Poeta, ex-membro de circo e professora resiliente: conheça o Abrigo Bom Jesus
Entidade acolhe cerca de 90 idosos e se mantém com doações recebidas da sociedade; veja como ajudar
Rodinei Crescêncio/RDNews
Deiran Rudy, Juan Carlos e Elizabeth Couto: moradores do Abrigo Bom Jesus de Cuiabá compartilham suas histórias de vida
Há 82 anos, as mangueiras do Abrigo Bom Jesus tranquilizam cada vida que já passou por ali. Criado por dona Maria Müller, esposa do então Governador Júlio Müller, a instituição acolhe cerca de 90 idosos e se mantém com doações da sociedade.
“Aqui nós não temos nenhuma religião e nenhum partido político. Só temos futebol. Se não for são-paulino, não é bem-vindo”, brinca o presidente da entidade, José Gonçalves Duarte.
A proposta do local é dar dignidade para aqueles que merecem um descanso justo. Portanto, é oferecido alimentação, cuidados médicos e acompanhamento psicológico.
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O presidente do Abrigo Bom Jesus, José Gonçalves: entidade se mantém com doações
“A gente não pode dar uma ‘vida boa’ pra eles, porque às vezes tem idoso que vem pra cá já acamado. Nós temos que dar pelo menos dignidade na morte”, explica Carlos.
“Mas aqui nós não escolhemos cor ou raça. Tem uma norma de acolhimento, porque aqui não é hospital. É uma casa de acolhimento”, adverte, afirmando que muitas pessoas sem respeito procuram o lugar apenas para despejar quem cuidou deles por toda a vida.
O poeta Deiran
Há um ano e quatro meses, Deiran Rudy anda para lá e para cá no abrigo, com seu caderno sempre embaixo do braço. Apesar do sobrenome, de rude o senhor de 62 anos não tem nada. Inclusive, chama carinhosamente o marido da filha de “super genro”.
Ele é natural de São Bernardo do Campo. “Sou batateiro!”, diz Deiran, sobre o apelido de quem nasce no município. Foi lá que cresceu, se formou como engenheiro mecânico e também bacharel em Direito. Deiran já morou até no exterior . “Os altos e baixos, as curvas da vida, né?”, diz.
O que o trouxe até Cuiabá foi o casamento da filha com um cuiabano. De “batateiro” para “pau-rodado”, Deiran conta que a Capital mato-grossense o acolheu bem. Dividindo o mesmo quarto com a neta, ele se mudou para o abrigo para não atrapalhar a dinâmica da nova família.
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Deiran Rudy mostra, orgulhoso, poema que escreveu
Hoje tendo apenas um quarto, o senhor descreve que está muito feliz no local. “Gosto muito de escrever e aqui me inspira. Coisas que eu nunca tinha visto, agora estão tão de perto, e vou aprendendo com as pessoas. Ver assim um casal de tucanos, 'tête-à-tête', e isso eu só via na televisão ou no zoológico. Aqui a gente tem a oportunidade de ver essas coisas, eu admiro aqui”, afirma.
Seu passatempo é escrever poemas e poesias. Além de revisitar a própria memória para fazer os escritos, nada do abrigo passa despercebido por ele. Até sobre as pombas ele já escreveu um poema de reflexão existencial.
Deiran também sempre recorda da mãe, de 86 anos, que é ávida por palavras cruzadas.
“Mãe é alguém, de onde a gente vem. Que nos acalenta, alegra, e amamenta tão bem. Que nos faz sorrir e sonhar, seja em casa ou em qualquer lugar. Mãe, eu te amo, você sabe, eu sei. De você eu jamais esquecerei”, lê o papel, que cuidadosamente manda imprimir na impressora da biblioteca.
Deiran é a prova de que sempre dá para fazer uma coisa pela primeira vez na vida, e que a terceira idade não é impeditivo nenhum. No seu caso, ele assistiu uma partida de futebol pela primeira vez na Arena Pantanal. Corinthiano, viu seu time de coração jogar contra o Cuiabá.
