Saúde mental muda relações de trabalho e pressiona empresas a rever modelo de gestão
Especialista aponta mudanças no padrão de comportamento de funcionários e consequentemente a adaptação do mercado
A atualização da Norma Regulamentadora n.º 1 (NR-1), que obriga as empresas brasileiras a incluírem os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), traz luz a uma pauta cada vez mais emergente: a saúde mental em meio ao mercado de trabalho. Para a diretora de desenvolvimento na Gestão de Si Coaching, Iracema Irigaray, essa mudança também acompanha um novo padrão de comportamento dos próprios trabalhadores.
"O mercado de trabalho está percebendo. Alguns dizem: 'Mas pessoas estão desistindo muito fácil', não! As pessoas precisam de ajuda. Elas perceberam que passam oito horas do dia em um local, produzindo, trabalhando, resolvendo. Não dá para aceitar mais assédio moral. Não dá para aceitar 'eu mando, você me obedece' sem ter uma contextualização. O mercado de trabalho está tendo uma consciência maior de escolha", relata a profissional, em entrevista ao #rdnews.
Annie Souza/Rdnews
Iracema conta que boa parte de seu trabalho é voltado para empresas, e o movimento atual é o de olhar para além das necessidades profissionais de uma equipe.
"As empresas precisam cuidar mais da saúde mental dos colaboradores. Inteligência emocional, gestão de rotina, posicionamento, planejamento. Porque uma coisa está muito ligada à outra. O profissional que desenvolve a inteligência emocional impacta todas as outras competências", comenta.
As pessoas precisam de ajuda. Elas perceberam que eu passo oito horas do dia em um local, produzindo, trabalhando, resolvendo. Não dá para aceitar mais assédio moral.
Ao explicar sobre a gestão de rotina, Iracema toca em um ponto crucial que afeta diferentes áreas do trabalhador na atualidade: o cansaço excessivo de uma rotina que exige mais do que 100% do tempo. A profissional ressalta o quão importante é priorizar uma vida mais saudável e orienta sobre os perigos do descontrole emocional.
"O que você está fazendo para nutrir a vida? O celular, as relações não têm poder. Eles têm o poder que nós damos a eles. Então não deixe o mundo te engolir, porque ele vai te engolir. Você está fazendo coisas para ter uma saúde, para ter uma vida descansada? O que você está fazendo para gerir o seu descanso?", questiona.
Annie Souza/Rdnews
A profissional destaca ainda que todas essas mudanças e uma nova consciência sobre o que vale mais em uma rotina são o que mais têm influenciado as empresas a tratarem abertamente sobre o mental dos funcionários. Iracema dá o exemplo de como um número maior de jovens vem preferindo empregos autônomos em vez de assumir cargos de liderança e como isso tende a afetar diretamente a engrenagem de um sistema consolidado, dando espaço para novas formas de se relacionar dentro do mercado de trabalho.
"Eles falam: 'está difícil [encontrar] mão de obra qualificada'. Por que está difícil? Vamos olhar para isso? Vamos ter essa conversa? Por que as pessoas estão preferindo dirigir Uber a aceitar um cargo de gestão? Essa é uma pergunta que eu tenho levado para as empresas. Tem muito empresário que está investindo, porque faz toda a diferença. A pessoa se sente valorizada, ela leva o conhecimento para casa, para as relações dela, para a família, e se sente mais firme, mais posicionada", finaliza.