Cuiabá, 05/10/2026

Do céu à lavoura: tecnologia e inovação que revolucionam o agronegócio em Mato Grosso 

Mapeamentos de lavouras de soja e milho por meio de satélites são novas apostas para combinar pesquisa e sustentabilidade ao agronegócio no estado

Quando produzir no campo ainda dependia de uma sucessão de tentativas e erros, com recursos tecnológicos limitados e apostando no conhecimento adquirido a cada safra, os desafios enfrentados pelos agricultores mato-grossenses eram outros. O médico, Carlos Gilberto Frison, que começou a produzir em Sorriso (a 398 km de Cuiabá), ainda na década de 1980, lembra de um cenário com pouca informação sobre o clima, solo e até métodos de manejo, mostrando a produção agrícola como um terreno não tão fácil de ser explorado.

“Eu não sabia nada no início. O pessoal que chegou no final da década de 70, até 80, só plantava arroz. Daí descobriram que o arroz só produzia um, dois anos e depois não produzia mais. Aí começaram a testar a cultura da soja, então, imagina, as dificuldades eram imensas. Não se sabia o que se sabe atualmente sobre o solo, sobre o manejo, não se tinha previsão de tempo, não tinha nada. O risco era muito maior, as máquinas eram menores, mais rústicas, os armazéns para entrega do produto eram poucos, a mão de obra era difícil. Para você comprar os defensivos, os fertilizantes, às vezes tinha que ir a Cuiabá”, exemplifica o produtor.

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Carlos Gilberto Frison, médico e produtor rural em Sorriso

Os desafios refletiam diretamente nos resultados. Carlos cita como exemplo, os problemas relacionados a não adaptação das sementes, que geralmente vinham de fora do estado de Mato Grosso e não germinavam de forma correta na região. “A produtividade da época era menos da metade do que é hoje, mas a gente se virava, era o que tinha”, relembra.

Mais de quatro décadas depois, parte das decisões sobre a produção agrícola começa muito antes das sementes chegarem propriamente ao solo. Máquinas, sistemas, previsões meteorológicas, imagens de satélite e algoritmos passaram a gerar informações que os pioneiros da agricultura mato-grossense não tinham à disposição. 

A centenas de quilômetros da superfície terrestre, satélites captam dados que, processados por computadores, auxiliam na identificação da soja e milho, acompanham as alterações no uso da terra e também no fornecimento de informações sobre as propriedades rurais. 

O pesquisador e professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), em Sinop, Carlos Antonio da Silva Júnior, é um dos responsáveis por essa transformação. Em entrevista ao #rdnews, Carlos contou que em 2012, antes mesmo de chegar ao estado, ele já desenvolvia um algoritmo capaz de mapear  lavouras de soja por meio de imagens de satélites. 

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O professor e pesquisador Carlos A. Silva Jr., da Unemat Sinop, e fundador da SpectraX

Posteriormente, por volta de 2015, ele deu origem ao SojaMaps, projeto que, junto a estudantes, passou a reunir pesquisas em torno do mapeamento e monitoramento da cultura da soja em diferentes safras. 

O que um satélite enxerga na lavoura?

Visto de cima, o processo pode parecer simples: satélite fotografa plantação e computador identifica soja. Nos bastidores, entretanto, há uma sequência muito mais complexa. 

Carlos explica que os sensores dos satélites captam a radiação eletromagnética refletida pela superfície. Ao mesmo tempo, os pesquisadores acompanham e fazem o levantamento de dados ao longo do tempo e assim aplicam estatísticas avançadas, algoritmos, árvores de decisão e técnicas de machine learning. A partir de todo esse conjunto, o sistema calcula a probabilidade de determinado pixel corresponder ou não a uma área de soja.  

De acordo com o professor, para verificar se o resultado obtido era compatível com a realidade no campo, foi necessário submeter o algoritmo a diferentes realidades e regiões produtivas não só em Mato Grosso, mas também em Mato Grosso do Sul e no Paraná. 

