Jogos arrecadam apenas 1% dos custos da Arena desde 2017; copa começa hoje leia
Rodinei Crescêncio
Arena Pantanal opera com capacidade de 20 mil pessoas, mas o público foi em média de 3,2 mil pessoas em 2019 no estádio padrão FIFA da Capital
A arrecadação do Governo do Estado com jogos de futebol na Arena Pantanal é o suficiente para cobrir, no máximo, 1,2% dos custos básicos anuais de manutenção da estrutura que substituiu o antigo “Verdão”. É o que mostram dados de público e de arrecadação da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel) obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e que cobrem os anos de 2017, 2018 e 2019.
Em 2020, o estádio recebeu público apenas nos três primeiros meses do ano, em razão da pandemia de Covid-19 que atingiu Mato Grosso a partir de meados de março. Dados encaminhados à reportagem do #rdnews pela Secel indicam que o estádio arrecadou, ao todo, R$ 6,9 mil durante 14 eventos esportivos realizados de janeiro a março do ano passado.
Os dados de 2017 a 2019 foram divulgados pela Fiquem Sabendo, agência especializada em acesso à informação e transparência. E foram cedidos à agência pela jornalista Beatriz Farrugia, coautora do livro "1950: O Preço de uma Copa”.
A Arena Pantanal foi construída para a Copa do Mundo da FIFA de 2014, e recebe a Copa América a partir deste domingo (13), quando Colômbia e Equador se enfrentam às 21h (de Brasília).
Desde 2017, a arena recebe jogos do Campeonato Mato-grossense, organizado pela Federação Mato-grossense de Futebol (FMF), além de partidas disputadas pelos times da Capital nos campeonatos nacionais como Copa Verde e Brasileirão nas séries D, C e B, coordenados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O Cuiabá Esporte Clube subiu para a Série A e disputa a elite do futebol nacional neste ano, com mando de campo na Arena Pantanal.
A Secel cobra, por padrão, 8% do valor arrecadado com ingressos nos jogos esportivos realizados no campo da arena. O maior valor anual recolhido foi em 2019, quando R$ 49 mil entraram para os cofres públicos. Foram 40 jogos, com público estimado em 128,3 mil pessoas em todo o ano, com média de 3,2 mil por jogo. A capacidade máxima de público é 41,1 mil pessoas em uma única partida, mas a arena opera com espaço para 20 mil pessoas nos jogos, sem uso dos anéis superiores do estádio.
Em 2019, o custo anual de manutenção do estádio no período era entre R$ 4 milhões e R$ 4,5 milhões, o que indica que a arrecadação com os jogos cobriu cerca de 1% das despesas. Os valores arrecadados em um ano inteiro não cobrem sequer os custos mensais com energia da estrutura, que giram em torno de R$ 240 mil.
O governo tem buscado saídas para reduzir custos de manutenção da arena e também para repassar os gastos à iniciativa privada. A investida mais recente, divulgada pelo secretário Alberto Machado, o Beto Dois a Um, é a venda do nome do estádio, os "naming rights", por cerca de R$ 8 milhões anuais, o que cobriria os custos e daria margem para investimentos.
Em 2018, a arena recebeu 120,7 mil pessoas em todos os jogos. Apesar do público parecido com o ano anterior, a arrecadação foi bem menor, ficando em R$ 35,8 mil. Foram 63 jogos naquele ano. Já em 2017, último ano disponível na base de dados, o estádio recebeu 21 jogos dos times cuiabanos. O público foi de 14,2 mil pessoas nos 12 meses, com arrecadação ao Estado de R$ 10,6 mil.
O jogo do Cuiabá sub-20 contra o Goiás, da mesma categoria, em março de 2018, registrou a menor arrecadação aos cofres públicos. A partida deixou apenas R$ 28,50 arrecadados, e não teve público pagante. Também houve no período eventos isentos de pagamento da taxa de 8%, como festivais de dança, treinamentos de arbitragem e outros.
Além da arrecadação com os jogos, a Arena Pantanal também recebeu outros tipos de eventos. Em março de 2018, o grupo Aram Produções realizou o “Só Track Boa” na área interna, e pagou R$ 3 mil ao Estado como taxa de utilização da estrutura. Já o “Itaipava de Som a Sol”, da Fabinho Produções, pagou um total de R$ 3,2 mil por duas edições realizadas em outubro e novembro de 2019.
Edson Rodrigues/Secopa
O antigo Verdão foi demolido para dar à lugar à Arena Pantanal para a Copa do Mundo FIFA
Há problemas na base de dados fornecida pela Secel e divulgada pela Fiquem Sabendo. O evento Rock Arena, por exemplo, realizado pela Gazaroo Produções, que contou com atrações internacionais em agosto de 2019 e cobrou ingressos a partir de R$ 25, consta com o valor “não encontrado”. O mesmo acontece com a Oktoberfest da Cervejaria Louvada, realizado em outubro de 2018.
Custos de construção
A Arena Pantanal foi erguida durante a gestão do ex-governador Silval Barbosa para a Copa de 2014, com a demolição do Estádio Governador José Fragelli, o “Verdão”. Em colaboração premiada homologada na Justiça, ele admitiu que seu grupo político cobrou 3% da obra em propina para favorecer a Mendes Júnior Trading e Engenharia S/A, que liderava o consórcio responsável pela construção ao lado da Santa Bárbara. Cerca de R$ 18 milhões foram pagos ilegalmente pela empresa ao ex-governador.
A obra nunca foi entregue oficialmente por problemas contratuais entre as empresas e o governo. O valor inicial do contrato era de R$ 342 milhões e foi atualizado por meio de aditivos chegando a, pelo menos, R$ 453,2 milhões. Apenas para a parte física da arena, o custo pode chegar aos R$ 500 milhões, se considerados reparos desde o início da operação.
Esse valor não inclui o contrato com o Consórcio C.L.E. Arena Pantanal, inicialmente firmado em R$ 98,1 milhões para fornecimento e instalação de equipamentos e sistemas de Tecnologia da Comunicação. O grupo formado por Canal Livre Comércio e Serviços, e Etel Engenharia, Montagens e Automação, cobra valor final estimado em R$ 110,8 milhões, e esse serviço e o valor levaram a discussões judiciais com o governo também.
Outra questão judicializada é o contrato com a Kango Brasil, responsável pelo fornecimento dos assentos do estádio e outros materiais. O valor é de R$ 18,2 milhões. O montante arrecadado pelo Estado com os jogos entre 2017 e 2019, cerca de R$ 95,5 mil, representa 0,01% dos cerca de R$ 582 milhões gastos para a construção da Arena Pantanal, se somados esses três contratos.
Christiano Antonucci
Espaços internos da Arena Pantanal como os vestiários foram reformados recentemente pelo Governo do Estado para receber jogos da Série A