Pantaneiros mudam rota e usam turismo de experiência para superar tragédias
Com orientação do Sebrae-MT, empreendedores e moradores conseguiram deixar para trás a pandemia e o incêndio que devastou o Pantanal
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Pequenos empreendedores de sete municípios do Pantanal mato-grossense têm usado suas próprias vivências como fonte de renda com o chamado “turismo de experiência” e, com isso, têm transformado a realidade da economia local, que sofreu um grande impacto nos últimos quatro anos, com a chegada da pandemia da Covid-19 e, na sequência, o enfrentamento ao maior incêndio da história no bioma, em 2020.
As duas grandes tragédias levaram a perda econômica, social, ambiental e atingiram a vida de mais de 180 mil pessoas nos municípios de Cáceres, Lambari D’Oeste, Nossa Senhora do Livramento, Poconé, Santo Antônio do Leverger, Barão de Melgaço e Itiquira. A saída encontrada para se reerguerem veio através da criação de uma rede integrada de produtos que formam roteiros especiais para recuperar o turismo da região, que faz parte do Programa de Apoio à Recuperação do Bioma Pantanal (Pró Pantanal), desenvolvido pelo Sebrae de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
O programa veio ao socorro não apenas de pequenos empreendedores natos, como donos de agências e pousadas, mas também de sitiantes e outras pessoas que, até então, nunca haviam pensado em suas experiências de vida como produtos rentáveis.
“Experiências como conhecer um artista plástico, fazer uma peça de cerâmica pantaneira, ter um almoço colonial na Fazendas Jacobina, conhecer a cerveja artesanal na Fazenda Facão, aprender sobre a viola de cocho e ouvir sobre as lendas locais com o seu Lourenço, fazer passeio de caiaque ou de barco”
Narra o empreendedor e agrônomo Willian Marques DuarteCom isso, trabalhadores locais como o Daniel “da castanha de cumbaru”, a doméstica Luzilene, o violeiro Lourenço, o sitiante Jorge da Silva e o Seu Alcides da Viola de Cocho, passaram a fazer parte de roteiros turísticos, recebendo visitantes de todas as regiões, inclusive de outros países.
O agrônomo Willian Marques Duarte foi um dos empreendedores impactados diretamente pelo projeto. Ele havia aberto há três meses uma pousada junto com o irmão em Cáceres (a 220 km de Cuiabá), quando começou a pandemia da Covid-19. Com pouco tempo de mercado, foi preciso fechar o estabelecimento.
“Fiquei muito perdido no momento, angustiado, porque era um negócio que eu queria tocar, mas não tinha dado certo. Em 2021, decidi abrir uma agência de viagens. Nesse meio tempo apareceu os chamados de impacto, que eram ações do Pró Pantanal e eu participei das formações e foi quando meus planos começaram a ganhar forma”, relata.
Um inventário produzido pelo Sebrae identificou mais de 300 potenciais atrativos turísticos que ainda não estão formatados e comercializados no Pantanal. Esses potenciais podem virar produtos turísticos através da história, cultura, vida, saberes e fazeres do homem pantaneiro. Entre esses potenciais, foram identificados baías, cachoeiras, cavernas, comunidades tradicionais, lendas ribeirinhas, terras indígenas, fazendas históricas, artesanatos, sítios históricos, museus, festivais, cavalgadas e feiras.
“O Sebrae tinha identificado esses potenciais e formatados alguns produtos e eu tinha a agência que precisava de novos produtos. Fizemos essa conexão e começamos a trabalhar juntos. Em 2023, começamos a oferecer sete roteiros com o chamado turismo de experiência”, conta Willian, que comanda atualmente a Five Adventure com o sócio João Paulo Barbieri.
Reprodução/Five Adventure
Contemplação do alvorecer e pôr do sol no Rio Paraguai de caiaque pela Five Adventure
Segundo o empreendedor, o diferencial foi ter, além dos pacotes de pousadas e passeios, os roteiros com vivências pantaneiras. “Experiências como conhecer um artista plástico, fazer uma peça de cerâmica pantaneira, ter um almoço colonial na Fazenda Jacobina, conhecer a cerveja artesanal na Fazenda Facão, aprender sobre a viola de cocho e ouvir sobre as lendas locais com o seu Lourenço, fazer passeio de caiaque ou de barco. Formamos essa rede para oferecer uma experiência única. Tem experiências nossas que custam R$ 50, não são experiências caras. Mas ainda falta as pessoas terem essa oportunidade de degustar isso”, expõe.
