Cuiabá, 03/11/2026

O cuiabano que jogou ao lado de Pelé

Além de Pelé, cuiabano Olmiro jogou ao lado de ídolos do passado como Mário Sérgio e André Catimba

Terceiro Tempo

Jogador cuiabano Almiro com Pelé e Abel, durante  treino do Santos, na Vila Belmiro, em foto publicada pelo Terceiro Tempo, do jornalista Milton Neves

Almiro deixará saudades, ele foi um grande guerreiro! Assim o ex-senador, radialista e jornalista Antero Paes de Barros lamentou a morte do amigo Almiro Antônio Gonçalves, que morreu aos 74 anos, na última quarta (09), em Salvador. Ídolo do Mixto, o ex-jogador havia perdido a visão e tinha sua saúde bastante debilitada nos últimos anos, quando ainda necessitava de fazer sessões de hemodiálise durante a semana.

Natural de Cuiabá, Almiro nasceu no dia 28 de fevereiro e foi revelado pelo Mixto, aos 14 anos, quando se tornou um dos maiores ícones do time mato-grossense. Em seguida, o ex-atacante foi comprado pelo Santos e teve a oportunidade de jogar ao lado de Pelé. Por lá, o cuiabano defendeu as cores do alvinegro paulista de janeiro de 1966 até junho de 1970.

Terceiro Tempo

Olmiro defendeu Mixto, Santos,  Bangu Vitória da Bahia e  Vitória de Setúbal em Portugal 

O ex-senador Antero Paes de Barros relembrou alguns momentos marcantes da trajetória de Almiro do futebol. Segundo o jornalista, o amigo, que era o seu grande ídolo na vida, ganhou a oportunidade de jogar ao lado de Pelé graças a uma excursão na cidade de Corumbá, quando o mesmo participou de um campeonato com a seleção cuiabana.

"Eu vi Almiro jogar no Mixto em 1965, era meu ídolo, ele ficou no Mixto até 1966. Em seguida ele foi fazer uma excursão pela seleção Cuiabana e jogando contra a seleção corumbaense, numa preliminar em que o Santos ia se apresentar na cidade de Corumbá. Na ocasião, os dirigentes do Santos viram o Almiro jogar e o contrataram para jogar ao lado de Pelé no Santos Futebol Clube", disse Antero.

Após defender o Santos, Almiro passou por Bangu-RJ e chegou ao Vitória em 1972, quando também se tornou um grande ídolo da equipe de Salvador, Por lá, o mato-grossense atuou ao lado de outros craques como Mário Sérgio e André Catimba. Ele defendeu a camisa rubro-negra até 1974, ano em que se transferiu para o futebol europeu.

Fim no futebol

No auge da carreira, Almiro defendeu o Vitória de Setúbal, de Portugal, por oito temporadas. Em seguida, o jogador até então foi obrigado a pendurar as suas chuteiras após sofrer uma cotovelada. Na ocasião, Almiro ficou com um problema grave de visão e não pôde mais retornar aos gramados.

“ Olmiro deixa saudades, ele foi um guerreiro (...). O futebol de Mato Grosso está de luto, o Mixto está de luto”

Antero Paes de Barros

O Santos queria o Almiro para substituir o Pelé, mas o Pelé tinha uma saúde extraordinária, quando nunca se machucava. O Almiro ficou durante 5 anos no Santos fazendo várias excursões com o clube. Depois teve passagens também por Bangu, Vitória, e jogou o futebol de Portugal, onde sofreu uma contusão nas vistas, que trariam consequências mais tarde para ele. Almiro morreu cego das duas vistas.

De volta ao Brasil e impedido de jogar bola, Almiro resolveu trabalhar em outra área. Falando inglês, espanhol e italiano e formado em Turismo, o ex-jogador não pensou duas vezes e se tornou guia turístico na grande Salvador. Apesar da sua deficiência visual, Almiro se deu muito bem na nova profissão e ajudou muitos turistas a trilhar pelos cantos da cidade que jogou por muitos anos. Ele morava no bairro Ribeira, na Península de Itapagipe,  no berço da capital da Bahia.

Correção de uma injustiça

O agora sócio-investidor e torcedor do Mixto, Antero Paes de Barros, disse ter a oportunidade de ser amigo de Almiro e de toda sua família, já que ele foi levado para o Tigre quando seu pai, Ranulpho Paes de Barros, era presidente do Alvinegro.

Antes de se tornar guia turístico, Almiro passou por algumas dificuldades em relação à sua aposentadoria. Segundo Antero, após ele perder a visão em Portugal, o então governador de Mato Grosso, Dante de Oliveira, propôs para a Assembleia uma Lei concedendo uma aposentadoria para o mesmo, e 15 anos depois da concessão, o Ministério Público propôs e a Justiça cassou a sua aposentadoria.

“Eu tive a oportunidade de evitar uma enorme injustiça no final da vida do Almiro, porque quando ele ficou cego das duas vistas o governo Dante de Oliveira concedeu a ele uma pensão, que hoje equivale a pouco mais que um salário mínimo. Contudo essa pensão, depois de muito tempo, foi cortada pela Justiça. Então eu tive a chance de como advogado atuar na causa probono, exclusivamamente pela amizade que sempre tive por ele e pela família. Dessa forma, com auxílio imprescindível da minha filha Patrícia Paes de Barros, fizemos uma ação para reestabelecer a pensão e conseguimos no Superior Tribunal de Justiça e depois confirmado pelo Supremo Tribunal Federal, através do ministro Gilmar Mendes. Com isso, podemos dizer que mesmo tendo partido ele deixa uma aposentadoria para a esposa".

Ministro do STF Gilmar Mendes fez homenagem 

Casado e pai de dois filhos, Almiro morreu na última quarta (09) e foi sepultado no cemitério Campo Santo, em Salvador. Além da cegueira, o ex-jogador estava fazendo sessões de hemodiálise durante a semana, conforme relatou o amigo Antero.

"Almiro deixa saudades, ele foi um guerreiro, estava lutando muito, porque além da cegueira, ele estava tendo que fazer 3 a 4 sessões por semana de hemodiálise. Isso é muito difícil e insuportável. O futebol de Mato Grosso está de luto, o Mixto está de luto", lamentou.

Homenagens

Nas redes sociais, o Esporte Clube Vitória lamentou o falecimento de Almiro. No comunicado, a equipe baiana destacou que o ex-jogador fez parte do histórico time de 1972, ao lado de Mário Sérgio, André Catimba e Osni. "Ele entrou para história ao marcar o primeiro gol rubro-negro em Campeonatos Brasileiros, logo contra o Santos de Pelé, que garantiu a vitória do Leão por 1x0 na Fonte Nova", destacou a nota de pesar.

No twitter, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, também expressou palavras de sentimentos pela partida do ex-atleta.

"Registro meu pesar pelo falecimento de Almiro Antônio Gonçalves, ídolo do futebol mato-grossense na minha infância. Almiro também vestiu a camisa do Santos Futebol Clube e jogou com maestria ao lado do rei Pelé. Meus sentimentos aos amigos e familiares", disse Gilmar.