Cuiabá, 02/11/2026

Poetisa e psicólogo listam o que é preciso saber para acreditar que o racismo é real

Um jeito fácil de identificar o racismo é, por exemplo, quando alguém xinga um jogador de futebol negro de macaco. Também fica explícito no olhar discriminatório, quando uma mulher negra entra em uma boutique. No entanto, se faz presente também – e na maioria das vezes - silenciosamente.

Pacha Ana usa música e poesia para denunciar

“A TV mostra que o branco é bonito, que o nariz fino é bonito, não tem como a gente se aceitar, se o padrão ainda dita para gente todos os dias que somos feios”

Pacha Ana, MC e poetisa

É o que diz a MC Ana Gabriela Santana Corrêa, 24 anos, de Rondonópolis (a 212 km de Cuiabá). Conhecida como Pacha Ana, denuncia através da música e da poesia marginal a realidade que agride, de várias formas, a população negra na rotina.

Para ela, a primeira coisa a se fazer no combate desta prática humilhante é desmistifica-la.

Uma boa forma de começar a combater o racismo é pela auto-aceitação. Desde os 12 anos, Pacha alisava o cabelo. “Minha mãe me levava (ao salão) por desejo meu”, relembra. Só há 4 anos resolveu se libertar disso e assumir o “black power”. "A TV mostra que o branco é bonito, que o nariz fino é bonito, não tem como a gente se aceitar, se o padrão nos dita todos os dias que somos feios", lamenta. A partir disso, o negro tem dificuldade de se olhar no espelho e gostar da imagem que vê. A MC afirma que o bombardeio midiático ainda é muito grande vagloriando a beleza branca.

Reprodução

Quadrinhos de Pedro Leite mostram situções comuns na vida da população negra no Brasil. Em algumas vezes, isso não é verbalizado e em outras sim

Racismo é histórico

Segundo ela, do ponto de vista histórico, a abolição da escravatura é muito recente e o país ainda não resolveu este problema estrutural. Para mudar isso, acredita que sejam necessárias políticas afirmativas, ainda que boa parte da população condene cotas. “O Brasil está entre os últimos da América Latina a abolir a escravatura e a gente faz isso com vários outros temas, como aborto e legalização das drogas, somos atrasados”, critica. "Um país de 500 anos não tem como resolver um problema estrutural como este sem dar suporte às pessoas, sem admitir que temos uma dívida histórica com elas", cobra.

“Uma vez me expulsaram de um bar. Para piorar, estava com um amigo angolano. Se ele fosse suíço, não teria sido assim...fiquei mal”

Carlos Barbosa, psicólogo

Arquivo Pessoal

Psicólogo Carlos Barbosa já vivenciou várias situações constrangedoras

Psicólogo de 45 anos, Carlos Henrique Macena Barbosa, conta que já sofreu todo tipo de abordagem racista na vida. “Uma vez me expulsaram de um bar. Para piorar, estava com um amigo angolano. Se ele fosse suíço, não teria sido assim...fiquei mal”, relata.

Carioca, há 10 anos mudou-se com a família para Cuiabá. Professor, mestre e doutorando, diz que circula em ambiente acadêmico, que é composto por pessoas brancas na sua quase totalidade. "Quase não se vê negros das faculdades", constata ele.

À filha de 8 anos, que também estuda em escola particular onde tem poucos colegas negros, reforça, todos os dias, que ela não é pior do que ninguém. “Outro dia ouviu um menino dizer que não gostava de brincar com coleguinha de cabelo assim, com esse tipo de gente. Trouxe para mim essa questão. Conversei com ela, discutimos sobre o assunto, é importante fazer isso na rotina”, ressalta.

Tanto Pacha quanto Carlos apontam alguns pontos sobre o racismo que acham importante destacar, não necessariamente nesta ordem.

1 - No trabalho, o negro e a negra precisam se esforçar muito mais para mostrar talento. A princípio são vistos como inferiores e até incapazes.

2 - Na rua, o homem negro é o suspeito número um. Diante dele, tem quem atravesse a rua, feche a bolsa, fique com medo.

3 - O cabelo crespo é foco de bullying, por isso a valorização de si mesmo muitas vezes começa por ele. O homem lida mais fácil com isso, porque pode por exemplo raspar. O processo da mulher é mais complexo.

4 - Negro não pode andar com guarda-chuva na mão, porque pode ser confundido com um ladrão armado e morto.

5 - Negros e negras se esforçam para se vestir bem para evitar abordagens racistas, como a policial ou em lojas.

6 - Racismo leva negros à depressão, por baixa auto-estima.

7 - Só 3 atrizes negras já foram protagonistas em novelas globais, Camila Pitanga, Taís Araújo e Juliana Paes, em mais de 50 anos de teledramaturgia brasileira.

8 - O negro aprende logo o que significa a conjunção adversativa “mas”. Você é negro, mas é inteligente. Você é negra, mas é linda. Você é negro, mas honesto.

9 - O racismo no Brasil é velado, diferentemente de nos EUA, que é escancarado.

10 - A onda de intolerância e tradicionalismo mundial tende a negar o racismo, porém ele existe escancarado ou velado.