Cuiabá, 30/10/2026

Paixão, memória e identidade: por que a Copa ainda mexe com o brasileiro

Em entrevista especial, especialista explica por que a Copa vai além do futebol e ainda ocupa espaço central na memória afetiva do país

A Copa do Mundo continua sendo um dos maiores fenômenos culturais do Brasil, capaz de mobilizar emoções até mesmo de quem não acompanha futebol no cotidiano. Essa é a avaliação do radialista e mestre em Comunicação pela UFMT, Jenisson Bartniski, em entrevista ao #rdnews. Segundo ele, o torneio mundial faz parte do imaginário coletivo dos brasileiros por estar ligado a memórias afetivas, reuniões familiares, ruas decoradas e momentos históricos da Seleção Brasileira. Para o pesquisador, a competição representa um raro instante de conexão nacional, em que pessoas de diferentes origens compartilham expectativas, alegrias e frustrações em torno do futebol.

Na entrevista, Jenisson também analisa as mudanças na forma de torcer nas últimas décadas. Ele destaca que o avanço das redes sociais transformou a experiência do torcedor, que hoje acompanha os jogos ao mesmo tempo em que interage com memes, comentários e repercussões online. Apesar disso, afirma que o futebol segue sendo uma poderosa ferramenta de sociabilidade e pertencimento, especialmente em cidades do interior de Mato Grosso, onde a Copa ainda mantém tradições comunitárias como ruas decoradas e encontros entre vizinhos para assistir às partidas. Para ele, a Copa vai além do esporte e coloca em jogo sentimentos como identidade, memória e esperança coletiva.

Nelson Terme/ CBF

Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista

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Por que a Copa do Mundo mexe emocionalmente com pessoas que nem acompanham futebol no dia a dia?

A Copa do Mundo faz parte do imaginário coletivo do brasileiro. Mesmo quem não acompanha futebol no dia a dia cresce cercado por histórias, lembranças e emoções ligadas ao torneio. Seja pelas ruas enfeitadas, pelas reuniões em família, pelas conversas no trabalho ou pelas memórias das grandes conquistas da Seleção Brasileira, a Copa está profundamente presente na nossa cultura.

Por isso, quando a competição começa, ela desperta sentimentos que vão muito além do esporte. A Copa cria um raro momento de conexão nacional, reunindo pessoas de diferentes origens, idades e realidades em torno das mesmas expectativas, alegrias e frustrações. Soma-se a isso um aspecto muito humano: a rotina do brasileiro é marcada por desafios, responsabilidades e preocupações constantes, e a Copa oferece uma oportunidade de viver emoções coletivas, alimentar esperanças e, ainda que por alguns instantes, encontrar um respiro em meio ao cotidiano.

O futebol ainda consegue unir o Brasil como antigamente?

O futebol ainda possui uma capacidade de mobilização nacional que poucos fenômenos culturais conseguem alcançar no Brasil, especialmente durante uma Copa do Mundo. No entanto, essa capacidade de união já não é a mesma de décadas atrás. A Seleção Brasileira deixou de ocupar, de forma tão consensual, o papel de símbolo da identidade nacional.

Esse distanciamento está relacionado a diferentes fatores: a crescente mercantilização do futebol, o afastamento dos jogadores em relação à realidade do torcedor brasileiro, a perda de uma identidade de jogo reconhecível e até a associação da camisa da Seleção a disputas políticas. Somam-se a isso os sucessivos fracassos esportivos e a crise de credibilidade da CBF.

Ainda assim, em momentos como a Copa do Mundo, o futebol demonstra que continua sendo um dos poucos espaços capazes de gerar emoções coletivas e reunir pessoas de diferentes origens, idades e visões de mundo. Talvez ele não una o Brasil com a mesma intensidade e unanimidade de antigamente, mas segue sendo uma das linguagens culturais mais poderosas do país.