“A precisão é de 98,5%, cientificamente falando. A gente coletou mais de 5 mil pontos amostrais e validamos todo o mapeamento da soja e aí ficou em 98,5% de acerto”, destaca.

Carlos reflete também sobre como a objetividade dos dados coletados pelo satélite pode ser um diferencial no momento de entender a lavoura de soja. Segundo o pesquisador, o sensoriamento também pode identificar alterações no comportamento observado em determinada área. O dado, porém, não permite estabelecer sozinho a causa da perturbação e pode exigir outras análises e verificações em campo. 

“Quando a gente está falando do mapeamento da soja por satélite, eu estou falando de um dado objetivo, onde eu conheço o acerto, eu conheço os erros, a latitude, a longitude, onde plantou, onde avançou, onde diminuiu, e assim por diante”, pondera. 

O professor destaca também que a tecnologia amplia a capacidade de enxergar a propriedade, porém, entre o dado e a decisão, a interpretação humana continua necessária. 

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A Soja vista por satélite pela SpectraX

Mais dados, menos desperdício 

A tecnologia que hoje chega ao produtor é reflexo de uma transformação que teve início muito antes da atual popularização da tão conhecida Inteligência Artificial (IA). 

O presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Beber, lembra que os recursos tecnológicos auxiliam as propriedades rurais há mais de duas décadas. 

“Os produtores primeiro iniciaram a fase mais arcaica do uso do GPS para fazer o balizamento para aplicação de defensivos, de calcário, melhorando a eficiência e reduzindo desperdício e falhas também nas aplicações”, afirma Beber. 

O princípio continua presente nas ferramentas mais recentes: conhecer melhor a lavoura para intervir com maior precisão. Segundo Beber, o uso das imagens de satélite permite identificar pontos em que as plantas apresentam um desenvolvimento inferior e compará-las com áreas mais produtivas. Além disso, o presidente ressalta que a obtenção dessas informações permite ao produtor tomar decisões mais próximas à realidade da lavoura.

A transformação tecnológica, contudo, não teve início com satélites. A própria adaptação da soja às condições climáticas de Mato Grosso ocorreu por meio da pesquisa. Beber relembra que o melhoramento genético, a correção da acidez dos solos por meio da calagem - aplicação de calcário no solo - e a implantação do sistema de plantio direto estão entre os avanços que modificaram a atividade agrícola.

“Sem o uso da tecnologia, Mato Grosso não teria virado esse gigante”, resume.

O avanço também ajudou a modificar o calendário das lavouras. Segundo Beber, o desenvolvimento de variedades mais precoces de soja permitiu antecipar a colheita e abrir espaço para a segunda safra de milho, ampliando a integração entre as duas culturas dentro das propriedades mato-grossenses. 

É justamente quando a precisão se traduz em melhor utilização de recursos que a inovação e a sustentabilidade começam a trilhar o mesmo caminho. Reduzir falhas, identificar problemas e conhecer as diferenças dentro de uma mesma propriedade permitem que a tecnologia deixe de ser apenas uma ferramenta para ampliar a produção e passe a integrar a busca por sistemas produtivos mais eficientes. 

O digital como ferramenta sustentável 

A precisão captada pelas novas tecnologias também amplia as possibilidades de conciliar produção com sustentabilidade. Se os dados permitem conhecer melhor o que ocorre dentro de uma propriedade, eles também podem auxiliar na orientação do manejo da lavoura e reduzir desperdícios, acompanhar áreas que precisam ser preservadas ou recuperadas e rastrear a origem da produção.

Para a engenheira agrônoma e criadora do projeto Pequi Innovation Hub, em Sinop, Jéssica Gimenes, esse é um dos desafios para que a digitalização avance nas propriedades de Mato Grosso. Em um estado onde há uma grande produtividade agrícola, ela chama a atenção para a necessidade de tecnologias que facilitem o cotidiano. 

