Cuiabá, 01/11/2026

Mães de autistas se sentem abandonadas em MT e cobram políticas públicas a filhos

Ana Alice, aos 2 anos e meio, não falava, tinha o olhar vagante, não socializava com crianças da mesma idade e, em ambiente barulhento, tampava os ouvidos, preferindo sempre o isolamento. Desconfiando de que isso tudo não era normal, a mãe dela, Kelly Viegas, a levou ao médico. Após análise de equipe multidisciplinar, obteve o diagnóstico. “Minha filha é autista”.

Agência Brasil

Crianças que têm autismo preferem isolamento e têm dificuldades de se relacionar

Nesta segunda (2), Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, pais e mães de crianças e adolescentes ligados à Associação de Amigos do Autista de Mato Grosso se sentem perdidos, abandonados e cobram políticas públicas voltadas para este transtorno que atinge 10 mil pessoas na Capital e no interior.

Justamente por ter uma filha autista, Kelly assumiu a presidência da Associação e explica que a principal reivindicação atualmente é acesso a diagnóstico e tratamento. De acordo com a presidente, sem isso qualidade de vida de quem tem autismo fica prejudicada. "Atrasa a estimulação que deve ser feita desde bebê de preferência", ressalta.

Segundo ela, o atendimento deveria ser feito nos CAPs e no Cridac, mas as famílias não sãos atendidas como deveriam. "Sempre informam que não tem profissional e a maioria dos pais, os que podem, paga tratamento particular, o que é caro". O tratamento envolve médico neurologista, psiquiatra, psicólogo, terapeuta e atividades lúdicas. 

A Associação tem se esforçado em contribuir na qualificação à rede pública de educação e saúde, alertando para o problema, com palestras e orientações.

“Não é fácil lidar com crianças autistas, maioria não fala, então não se sabe direito quando tem fome ou sede ou o que estão sentindo de modo geral. São aparentemente agressivas, mordem, beliscam, mas é para chamar a atenção, já que não conseguem se comunicar. No entanto, é possível aprender a lidar com tudo isso.”

Outra mãe de uma criança autista é a jornalista Andreia Martins, 38. O filho Samuel foi diagnosticado com 10 meses. "Fizemos a intervenção precocemente e hoje ele está ótimo. Se eu não conhecesse este universo, ia achar que meu filho é apenas extremamente inteligente. Aprendeu o alfabeto com 10 meses, lê muito bem, sabe números, tem poder de memorização incrível, porque ele é um autista considerado de alta funcionalidade, que tem uma super dotação junto. Fala de tudo, faz contato visual, é brincalhão e super dócil. Só que, ao mesmo tempo que grava as coisas, que já sabe ler, também não consegue entender uma brincadeira básica como o esconde-esconde, fica perdidinho", explica.

Transtorno

O Autismo ou Transtornos do Espectro Autista (TEA) causa problemas no desenvolvimento da fala, nos processos de comunicação, no relacionamento e no comportamento social da criança. Quem tem o transtorno, é diagnosticado em três níveis. Atinge 4,5 mais o sexo masculino.

“É possível aprender a lidar com tudo isso, diz mãe Kelly”

Em nível nacional, o apresentador Marcos Mion tem levantado bandeira em nome do filho Romeo, 11, cobrando amor por inteiro. "Ele me ensinou a aprender mais, a amar mais", conta Mion, ao site R7. "Sempre levei o autismo de forma positiva, queria um filho, independentemente de como ele fosse chegar! E ele chegou diferente do que eu esperava, na verdade, rapidamente percebi que ele chegou perfeito!".

Entre famosos que se destacaram apesar dos limites impostos pelo transtorno, um dos autistas mais citados é Bill Gates, presidente da Microsoft, e Albert Einsten, considerado gênio da física. "Fala-se que ele tinha que dar 10 voltas no entorno da faculdade, para só depois dar aula", conta Kelly. "O autista tem movimentos repetitivos". O jogador de futebol Messi já foi citado com autista, mas a família dele nega.

A data

O Dia Mundial de Conscientização do Autismo foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 18 de dezembro de 2007, para chamar atenção para o transtorno, derrubar preconceitos e garantir direitos.

Outro lado

A secretaria municipal de Saúde, questionada sobre o atendimento a autistas, diz que não atende esta clientela. Já a pasta estadual de Saúde (SES) informa que CAPs é responsabilidade de Cuiabá. Gerente de Assistência Terapêutica do Cridac, Gabriel Naves, confirma que realmente faltam profissionais qualificados tanto nos CAPs quanto no Cridac, que atende não somente autistas mas diversas doenças e transtornos. Segundo ela, trata-se de uma política nova, de 2013, mas que a SES está buscando melhorias no atendimento, para acolher pacientes bebês, crianças, adolescentes e adultos.