Cuiabá, 26/10/2026

Desafios do agro de Mato Grosso

Rodinei Crescêncio/Rdnews

A agropecuária é comprovadamente a principal turbina da economia de Mato Grosso. Para prosseguir crescendo de forma competitiva nos mercados nacional e internacional o setor terá de enfrentar e superar alguns desafios. Alguns antigos e outros mais recentes, mas todos precisam ser tratados como parte importante da estratégia dos negócios e do desenvolvimento da economia do estado.

O excessivo endividamento do setor agropecuário tomou dimensões excepcionais, parecidas as de ciclos anteriores cuja solução exigiu esforço extraordinário das empresas, produtores rurais, mercado financeiro, governos estadual e federal. Fatores como aumento dos preços de insumos importados, riscos climáticos, encarecimento do crédito, maior restrição dos bancos no fornecimento do crédito em razão do aumento da inadimplência reduziram margens de lucro, forçando um ciclo vicioso que se renova com mais intensidade a cada safra.

Para um setor altamente dependente de financiamento para girar cada safra, a solução exigirá redução e alongamento de dívidas e uma boa temperança na oferta de crédito do Plano Safra, financiamento privado e taxas de juros mais civilizadas.

Responsável pelo acelerado crescimento da agropecuária de Mato Grosso nas últimas décadas, o comércio internacional surge como janela de oportunidade e desafio a ser enfrentado. Ao mesmo tempo que é responsável pela maior parte do consumo dos produtos do agro mato-grossense, é também o setor mais atacado pela concorrência externa.

Responsável pelo acelerado crescimento da agropecuária de Mato Grosso nas últimas décadas, o comércio internacional surge como janela de oportunidade e desafio a ser enfrentado

Diante das turbulências no mercado global com aumento abrupto de tarifas comerciais, imposição de cotas de importações, embargos sanitários e ambientais, o setor precisa, em ação conjunta entre empresas, governo estadual e administração federal, procurar alternativas mercadológicas para enfrentar a decisão da China de tornar-se menos dependente da importação de alimentos em médio prazo, a agressiva concorrência do agro americano e as restrições sanitárias/ambientais da União Europeia.

A rastreabilidade é outro componente que, caso não seja tratado adequadamente pode se transformar em fator inibidor das exportações do agro estadual. Cada vez mais os mercados consumidores exigem rastreabilidade dos produtos, especialmente o mercado europeu. Em janeiro de 2027 entra em vigor a Lei Antidesmatamento do bloco europeu que exigirá do Brasil e de Mato Grosso provarem que soja, milho, café, cacau, borracha natural, madeira, carnes e óleos vegetais exportados para a Europa não são oriundos de áreas desmatadas após 2021. No caso da carne bovina, a União Europeia ainda exige o fim dos antimicrobianos utilizados atualmente para tratamento dos rebanhos.

A forte dependência da agropecuária brasileira de fertilizantes importados continua sendo uma barreira a ser vencida. Expõe excessivamente o setor às oscilações internacionais de preços, desabastecimentos ocasionados por guerras em regiões produtoras ou decisões geopolíticas, aumentando custos, reduzindo rentabilidade e a competitividade internacional. Os fazendeiros de Mato Grosso têm visto os fertilizantes nitrogenados e fosfatados serem tratados não apenas como uma simples commodity, mas como insumo estratégico de soberania de países produtores o que exige um plano nacional para aumentar a produção doméstica e reduzir a dependência externa.

A infraestrutura logística de armazenagem e transporte da produção até as plantas de processamento, mercado de consumo interno, portos marítimos e fluviais é outro desafio gigantesco que necessita ser superado. Mato Grosso teve avanços na ampliação e melhorias na malha rodoviária com investimentos públicos e privados por meio de concessões. Mas ainda se mostram insuficientes para escoar de forma satisfatória toda a produção agropecuária no tempo adequado.

A malha ferroviária avança com a construção do trecho Rondonópolis-Primavera do Leste-Cuiabá-Lucas do Rio Verde e o trecho da ferrovia FICO de Mara Rosa/Campinorte em Goiás até Água Boa (MT), com 383 kilômetros de extensão. As duas ferrovias são construídas com capital privado.

Outro passo importante para a agropecuária de Mato Grosso é a industrialização da produção local. Os exemplos do progresso das indústrias de biodiesel e etanol de milho são bem ilustrativos de que adicionar valor às commodities agrícolas aumenta a produção dessas mercadorias, adiciona valor, gera empregos mais qualificados e aumenta a rentabilidade.  

Ao final das contas, os desafios são bem diagnosticados e suas soluções bem conhecidas. Cabe implementá-las com bom planejamento e ações integradas entre iniciativa privada, investidores e administrações estadual e federal.

Vivaldo Lopes é economista e escreve neste espaço às segundas-feiras