Guerreiro, atleta de MT corre com muletas superando limites em todo o país - fotos
Rodinei Crescêncio
Cristiano enfrenta desafios, em treinos pesados e disputas competitivas, disputando com atletas que nâo têm a limitação dele, que perdeu parte da perna
Paixão e Arte Fotografia
Cristiano corre de muletas e não vai para setor parolímpico, porque regras atuais impedem
Após atravessar uma lagoa, um labirinto, rastejar e subir um morro que mais parecia lamaçal, Cristiano Soares, de 28 anos, mais conhecido como “Cristiano Brown”, se viu diante de outro morro muito alto e coberto de pneus. Era domingo de 7 de julho e ele participava da 4º edição da Corrida Rotam Extreme, na lagoa Trevisan, região sul de Cuiabá. As barreiras já eram dificultosas para qualquer outro corredor daquele dia, mas para ele era um desafio a mais, já que perdeu parte da perna esquerda depois de um acidente de moto e é assim, como esta limitação, que se transformou em um campeão.
Morador de Lucas do Rio Verde (a 360km da Capital), Cristiano é cearense. Tem se destacado em cidades por onde tem corridas de rua, chamando a atenção de curiosos e da imprensa, por correr de muletas – uma prática ainda não reconhecida pelos órgãos desportivos do país. Ele consegue saltar com a perna direita e se projetar para a frente com os apoios. Porém, a meta do cearense é ser um atleta paralimípico, mas ainda lhe falta patrocínio.
Depois de passar pelos primeiros obstáculos, Cristiano conseguiu escalar o morro com pneus com ajuda das mãos, enquanto uma pessoa da organização segurava as muletas. A corrida na Lagoa Trevisan tinha 5 km de percurso, com mais de 15 obstáculos no caminho, como escaladas, pneus, pequenos morros. O edital previa a participação de deficientes físicos que comprovassem dificuldade para caminhar ou correr e apontava que "é de responsabilidade do atleta avaliar a necessidade de acompanhamento de terceiros".
"Todos os obstáculos foram desenvolvidos para que o participante (atleta) não necessite de auxilio de terceiros para transpô-los”, informa trecho. Porém, algumas pessoas não acreditavam que Cristiano conseguisse cumpri-la. Eles aconselhavam a pular ou dar a volta, ao invés de ultrapassar, os obstáculos. “Mas se estou aqui é para fazer (a corrida)”, disse.
“Você terá opções de escolher caminhos fáceis ou difíceis, escolher entre fazer ou não aquele desafio”
Cristiano SoaresTrês dias depois, ele escreveu em suas redes sociais que, "uma corrida de obstáculos nunca será fácil de completar, assim como na vida". E segue: "Vc terá terá opções de escolher caminhos fáceis ou difíceis, escolher entre fazer ou não aquele desafio", acrescenta. Ele conta que, apesar de sofrer a cada barreira, o seu pensamento era voltado para cruzar a linha de chegada e "assim completar a missão e acabei fazendo mais que isso".
"Além de terminado toda a prova voltei pro início e refiz a prova mais uma e ainda assim não pulei nenhum dos obstáculos e fiz todos novamente sem deixar nenhum sem fazer... E vcs querem saber qual o limite do ser humano ainda??? Exatamente não há, isso quando se vc esta realmente querendo algo, mas tem q fazer mais q só querer tem q correr atrás e fazer de tudo pra conseguir, mesmo q doa, mesmo q sangre, mesmo q vc n tem mais forças", escreveu.
Pelas redes sociais, Cristiano vem se tornando uma fonte de superação. Em maio deste ano, chegou a ir ao programa Encontro, apresentado pela jornalista Fátima Bernardes, na Rede Globo. Amigos e internautas compartilham mensagens e comentários de que o cearense é uma inspiração para suas vidas.
Galeria: Os desafios de Cristiano
História
Em 2015, Cristiano passava as fériascom à família na cidade natal de Crateús, no interior do Ceará, quando sofreu um grave acidente de moto. Ele voltava para casa e um motorista embriagado, com o carro desgovernado, o atingiu frontalmente. Ele foi internado no hospital com vida, mas perdeu parte da perna esquerda na altura da panturrilha. Tinha apenas 25 anos na época.
Depois do acidente, Cristiano ficou ainda mais quatro meses no hospital. Em seguida, mais seis em casa sob os cuidados da família ainda no Ceará. Somente no final daquele mesmo ano é que ele voltou para Lucas do Rio Verde. Ele enfrentou um quadro de depressão durante todo esse tempo – e que tem suas recaídas até os dias de hoje.
