Cuiabá, 01/11/2026

Decisão da JBS de não comprar mais gado à vista preocupa setor em MT

Divulgação

Diretor da Acrimat, Vacari diz que sugestões são repassadas para o produtor se proteger de prejuízos

A recente crise envolvendo as delações dos donos da gigante JBS tem preocupado os pecuaristas de Mato Grosso. Na semana passada a empresa anunciou, em todo o território, que não realizaria mais compras de gado à vista, o que diminuiu o poder de negociação dos produtores. 

Entidades representativas tentam combater os reflexos dessa decisão e entre as medidas já protocolaram junto ao governo estadual um pedido de suspensão da cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a saída interestadual do boi em pé.

Em entrevista ao #rdnews, o diretor executivo da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Luciano Vacari, defende que a crise é evidentemente política e que a entidade somente tem se posicionado para tentar diminuir possíveis impactos desses problemas aos pecuaristas.

Vacari afirma que o momento é de manter o foco nos serviços prestados pela JBS e defende que o produtor já está sendo impactado. “Ele já tinha perdido as opções na hora da venda, por causa da concentração de mercado. Agora ele perdeu até o direito de comercializar da maneira como ele quer”, pontua.

A partir da decisão da JBS, os produtores rurais que negociarem com a empresa estão sendo pagos em um prazo de 30 dias. Aliada à cobrança do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural), os pecuaristas começam a temer, inclusive, problemas financeiros, diz Vacari.

Além de tudo isso, eles estão atentos para a possibilidade da JBS - que teve sua nota rebaixada por uma agência de classificação nesta segunda (22) - fazer uma migração e alterar, assim, o funcionamento de suas plantas no Brasil. Essa possibilidade foi negada pela assessoria da empresa. 

Medidas

O diretor executivo da Acrimat pontua que algumas sugestões já estão sendo repassadas para que o produtor consiga se proteger de impactos financeiros maiores no futuro. 

“Nesse momento é preciso ter paciência e muita cautela. A nossa recomendação para o pecuarista é que ele espere pelo melhor momento para comercializar o animal. Somente assim é que os possíveis prejuízos poderão ser controlados”, pontua.

Vacari explica também que a Acrimat protocolou, na última sexta (19), um pedido na secretaria estadual de Fazenda (Sefaz) para que seja suspendida, temporariamente, a cobrança da alíquota do ICMS sobre a saída interestadual do boi em pé. Por lei, atualmente é cobrada uma taxa de 7% sobre a operação.

O diretor executivo diz que a medida seria benéfica para o setor porque os produtores poderiam abater seu gado em frigoríficos nos estados vizinhos, o que aumentaria a possibilidade de negociação dos preços.

Vacari também pontua que sobre a questão de concentração de mercado, o departamento jurídico da Acrimat estuda uma nova investida ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que anteriormente havia negado a existência de um monopólio no Estado. 

Contexto

A JBS tem frigoríficos em 11 cidades de Mato Grosso e atua com processamento animal em outros quatro, de acordo com o site da empresa. O Estado concentra a maior parte dos frigoríficos da empresa.

O conglomerado entra em evidência após os donos do empreendimento, os irmãos Joesley Batista e Wesley Batista, revelarem que fizeram negociações fraudulentas até com o presidente da República, Michel Temer (PMDB).

Toda a situação veio à tona após publicação do Supremo Tribunal Federal (STF) da colaboração premiada feita pelo empresário ao Ministério Público Federal (MPF). Entre os esquemas delatados, o irmão de Joesley, Wesley Batista, revelou que pagou R$ 30 milhões de propina ao ex-governador Silval Barbosa (PMDB) em troca de redução de impostos.