintas-feiras, sempre às 6h. Mensalmente são doados 3,6 mil quilos de ossinhos, totalizando R$ 16 mil/mês.
“Cheguei a ficar assustada com o número que foi subindo gradativamente. Descobri, em conversas com eles, que estavam vindo gente até de Várzea Grande, de bairros longínquos”, conta.
“Muitas pessoas gostam também do acolhimento e aconchego que damos a eles, e é isso que eles precisam no mundo, mais amor e mais carinho”
Samara OliveiraSamara revela que, nos últimos cinco anos, algumas pessoas chegam a ir na região do açougue todos os dias.
“Muitas pessoas gostam também do acolhimento e aconchego que damos a eles, e é isso que eles precisam no mundo, mais amor e mais carinho. Tem senhorinhas aqui de 90 anos que veem e conversam horas com a gente, e nós tiramos um tempo para eles. E sempre digo, não é só do alimento do corpo que eles precisam. Necessitam do alimento para alma também”, destacou.
A empresária afirma que sua maior satisfação é conseguir atender quem bate à sua porta, mesmo com o crescimento da quantidade de pessoas necessitadas.
“No começo da pandemia, quando eu pude contar e me assustei, eram 242 pacotinhos de dois quilos. E para glória de Deus, nós estamos conseguindo sustentar, e, quando não tem a carne com osso para doar, nós tiramos um dorso que podemos estar vendendo, mas o mais importante é que ninguém que venha bater na nossa parte saia sem o que comer. Isso não vai acontecer no Atacadão da Carne porque esse lugar é de Deus”, declarou ela.
Rodinei Crescêncio/RDNews
Prato típico
O tão famoso “ossinho” que virou tema durante as eleições de 2023, enredo de escola de samba em São Paulo, e ganhou os noticiários nacionais pela concepção das pessoas estarem sendo alimentadas com ossos de bovinos é, na verdade, um alimento muito consumido pelas famílias cuiabanas.
Preparado com mandioca ou banana verde, vira prato típico e é até disputado em festas de santo na Grande Capital. Justamente por isso, a empresária Samara Oliveira se assustou tanto com a proporção que deram às doações. De acordo com ela, o único propósito da ação é ajudar quem não tem condições de comprar esse tipo de alimento.