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Jéssica Gimenes, fundadora do Pequi Innovation Hub

“Aqui [em Mato Grosso] a gente tem uma produção agrícola em que o produtor tem muitos funcionários e o grande desafio é a qualificação da mão de obra. Então, se você está conseguindo criar ferramentas que são amigáveis ao meio ambiente e que têm essa tecnologia para facilitar como os produtores e os trabalhadores dessas propriedades assimilam a informação e transformam a produção, eu acho que é aí que está o ponto de virada do uso da tecnologia”, analisa Jéssica.

Para que essas soluções “amigáveis” sejam desenvolvidas mais perto dos problemas encontrados nas lavouras, Jéssica defende também o fortalecimento do ecossistema local de inovação. Um dos caminhos são as chamadas “incubadoras”, estruturas que auxiliam a  transformar pesquisas desenvolvidas nas universidades em modelos de negócio capazes de chegar ao mercado. 

“A partir do momento que eu tenho uma incubadora, eu consigo ter um hub de inovação, eu consigo ter um centro de inovação, eu consigo ter um parque tecnológico e eu consigo pressionar para ter esses incentivos fiscais para as empresas se estabelecerem aqui e chamar a atenção das empresas de tecnologia também”, afirma Jéssica.

Na prática, esse uso já ultrapassa a produção. Em Sorriso, Nathalia Cordeiro Magalhães utiliza a ferramenta de monitoramento via satélite SpectraX, fundada pelo professor Carlos, em seu trabalho com consultoria e regularização ambiental, na Cedros - Inteligência em Projetos Ambientais. Técnica em geoprocessamento e em agrimensura, ela montou uma sala de monitoramento no próprio escritório, onde acompanha propriedades atendidas pela empresa.

À reportagem, Nathalia explicou que, quando uma área possui o compromisso de regeneração, por exemplo, os dados podem indicar a existência de cultivo naquele perímetro e servir de alerta para que a situação seja verificada.

“Se no meu relatório aparecer que tem soja ali, eu já chamo a atenção dele [produtor]: ‘Olha, você está plantando em uma área que não poderia, você tem um compromisso de regenerar. Então, se continuar assim você pode sofrer um novo embargo por descumprimento’”, exemplifica Nathalia. 

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Nathalia Cordeiro Magalhaes

A especialista ressalta que a tecnologia não substitui a fiscalização dos órgãos ambientais, nem determina sozinha a existência de irregularidades. Segundo Nathalia, as informações obtidas pela plataforma funcionam como ponto de partida para que a situação seja analisada de forma aprofundada junto às bases oficiais dos órgãos responsáveis. 

“Eu acredito que a tecnologia é positiva e a gente tem que se adequar a ela. Só que, diferente do que muito se fala, ela não vai substituir totalmente o ser humano, porque uma máquina ou um computador pode dar problema e precisa do monitoramento contínuo de uma pessoa por trás”, pondera.

Da pesquisa ao campo  

Esse caminho entre problema, pesquisa e aplicação no campo também expõe outro desafio: fazer com que Mato Grosso, além de grande consumidor de tecnologias agrícolas, também fortaleça sua capacidade de desenvolvê-las.

Jéssica avalia que o número de empresas de tecnologia voltadas ao agro no estado ainda é pequeno, diante da dimensão da produção. Para mudar esse cenário, ela defende maior aproximação entre universidades, ambientes de inovação, empresas e produtores.

A avaliação é compartilhada por Lucas Beber, que menciona o Centro Tecnológico em Campo Novo do Parecis (Ctecno Parecis), da Aprosoja-MT, onde são realizadas pesquisas focadas em solos arenosos, naturalmente mais pobres, que necessitam de manejo diferenciado, pois não são fáceis de manejar.

