O uso da linguagem religiosa para servir a interesses criminosos
Rodinei Crescêncio/Rdnews
A fé merece respeito. Aprendemos que a fé acolhe, recupera almas e oferece esperança. As últimas semanas, no entanto, as notícias envolvendo religiosos, homens e mulheres, tem demonstrado que a linguagem religiosa tem sido usada como disfarce para praticar crimes e profanar aquilo que milhões de pessoas consideram sagrado; a fé. A Bíblia, livro sagrado para os cristãos era utilizada por uma família de missionários para encobrir bilhetes estabelecendo os arranjos sexuais para visitas íntimas e valores em dinheiro para a compra de armas para criminosos presos nos presídios em Cuiabá.
“Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão.” Êxodo 20:7, o terceiro dos Dez Mandamentos.
A estrutura religiosa criminosa da família de missionários entoou cânticos pelos corredores do cárcere, livres e com acesso irrestrito aos presos, sobretudo com as chamadas ´lideranças´ do crime organizado. O Ministério Público de Mato Grosso ofereceu denúncia, apontando o uso ilícito do projeto de resgatar vidas da família, que não salvou alma nenhuma, mas, recheou suas contas bancárias com dinheiro sujo da venda de armas e drogas.
Pronunciar “a paz do Senhor” não santifica criminoso. E mais uma notícia nacional sobre a exploração da fé para praticar crimes nojentos, em Cuiabá nos últimos dias. Um religioso, incumbido de levar a própria neta de 8 anos à igreja, se desviou do propósito e a violentou antes de saírem, valendo-se da confiança quase sagrada da criança no avô e no religioso. Houve ali, a transformação do pastor em lobo, que se valeu da mentira da religiosidade para devorar a presa vulnerável. Nem sempre foi assim...
Houve um tempo, que o Brasil conheceu religiosos que fizeram da fé um instrumento de libertação
Houve um tempo, que o Brasil conheceu religiosos que fizeram da fé um instrumento de libertação. O reverendo presbiteriano Jaime Wright, durante a ditadura militar colocou sua fé a serviço da defesa dos direitos humanos e, ao lado de Dom Paulo Evaristo Arns, conhecido como o Cardeal da Esperança, participou clandestinamente do projeto Brasil: Nunca Mais, que reuniu documentos judiciais e revelou torturas, assassinatos e desaparecimentos praticados pela repressão militar. Enfrentaram a ditadura, não se calaram, não protegeram criminosos poderosos.
O mundo conheceu o pastor batista americano Martin Luther King, o maior exemplo na história moderna de como exercer liderança pastoral no templo ou nas ruas para proteger seu rebanho do racismo e segregação. Ele mostrou que a religião nunca pode ser um instrumento de proteção ao crime ou à opressão; não ocultava injustiças, não legitimava os poderosos, mas devolvia dignidade aos oprimidos. Esse contraste que choca e desespera. Enquanto homens como Martin Luther King, que foi preso inúmeras vezes, teve a casa bombardeada, invocaram Deus para enfrentar sistemas injustos, há quem, segundo a investigação, possa ter utilizado a linguagem religiosa para favorecer interesses criminosos ou saciar desejos impuros.
A força moral da religião, creio que serve para libertar pessoas. A solidariedade aos presos é um princípio humanitário e, direito garantido pela Constituição Federal, levando em consideração modelos de ressocialização, que indica que a religião pode diminuir a reincidência, embora empiricamente não haja dados oficiais comparativos. De qualquer forma, a Bíblia não pode encobrir bilhetes, com senha para movimentar patrimônio de facções.
Não perca a fé! Leia sobre Martin Luther King, Jaime Wright, Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Hélder Câmara e reafirme seu ativismo pela crença, pela justiça e pela paz.
Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com