Cuiabá, 17/09/2026

O Brasil visto por outras dimensões

Rodinei Crescêncio/Rdnews

O Brasil ainda carrega estereótipos turísticos. Durante muito tempo, o olhar estrangeiro reduziu o Brasil a três símbolos fáceis: futebol, carnaval e sensualização da mulher brasileira. Essa imagem de ‘paraíso tropical’ foi reforçada por campanhas turísticas nacional, abraçadas pela mídia internacional e pelo turista com leitura superficial do país. O Brasil precisa ser conhecido não apenas pelo que encanta, mas pela relevância de sua produção de alimentos, pela pesquisa cientifica que apresenta estudos e relatos de pacientes com lesão de medula que apresentam recuperação de movimentos.

O Brasil da produção de alimentos, da ciência, da energia renovável, da biodiversidade, da cultura, do trabalhador com carga horária de 8 horas por dia ainda disputa espaço contra a velha caricatura do país. Ao lado do Brasil do futebol, do carnaval, das influenciadoras sensualizadas há o Brasil, sofisticado e produtivo da ciência e as mulheres brasileiras estão representadas pela Dra Tatiana Sampaio, seguramente a brasileira mais celebrada dos últimos tempos, uma mulher que atua na área da biologia celular e regeneração de tecidos nervosos com o uso da polilaminina, uma substância que ajuda na regeneração de lesões na medula espinhal. Ela simboliza o Brasil da pesquisa, da Universidade Pública de recursos escassos, mas que produziu um conhecimento que hoje dialoga com o mundo da ciência. Não, isso não vai aparecer num cartão postal, mas orgulhosamente lemos e vemos a imagem da Dra Tatiana sendo celebrada e premiada mundo afora.

O problema não está no futebol nem no carnaval, praias e mulheres. O problema está na redução do Brasil a um cartão-postal exótico, como se o país fosse apenas festa. O país não cabe mais nessa moldura estreita

O futebol brasileiro é um elemento legítimo da nossa identidade cultural. Hoje, 13 de junho, o Brasil estreia na Copa e já estou concentrada desde manhã, porém, percebo que o futebol brasileiro se tornou também uma economia de exportação de talentos. O Observatório do Futebol, em maio de 2026, apontou que há 1,4 mil brasileiros atuando no exterior, em 135 ligas pelo mundo. Então, há uma contradição simbólica: o Brasil forma o talento, oferece a identidade nacional e carrega a paixão popular, porém, parte expressiva da riqueza gerada pelos jogadores circula fora do país. O país continua sendo uma grande fábrica mundial de jogadores e suas vitrines. O Brasil celebra craques que jogam e investem em outros países.

O problema não está no futebol nem no carnaval, praias e mulheres. O problema está na redução do Brasil a um cartão-postal exótico, como se o país fosse apenas festa. O país não cabe mais nessa moldura estreita. No ano passado, o agronegócio brasileiro alcançou US$ 169,2 bilhões em exportações, respondendo por quase metade das exportações nacionais, o que reforça o peso do país na segurança alimentar do mundo. O Brasil contemporâneo é uma potência agrícola, que o jornal francês Le Monde, em janeiro de 2026, assim explicou: “A força brasileira vem de três fatores centrais: extensão territorial, tecnologia tropical e capacidade de produção em larga escala. A Embrapa adaptou sementes, solos e técnicas ao clima e essa transformação fez o Brasil saiu da condição de país que já importou alimento para se tornar uma das maiores potências agrícolas do planeta. O Brasil ocupa hoje uma posição estratégica no sistema alimentar mundial: não é apenas um grande produtor, mas um dos países que mais influência preços, abastecimento, segurança alimentar e comércio internacional. O país se consolidou como potência agroalimentar especialmente em soja, milho, carne bovina, carne de frango, açúcar, café e suco de laranja.”

O Brasil é um país complexo para ser resumido em alguns pilares de sustentação. O espetáculo do futebol, a praia, o carnaval são patrimônios culturais do Brasil. O país vive muitas contradições e desafios importantes: O Brasil contemporâneo carrega grande responsabilidade ambiental, sobretudo pela pressão sobre a Amazônia, água, minerais e preservação de comunidades tradicionais. É um dos grandes celeiros do mundo, um ator estratégico da segurança alimentar global, cujo desafio histórico é transformar potência produtiva em segurança alimentar para a própria população.

Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com