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Oficina de arte pantaneira em rota da Five Adventure
Segundo Willian, a renda gerada pela Five Adventure também movimenta a economia de quem fornece os produtos, dos bares, restaurantes, e outros negócios. “Acredito que o turismo é uma das economias que mais podemos aproveitar. O Pantanal já existe, nós só precisamos cuidar dele e fazer gerar renda. O grande diferencial que eu vejo é a valorização da nossa cultura. Um exemplo é o Seu Lourenço. Sempre chamavam ele para tocar viola de cocho, para participar de evento, sem receber nada por isso. Hoje pela Five as pessoas pagam pelo valor cultural que o Seu Lourenço tem, pela fala dele, pela apresentação. E ele vende a viola de cocho também. Isso começa a ser reconhecido porque é importante. Atinge diretamente as pessoas que estão na nossa base”, defende.
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Mestre cururueiro Lourenço da Guia - Rota da Five Adventure
Acreditando no desenvolvimento do turismo como geração de renda e transformação da realidade local, Willian criou a Associação de Desenvolvimento e Inovação do Pantanal (Integra Pantanal). Atualmente, a Integra Pantanal tem 32 líderes nos sete municípios desenvolvendo ações focadas em três eixos: agro, bioeconomia e turismo e educação. “Para mim, o Pró Pantanal foi fator decisivo. Além da minha empresa, consegui pensar em um grupo social, que me propiciou todo esse conhecimento. No período pós pandemia, eu tive que vender meu carro, vender minhas coisas, ficaram apenas as dívidas. Foi uma fase de pensar e me reinventar mesmo”, conta.
Criado como um programa de apoio à recuperação econômica do bioma, o Pró Pantanal visava justamente transformar os pequenos negócios em protagonistas do desenvolvimento sustentável. Domingas Ribeiro, dona do Receptivo Ecotur Pantanal, conta que entrar no projeto foi uma virada de chave. Em 2019, ela arrendou uma pousada de turismo ecológico e, em 2020, com a chegada da pandemia, os serviços tiveram uma grande queda. Em agosto, com as queimadas, a pousada dela foi a primeira atingida e perdeu 90% da área.
“Tivemos que parar de trabalhar, não tinha o que mostrar, era só um espaço queimado. Quando pensamos que as coisas iriam melhorar, em 2021, chegou a segunda onda de Covid. Todas nossas economias guardadas eu tinha usado na pousada. Fiquei sem dinheiro e com muitas dívidas e precisei entregar a pousada em 2021. Em 2022 comecei minha agência do nada, do zero novamente”, relata a empreendedora.
Reprodução/Ecotur Pantanal
Domingas Ribeiro, proprietária do Receptivo Ecotur Pantanal, deu a volta por cima e hoje recebe turistas brasileiros e estrangeiros
Domingas, que também é guia de turismo, conta que precisou fazer outros trabalhos na área para ter uma renda, já que a agência não era suficiente para se manter assim que foi criada. Quando a empresa entrou no Pró Pantanal, foram desenvolvidos novos roteiros culturais que possibilitaram o desenvolvimento de sua agência. Agora, ela consegue viver só do seu negócio. A agência tem recebido muitos clientes e só no ano passado, recebeu mais de 50 turistas estrangeiros, de países como a França e a Alemanha.
“Ficamos dois anos trabalhando na formatação desse projeto e hoje temos um trabalho com o sitiante Seu Jorge, com as ceramistas da cidade, o Museu da Vovó Bem, o Daniel do Cumbaru. Como os turistas que vêm pra Poconé vão direto para o Pantanal, eles não costumavam parar muito aqui. Então desenvolvemos esse trabalho para o turista conhecer a cultura local, uma vivência pantaneira, é um turismo de experiência mesmo”, explica Domingas.