“A pessoa que tem nunca se recupera. (A depressão) nunca vai embora totalmente. Às vezes, basta à pessoa ficar sozinha para vir um monte de pensamento ruim”, comenta.
Ele começou então a pesquisar na internet “alguma coisa para fazer”. “Alguma coisa que me dessa abertura para não sentir depressão todo o tempo”, disse. Foi assim que, em março de 2016, descobriu que haveria uma corrida na cidade.
Era a oportunidade. Era o esporte mais próximo do futebol – sua paixão antes do acidente.Cristiano conta que jogava por diversão com os amigos. Postava também selfies na academia nas redes sociais. Mas, com a amputação, adotou a corrida. Já foram mais de 200 em dois anos, segundo ele, que chega a correr duas vezes por semana em cidades do país todo e até algumas na América Latina, como no Uruguai, no ano passado.
Naquela primeira corrida de Lucas do Rio Verde, ele se inscreveu como uma pessoa comum, pois acreditava que, se tivesse falado da sua condição, não iriam deixá-lo correr. “Fiquei com medo por ser o único participante (deficiente)”, disse. Depois de se inscrever, ele começou a academia para se fortalecer.
Correu numa cadeira de rodas e os primeiros percursos foram com ela. Mas ele não se adaptou no veículo. Achava difícil se locomover e dependia de ajuda de pessoas – uma situação que ele buscava evitar. “Os percursos têm subida, buraco, areia, lama”, relata.
Foi quando passou a correr de muletas. A família achou loucura, mas com elas era muito melhor.“Encaro qualquer desafio”, disse. Ele então voltou à academia para ganhar condicionamento físico, mas, até correr somente com os apoios, passou por uma transição em que corria metade do percurso na cadeira, e outrana muleta.
Só na quarta ou quinta corrida é que Cristiano começou a correr somente com as muletas. "Quase não terminava o percurso". Após as corridas, ele conta que fica muito exausto e sente muita dor nos braços e pernas. “Muito esforço exigido. Dá assadura. Queima. Machuca muito a musculatura por causa dos movimentos repetitivos”, comenta.
Ele voltou à academia treinando com pesos mais pesados “para aguentar o percurso e não sentir mais exaustão e sem ter dor”. A partir daí, ele foi aumentando as metas depois de conquistá-las. Se corria oito quilômetros, na próxima ele buscava fazer nove. Se atingisse dez, na próxima onze e assim sucessivamente. O maior percurso foi na tradicional corrida de São Silvestre, no dia 31 de dezembro de 2018, em São Paulo, onde correu 15 km.
Cristiano comentou que não tem como arcar com a compra de uma prótese feita de fibra de carbono ou titânio. Após pesquisar, ele conta que só uma custa entre R$ 20 e 30 mil – e somente para caminhar no dia a dia. Para correr, o objeto é feito de outro material mais resistente e os preços podem variar entre R$ 100 e 200 mil. “Tem que ser um atleta”, disse.
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Saltando pneus, um esforço grande para qualquer um
E ele não se considera um atleta?
“Ainda não. Não entrou em nenhuma categoria”. Segundo Cristiano, não existe uma categoria para quem corre de muletas. O Comitê Paralímpico Brasileiro, que rege esportes para pessoas com necessidades especiais, leva em conta apenas quem faz as corridas de cadeira de rodas ou uso de próteses. "(Eles) não tem o interesse de fazer uma categoria ‘muletante’", disse.
Apesar disso, Cristiano sonha em ser um atleta paraolímpico. Mas ainda lhe falta o patrocínio, além de cumprir os demais requisitos do Comitê Paraolímpico, como se inscrever em um clube profissional e fazer pontuações nas provas da entidade para concorrer provas, como pan-americanos e olimpíadas. Atualmente, ele consegue viajar tanto pelo país por causa do benefício dado a deficientes que garante a gratuidade em viagens interestaduais. Mas o custo da maioria das corridas sai por sua conta e, algumas ocasiões, de amigos, rifas e pequenas doações de empresas.
Depois da corrida de Cuiabá, no começo deste mês, Cristiano já foi a Brasília. Fez 6km em 55 minutos. Em seguida, correu no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. A sua corrida mais próxima é em Cuiabá, no próximo domingo (28), e ele já planeja ir para São Paulo, Florianópolis, Goiânia e outras cidades do país, além de Mato Grosso.
Quando não corre com as muletas, Cristiano fica com suas duas meninas de 3 e 2 anos. Ele também cumpre licença do trabalho, um frigorífico para frangos e suínos em Lucas do Rio Verde, e recebe uma pensão pelo INSS. Ele ainda aguarda laudo para saber se volta ao trabalho, mas, enquanto isso, participa de corridas de rua pelo país.