Mais de 2,6 milhões vão às urnas em Mato Grosso em eleição marcada por baixo engajamento
Campanha foi marcada por menor mobilização, pouca disposição para atos públicos e uma percepção de distanciamento do eleitor
Mais de 2,6 milhões de mato-grossenses estão aptos a votar neste domingo (4), quando o Estado vai às urnas para o primeiro turno das eleições de 2026. Em uma campanha marcada por menor mobilização, pouca disposição para atos públicos e uma percepção de distanciamento do eleitor, serão escolhidos presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Para a cientista política Christiany Fonseca, porém, é preciso cautela antes de definir o cenário simplesmente como desinteresse: o eleitor pode estar menos entusiasmado com a campanha, mas não necessariamente menos interessado na eleição.
“Eu faria uma distinção entre desinteresse, desmobilização e saturação, porque são fenômenos diferentes”, afirma Christiany. Segundo ela, pesquisas recentes indicam que a menor disposição para determinadas formas de participação política não significa, necessariamente, que o eleitor tenha deixado de acompanhar a disputa ou definido sua escolha.
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Levantamento do Datafolha divulgado em setembro mostrou que 32% dos eleitores brasileiros se declararam menos engajados em fazer campanha para presidente do que em 2022. Ao mesmo tempo, 57% disseram estar mais decididos a comparecer às urnas neste ano. A pesquisa também apontou que 45% mantinham o mesmo nível de engajamento de 2022, enquanto 18% estavam mais engajados.
Para Christiany, a diferença ajuda a explicar a sensação de uma campanha menos intensa. O eleitor pode não estar disposto a vestir a camisa de um candidato, participar de atos, carregar bandeiras ou defender publicamente uma candidatura, mas continuar acompanhando a eleição, formando uma opinião e se preparando para votar.
Estrutura
A estrutura montada pela Justiça Eleitoral para o pleito envolve os 142 municípios de Mato Grosso, distribuídos em 57 zonas eleitorais, 1.519 locais de votação e 8.287 seções. A votação ocorre das 7h às 16h, no horário de Mato Grosso.
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O Estado terá 8.287 urnas de seção em funcionamento e outras 1.173 de contingência para eventual substituição de equipamentos. Somente Cuiabá e Várzea Grande concentram 1.995 urnas de seção e 211 equipamentos de reserva.
Entre os eleitores aptos, 78.503 têm entre 16 e 18 anos e 117.720 têm 70 anos ou mais. Nos dois grupos, o voto é facultativo. Ao todo, 51% do eleitorado é formado por mulheres e 49% por homens.
Bolhas
Na avaliação da cientista política, um dos problemas das campanhas foi justamente alcançar o eleitor que não possui uma identificação política consolidada. “As campanhas conseguiram mobilizar os segmentos que já estavam politicamente identificados, mas demonstraram mais dificuldade para envolver o eleitor que não possui uma posição tão consolidada com os candidatos ou com os campos políticos”, afirma.
Para ela, a polarização também contribuiu para esse cenário. Parte da comunicação eleitoral passou a ser construída mais pela rejeição ao adversário do que pela apresentação de projetos, estratégia capaz de mobilizar as bases já constituídas, mas com limitações para conquistar quem está fora delas.
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“Numa eleição marcada pela polarização, grande parte da comunicação se estrutura pela rejeição. Então, convencer o eleitor sobre quem ele deve derrotar pode se tornar mais importante do que convencê-lo sobre o projeto que ele deve escolher”, diz.
Outro fator apontado é a transformação da própria comunicação política. Embora nunca tenha circulado tanto conteúdo eleitoral pelas redes sociais, volume de informação não significa necessariamente capacidade de convencimento.
A cientista política também identifica um componente de saturação política após sucessivos ciclos eleitorais marcados por forte polarização.
Na avaliação dela, a presença constante do conflito político no cotidiano produz efeitos diferentes. Ao mesmo tempo em que mobiliza eleitores com identificação consolidada com determinados campos, pode provocar cansaço entre aqueles que não se sentem representados por nenhum deles.
É nesse ponto que Christiany diferencia desinteresse de desmobilização. O primeiro pressupõe afastamento da própria eleição; o segundo pode representar apenas uma mudança na maneira como o eleitor participa do processo.
Um novo ciclo
Com a urna aberta, a campanha dá lugar à escolha. Mas, para Christiany, o processo político não termina com a apuração, especialmente diante da possibilidade de segundo turno para os cargos majoritários.
“Independentemente do resultado, eu acredito que o eleitor sai das urnas ainda inserido em uma sociedade politicamente muito dividida. A eleição encerra o processo de escolhas, mas não encerra as tensões”, ressalta.
Para a cientista política, esse é um dos desafios que permanecerão depois da votação: administrar uma sociedade que continuará plural e divergente. “Depois da contagem dos votos, o grande desafio deixa de ser conquistar o eleitor e passa a ser governar uma sociedade que continuará plural, que vai continuar divergente e que vai continuar politicamente tensionada.