Arquivo Pessoal

 Radialista e mestre em Comunicação pela UFMT, Jenisson Bartniski  explica por que a Copa do Mundo vai além do futebol e ainda ocupa espaço central na memória afetiva do país

Hoje o torcedor vive mais o jogo ou mais os memes e repercussões? Existe diferença entre o torcedor de estádio, o de bar e o de internet?

Viver o jogo hoje também significa viver tudo o que acontece ao redor dele. Ir ao estádio, por exemplo, muitas vezes é assistir à partida e, ao mesmo tempo, acompanhar comentários, estatísticas e reações pelas redes sociais. Durante os 90 minutos, o celular se tornou quase uma segunda tela do torcedor.

Nesse contexto, os memes deixaram de ser apenas uma consequência do futebol e passaram a fazer parte do próprio espetáculo. Ao mesmo tempo, o perfil do torcedor mudou. Aquele torcedor popular que marcou a história das arquibancadas brasileiras encontra cada vez mais dificuldades para frequentar os estádios, principalmente em razão do aumento dos preços dos ingressos e do processo de modernização das arenas. Isso não significa que ele desapareceu, mas que passou a ocupar outros espaços de vivência do futebol.

Se fosse diferenciar esses públicos, diria que o torcedor de estádio busca a experiência coletiva e sensorial do jogo, o bar continua sendo um espaço de sociabilidade, onde a partida é compartilhada entre amigos e desconhecidos, enquanto o torcedor de internet vive o futebol em fluxo contínuo, comentando, produzindo memes, debatendo e consumindo conteúdo antes, durante e depois das partidas. São formas diferentes de torcer, mas que hoje se complementam e ajudam a explicar como o futebol continua presente no cotidiano dos brasileiros.

O que mudou na forma de torcer nos últimos 20 anos? O torcedor brasileiro ficou mais crítico ou mais distante emocionalmente da Seleção?

 

O que um jovem de hoje talvez nunca entenda sobre as Copas dos anos 90 e 2000?

Um jovem de hoje talvez nunca entenda o que era esperar quatro anos por uma Copa do Mundo em uma época sem redes sociais, streaming e excesso de informação. Nos anos 1990 e 2000, a Copa era um evento raro, quase sagrado. As notícias chegavam pelos jornais, programas esportivos e conversas na escola, no trabalho ou na vizinhança. Havia uma construção gradual da expectativa que tornava o torneio ainda mais especial.

Também era um período em que a Seleção Brasileira ocupava um lugar diferente no imaginário nacional. Os jogadores eram vistos como heróis mais próximos da população, muitos deles acompanhados desde os clubes brasileiros. Nomes como Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho faziam parte do cotidiano dos torcedores muito antes das Copas.

Talvez o mais difícil de explicar seja o clima coletivo. As ruas eram pintadas, as bandeiras tomavam conta dos bairros e os horários do país pareciam se adaptar aos jogos da Seleção. A Copa não era apenas um campeonato de futebol; era um acontecimento cultural que reorganizava a rotina nacional.

Hoje a competição ainda mobiliza milhões de pessoas, mas divide espaço com inúmeras telas, conteúdos e disputas por atenção. Naquele período, por algumas semanas, a Copa era praticamente o centro do mundo para os brasileiros.

A tradição de decorar ruas e reunir vizinhos não desapareceu, mas certamente mudou

A tradição de decorar ruas e reunir vizinhos está desaparecendo?

A tradição de decorar ruas e reunir vizinhos não desapareceu, mas certamente mudou. Em muitas cidades, especialmente nos grandes centros urbanos, ela perdeu força por causa das mudanças no estilo de vida, da correria do cotidiano e até da forma como as pessoas se relacionam com os espaços públicos.

Hoje, muitas vezes, a Copa é vivida mais dentro de casa e pelas redes sociais do que nas ruas. Por outro lado, em muitos bairros e cidades do interior, essa cultura ainda resiste. A pintura das ruas, as bandeirinhas e os encontros para assistir aos jogos continuam sendo formas de fortalecer os laços comunitários.

Mais do que uma decoração, esses símbolos representam um sentimento de pertencimento e uma celebração coletiva que vai além do futebol.