“Antes [este tipo de solo] era visto como inviável e com o uso da tecnologia, adoção de rotação de culturas e plantio direto que é desenvolvido no Ctecno, é feita uma pesquisa que busca ajustes mais finos pensando a longo prazo, ou seja, criar sistemas de rotação e sucessão de culturas que possam tornar aquele tipo de área mais rentável ao longo dos anos”, explica Beber.

A trajetória do próprio professor Carlos Antonio exemplifica esse movimento. Após anos trabalhando com mapeamento via satélite no ambiente acadêmico, o pesquisador criou, em 2024, a SpectraX, uma deep tech que utiliza conhecimento desenvolvido a partir dessas pesquisas para oferecer ferramentas de monitoramento ao agro.

“Depois de tantas pessoas pedirem soluções, não só da soja, propriamente dito, mas soluções baseadas em imagens de satélite, hoje a gente tem um paralelo com várias questões de pesquisa científica e também de fornecimento de informações ou de imagens satélite, para quem orbita ali a demanda do agronegócio”, destaca Carlos.

Quando o dado atravessa a porteira

O caminho percorrido pela inovação não termina, porém, quando uma decisão é tomada dentro da fazenda. Para Lucas Beber, uma das conexões mais diretas entre a pesquisa agrícola e a população é na oferta de alimentos. 

Quando a gente tem um hub que se estabelece dentro de uma cidade e não no campo, as pessoas começam a entender um pouco melhor como fazer parte daquele movimento que está se conectando dentro das fazendas e o produtor também

“Quando nós temos mais pesquisa, consecutivamente nós conseguimos produzir e ofertar mais alimentos. Isso impacta diretamente tanto no preço da cesta básica quanto em todos os alimentos que a população consome”, afirma Beber, citando as carnes de frango e suína como exemplos de uma cadeia que começa nos grãos e termina na mesa de quem vive longe das lavouras.

Ele explica que o milho e farelo de soja integram a alimentação desses animais e, segundo o presidente, o aumento da oferta contribui para ampliar a disponibilidade desses produtos. 

E a ligação entre campo e cidade ocorre também no sentido contrário. Ao instalar um hub de inovação em Sinop, Jéssica defende que profissionais urbanos passem a ter um contato maior com problemas e oportunidades originados nas propriedades rurais, enquanto produtores são aproximados de universidades, empresas e profissionais de outras áreas. 

“Quando a gente tem um hub que se estabelece dentro de uma cidade e não no campo, as pessoas começam a entender um pouco melhor como fazer parte daquele movimento que está se conectando dentro das fazendas e o produtor também. [...] A cidade tem esse papel importante de escalar o que vem do campo”, afirma a pesquisadora. 

Imagem gerada por Cecília Nobre, utilizando IA

Entre dois tempos

O produtor Carlos Gilberto acompanhou a transformação vista de dentro e fora das lavouras em Sorriso, vendo a cidade crescer e se desenvolver enquanto a agricultura se consolidava na região e, para ele, os dois processos caminharam juntos. 

“Eu acho que Sorriso depende quase que exclusivamente do agro. Sem o agro, Sorriso não existiria. E conforme o agro foi evoluindo, não só em Sorriso, mas no Brasil, Sorriso e região foram evoluindo mais rapidamente. As cidades foram aprofundando esse desenvolvimento, essas riquezas que o agro foi trazendo, e cresceram juntos”, afirma o produtor. 

A experiência acumulada por quem produz também não foi substituída pelas ferramentas que chegaram ao campo. Ganhou a companhia de informações que permitem conhecer melhor a lavoura antes de decidir. 

O desenvolvimento de cidades e a busca por maior sustentabilidade no momento dos planejamentos relacionados à produção agrícola em Mato Grosso transpassam, atualmente, por tecnologias que vêm sendo desenvolvidas fora dos holofotes. A aposta em imagens de satélite que realizam o mapeamento de lavouras de soja e auxiliam o produtor a entender, de maneira cada vez mais fácil, sua própria safra, cria para o agronegócio mato-grossense uma alta expectativa de que plantar e colher tem seguido caminhos ainda mais verdes.