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Conhecido como Daniel do Cumbaru, o empreendedor que trabalha com a extração da castanha do cumbaru, usada de diversas formas na culinária
“O mercado pós-pandemia sinalizava que o ecoturista não queria mais apenas contemplar, queria experenciar e aliar a natureza com a cultura. A partir disso desenvolvemos alguns roteiros, trabalhando a valorização das culturas dos saberes e fazeres do povo do Pantanal”
Revela a gestora de turismo do Sebrae-MT, Marisbeth GonçalvesO turismo tem demonstrado seu efeito multiplicador e acaba impactando em outros setores da economia, conforme conta Domingas. “Um exemplo é o Daniel do Cumbaru, que faz parte do nosso roteiro. Ele e a família trabalham com a extração da castanha de cumbaru. Ela é mais saudável que a do Pará, e pode ser usada de diversas formas na culinária. Algumas pousadas, antes de conhecerem o Daniel, compravam essa castanha de Goiás. Depois que começamos a fazer esse trabalho com ele, as pousadas passaram a comercializar o produto do Daniel e a introduzir as castanhas no cardápio, vendê-las e até a fazer chaveiro com elas, isso tem dado certo”, narra.
A gestora de Turismo do Sebrae/MT, Marisbeth Gonçalves, explica que a vicência foi uma demanda percebida durante análise do programa Pró-Pantanal. “O mercado pós-pandemia sinalizava que o ecoturista não queria mais apenas contemplar, queria experenciar e aliar a natureza com a cultura".
A partir disso, desenvolvemos alguns roteiros, trabalhando a valorização das culturas dos saberes e fazeres do povo do Pantanal. Por exemplo, conhecer como faz uma banana frita na Comunidade de Mata Cavalo. Inserimos também em Santo Antônio do Leverger, o Museu da Viola de Cocho do Seu Alcides, que fazia violas e recebia informalmente antes. Fizemos uma consultoria com ele, para que ele pudesse transformar aquela conversa em uma experiência”, explica.
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As atividades do Rancho São Jorge foram transformadas em produto turístico, fazendo parte da rota "Dia do Pantaneiro"
Assim como o Seu Alcides, o casal Rita da Silva, de 54 anos, e Jorge Carlos da Silva, 59 anos, donos do Rancho São Jorge, pôde transformar suas atividades em um produto turístico. Nascidos em Poconé, os dois moram no sítio há pelo menos 18 anos. Por muito tempo, trabalharam em fazendas de outras pessoas, mas decidiram investir na própria terra. No rancho, viviam da produção do leite, queijo e alguns alimentos plantados. Além disso, desde o ano passado, passaram a fazer parte da rota “Dia do Pantaneiro”.
“Lá no rancho mostramos a vivência do dia-a-dia. Não é coisa chique, é o que vivemos, o manejo do gado, tirar leite, fazer doce”
Conta Rita da Silva, que integra os destinos do Pantanal“Lá no rancho mostramos a vivência do dia-a-dia. Não é coisa chique, é o que vivemos, o manejo do gado, tirar leite, fazer doce. No almoço servimos a comida simples que comemos, frango caipira com arroz, peixe, farofa de banana, paçoca de pilão, essas coisas. Tem um redário em um bosque, onde os turistas descansam após o almoço e enquanto isso ouvem moda de viola. Meu esposo e meu filho tocam, eu canto com eles. Dura em média duas horas o passeio”, narra. Para Rita, que passou a receber turistas de todos os lugares do país e até estrangeiros, a experiência é especial. “Trabalhamos muitos anos em fazendas, agora deixamos o dos outros para fazer o da gente. E para nós é muito bom mostrar nossa cultura”, afirma.
A aposentada Luzilene Malheiros, de 63 anos, também teve uma mudança de vida. Após trabalhar como doméstica por anos e se aposentar, foi convidada a fazer parte da Associação das Ceramistas na Capão de Angico, comunidade rural de Poconé. Hoje, quatro mulheres fazem o trabalho artístico e expõem as cerâmicas em um espaço. O Sesc leva turistas hospedados até a associação e lá os visitantes conhecem o trabalho das artistas e compram seus produtos. “Além de virem até nós, às vezes vamos até os hotéis para levar as cerâmicas ou para dar oficinas. Às vezews estou no viveiro, na cerâmica, dando cursos, eu não paro. É uma renda a mais e tudo que entra é de bom valor”, diz.
Reprodução/Ecotur Pantanal