Por que a derrota na Copa afeta tanto emocionalmente algumas pessoas? O futebol pode ser visto como uma válvula de escape social?

A derrota em uma Copa do Mundo afeta tanto algumas pessoas porque o futebol nunca é apenas futebol. Durante o Mundial, os torcedores projetam expectativas, sonhos, memórias e até partes da sua própria identidade na Seleção.

Quando o time vence, existe um sentimento coletivo de orgulho e pertencimento. Quando perde, especialmente de forma traumática, muitas pessoas sentem como se uma expectativa pessoal também tivesse sido frustrada.

Além disso, o futebol funciona, sim, como uma poderosa válvula de escape social. Em meio às preocupações do trabalho, da economia, da política e da vida cotidiana, a Copa oferece um raro momento de suspensão da realidade. Durante algumas semanas, milhões de pessoas direcionam suas emoções para algo compartilhado, que gera conversa, esperança e senso de comunidade.

Por isso, quando o sonho acaba, a tristeza vai além do resultado esportivo, ela representa o fim de uma experiência coletiva que mobilizou sentimentos muito profundos.

Talvez seja justamente por isso que a Copa seja tão especial. Ela nos lembra que, em um mundo cada vez mais individualizado, ainda existem momentos capazes de unir milhões de pessoas em torno de um mesmo sentimento.

Acervo CBF

Mato Grosso está longe dos grandes centros do futebol brasileiro, mas isso não significa distância emocional do esporte

Existe uma identidade própria do torcedor mato-grossense? O interior vive a Copa de forma mais comunitária do que os grandes centros?

Mato Grosso está longe dos grandes centros do futebol brasileiro, mas isso não significa distância emocional do esporte. Pelo contrário, aqui o futebol costuma ser vivido de forma mais coletiva e comunitária.

Em muitas cidades do interior, a Copa do Mundo ainda é um acontecimento social. As famílias se reúnem, os vizinhos compartilham o mesmo espaço, as ruas ganham decoração e o jogo se transforma em um momento de convivência.

Nos grandes centros, a rotina acelerada muitas vezes individualiza a experiência do torcedor. Já no interior, a Copa ainda preserva um pouco daquele ritual que marcou gerações: assistir junto, comentar cada lance, celebrar ou sofrer em grupo.

Não é apenas sobre torcer pela Seleção, mas sobre fortalecer laços de pertencimento e comunidade. Talvez por isso a Copa tenha um significado especial em Mato Grosso. Em um estado marcado por grandes distâncias geográficas e por uma população formada por diferentes origens culturais, o futebol se torna uma linguagem comum.

Quando a bola rola em uma Copa, o que realmente está em jogo além do futebol?

Estão em jogo identidades, memórias, sonhos e sentimentos de milhões de pessoas. A Copa tem a capacidade de representar o orgulho de um país, de unir diferentes gerações em torno de uma mesma paixão e de criar histórias que serão contadas por décadas.

Por isso, cada partida vale muito mais do que três pontos ou uma classificação, ela carrega emoções, símbolos e a esperança de um povo inteiro.

Arquivo Pessoal

Qual foi a imagem mais simbólica que você já viu em uma Copa do Mundo?

A imagem mais simbólica que eu já vi em uma Copa do Mundo foi a do Lionel Messi erguendo a taça de campeão mundial em 2022. Não foi apenas a celebração de um título, mas a consagração definitiva daquele que é o maior e melhor jogador que eu vi atuar.

É uma imagem que sintetiza a recompensa para quem nunca desistiu. A conclusão de uma das histórias mais marcantes da história do futebol.

Se você tivesse que resumir a Copa em uma palavra, qual seria e por quê?

Memória. Porque a Copa não é apenas sobre os jogos que acontecem em campo, mas sobre as lembranças que ela cria. Cada edição fica marcada por um gol inesquecível, uma comemoração em família, uma rua enfeitada, um jogador que virou ídolo ou até uma derrota que ninguém esquece.

A Copa passa em um mês, mas as histórias e emoções que ela gera permanecem na memória das pessoas por toda a vida.