Cuiabá, 01/11/2026

Lojistas relatam perdas após mais de 20 anos de trabalho: Renascer das cinzas

Mais de 600 lojas foram destruídas pelo fogo na madrugada desta segunda-feira (15), em Cuiabá

Annie Souza

Lojistas e funcionários do Shopping Popular relatam perdas e prejuízos após anos de trabalho no complexo comercial, que ficou completamente destruído pelas chamas na madrugada desta segunda-feira (15), em Cuiabá. Para alguns deles, esse era o trabalho de toda uma vida, já que estavam há mais de 20 anos no local. O incêndio destruiu mais de 600 lojas.

O comerciante Carlos Henrique, dono de uma loja de pesca, estava no Shopping Popular desde o início do funcionamento, há 30 anos. Ele teve a banca toda queimada e 80% dos seus produtos perdidos, visto que tinha apenas 20% estocados em um depósito fora do complexo.

"Quando ficamos sabendo, viemos pra cá para ver se tinha como salvar algumas coisas, mas chegamos aqui e já estava tudo lacrado, o fogo já havia tomado conta. O prejuízo é muito grande, porque 80% da nossa mercadoria que estava aqui no estabelecimento já pegou fogo. Os 20% que temos no depósito não dá nem para começar", relata.

Annie Souza

Além da família dele, a do sócio também dependia exclusivamente da renda da loja de pesca. Carlos conta que estavam todos com grande expectativa para a nova reforma projetada para o Shopping Popular. O projeto, divulgado em maio deste ano, previa ampliação do estacionamento com aproximadamente 1 mil vagas cobertas para carros e motos em sete pavimentos, ampliação da praça de alimentação para a capacidade de receber 1,5 mil pessoas e até um cinema.

"Esperávamos por essa nova reforma, seria um novo espaço para atender novos públicos e novos atrativos e isso iria atrair mais público para nós. Agora é levantar a cabeça e começar do zero. Nossa vida inteira foi aqui, 30 anos não são 30 dias, ali estava tudo que conquistamos", desabafa.

Matheus Fuim, dono de loja de assistência técnica de celular e venda de aparelhos eletrônicos, estava há três anos no local, e conta que o prejuízo sofrido por ele foi de cerca de R$ 150 mil.

"O fogo começou em torno das 2h, que foi o grande estrondo. Até às 3h, quando chegamos, o fogo já estava na metade do shopping. Já não tinha mais o que ser feito. O prejuízo direto é de R$ 130 mil a R$ 150 mil, mas na verdade é inestimável, pois estamos há tanto tempo trabalhando aqui, conquistando a nossa tabela de clientes, e saber que hoje não temos mais esse ponto, o cliente não vai chegar aqui e encontrar a gente", pontua.

Segundo Matheus, o faturamento mensal era, em média, de R$ 50 mil e três famílias dependiam apenas da loja como fonte de renda.

"Da noite para o dia não teremos mais como trabalhar, nossa renda não poderá ser feita. Não tem nem como pensar no que fazer agora. É ter o olhar empreendedor e saber que a gente não pode parar. Mas o coração fica triste por tudo que perdemos", diz.

Annie Souza

A lojista de eletrônicos Dênia Varago tinha sua banca desde 1995, quando o complexo passou a funcionar no atual terreno. 

"Quando chegamos o fogo já tinha se alastrado. Não sabemos como vai ser daqui para frente, nós sobrevivíamos daqui. Essa tragédia acabou com tudo. Agora vamos ter que recomeçar, renascer das cinzas, que foi o que sobrou", lamenta.

Para o técnico em telefonia celular, Quidaniro Mourão, que trabalha há quase 25 anos no complexo, essa foi a pior tragédia vista no local em toda sua carreira.

"Eu já vi muita coisa acontecer aqui dentro, mas essa que aconteceu agora foi a mais terrível de todas. Já passamos por pandemia, passamos por dois homicídios, problemas com contrabando. Mas essa, sem dúvidas, foi a maior tragédia. Eu sei que vai ser difícil, mas os comerciantes aqui são resilientes. Vamos construir tudo de novo, pode demorar um pouco, mas será reconstruído", afirma o trabalhador.

Annie Souza

O recomeço do Shopping Popular deverá acontecer no complexo Dom Aquino, que fica ao lado do prédio que foi destruído. Ainda não há detalhes de quando a estrutura voltará a funcionar.

O fogo

O incêndio de grandes proporções começou na madrugada desta segunda-feira (15). A fachada e as estruturas do complexo comercial desabaram com o fogo. Segundo o Corpo de Bombeiros, o incêndio foi controlado no início desta manhã, mas o rescaldo continua. Por ter muito material combustível, como plástico, perfumes, entre outros, a propagação do fogo foi maior.

Reconstrução

Autoridades prometeram ajudar a reconstrução do complexo comercial. O prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB) convocou toda a equipe do Executivo Municipal para discutir um plano emergencial de recuperação e reconstrução do Shopping Popular.

O governador em exercício, Otaviano Pivetta (Republicanos), também esteve no local para prestar solidariedade aos atingidos pelo incêndio. Segundo ele, o Estado também está mobilizado para auxiliar na reconstrução.

Wilson Roberto dos Santos

De acordo com Pivetta, o chefe da Casa Civil, Fábio Garcia (União Brasil) já convocou a Associação dos Camelôs do Shopping Popular, por meio do presidente Misael Galvão, e demais lideranças para ouvir e entender de que forma o Governo do Estado poderá contribuir.

O presidente da Assembleia Legislativa, deputado estadual Eduardo Botelho (União Brasil), também se manifestou sobre o incêndio no Shopping Popular. Em nota, prometeu articular medidas efetivas para ajudar os comerciantes atingidos pelo sinistro.