Ele foi junto com um amigo que fez no abrigo, o uruguaio Juan Carlos, de 60 anos. Coincidentemente, as filhas de ambos se chamam Carolina. “Somos chamados de Ruan e Ruim”, brinca.
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Juan Carlos, que sonha com um possível retorno ao Circo Kroner
Juan Carlos, o uruguaio “fugido” do circo
Nascido em Montevideo, o uruguaio Juan Carlos já visitou vários países da América do Sul porque trabalhava no Circo Kroner. Há 30 anos, era responsável pelo serviço geral do circo, que antes se chamava Irmãos Robatine.
Entretanto, no ano passado, durante passagem em Cuiabá, ele pegou Covid-19. Após se recuperar, ainda precisou de cuidados, e por isso foi para o abrigo. Arranhando um “portunhol”, ele explica que tirou até mesmo cidadania brasileira para poder ficar na Capital. No momento, o circo está em Vilhena, em Rondônia.
“Mas se voltarem pra me pegar, eu vou”, diz sem pestanejar, realizando o sonho que algumas crianças têm de fugir com o circo quando ele visita a cidade.
A resiliente professora Elizabeth Couto
Para Elizabeth Couto, o Abrigo Bom Jesus significa o sentido mais acurado da palavra. O local foi um refúgio para a senhora de 70 anos, que há 9 anos fugiu do marido e da família dele, pois sofria violência psicológica e sexual. “Eu procurei aqui sim, porque mesmo que me pagasse ou me pagasse nada, eu estava sem dinheiro. E meus familiares não estavam aqui”, relata a mineira.
Por ter fugido dos abusos, ela não teve tempo de trazer nenhum pertence pessoal na mala. “Eu não tenho lembrança nenhuma. A lembrança está na memória. Os dias felizes, nem tanto de Cuiabá, mas principalmente da minha infância lá de Minas. Foi muito bonita a minha infância, meus pais estavam vivos, juntinho dos meus irmãos”, recorda.
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A professora Elizabeth Couto, que fugiu de um relacionamento abusivo e encontrou uma nova família no Abrigo Bom Jesus; lá, pinta panos de prato
Elizabeth veio para Cuiabá aos 15 anos, após mudança dos seus pais. Mas foi em Brasília que ela se formou professora. "Sempre morei na Cândido Mariano, uma rua comum. Agora virou a 'Rua das Óticas'", recorda.
Todo fim de semana, ela recebe a visita de uma amiga, que trabalha no Tribunal de Contas do Estado (TCE).
“Eu tenho uma pessoa que vem me buscar esporadicamente. Ela trabalha no TCE e atualmente está no exterior. Eu tenho ela como uma amiga, amiga mesmo. Eu a conheci porque ela vinha fazer visitas e a gente gostou uma da outra”, diz
Um quesito que a professora elogia do abrigo é a alimentação. Ela relata que para cada paciente, há um cardápio diferenciado. Elizabeth, por exemplo, comemora que não tem diabetes, portanto, pode comer tudo o que quiser.
Seu refúgio também é pintar panos de prato, onde ela também conseguia uns trocados. Ela lamenta, porém, que com a pandemia, ficou difícil vender.
Apesar da gravidade dos fatos que sofreu, Elizabeth se diz uma pessoa muito sortuda. Ela adora o abrigo e é muito grata pelo acolhimento que recebeu, demonstrando que a resiliência se faz necessário em qualquer estágio da vida.
“Deus é super bacana comigo. Por que onde, onde eu saindo lá da casa do meu marido, deixando ele e a família dele lá, iria pra promotoria com uma mão na frente e outra atrás? Eu tenho uma sorte muito grande com o poder público. Qualquer coisa que eu vou, eu tenho sorte”, diz.
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O Abrigo Bom Jesus acolhe atualmente cerca de 90 idosos e depende da solidariedade da população para se manter aberto
Como doar
Quem quiser fazer doações para o Abrigo Bom Jesus de Cuiabá pode entregar na portaria ou na administração da entidade, localizada na Avenida Historiador Rubens de Mendonça, no Bairro Morada da Serra.