Reformulação não funciona e Cuiabá segue em queda livre na temporada
Mesmo com uma das melhores defesas da Série B, o Dourado enfrenta crise ofensiva e sequência sem vitórias agrava pressão sobre elenco e diretoria
O Cuiabá atravessa uma das fases mais delicadas de sua história recente. O clube, que há pouco tempo era símbolo de estabilidade e crescimento no futebol brasileiro, hoje vive uma realidade completamente oposta, com crise técnica, baixo rendimento ofensivo, perda de confiança da torcida e um ambiente de pressão crescente dentro e fora de campo.
O rebaixamento para a Série B em 2024 parece ter deixado marcas profundas. Desde então, o time não conseguiu reencontrar identidade, regularidade e competitividade. A reformulação do elenco promovida após a queda ainda não trouxe respostas dentro das quatro linhas, e o desempenho na Série B de 2026 evidencia isso.
AssCom Dourado
Em 10 partidas disputadas, o Cuiabá venceu apenas uma vez, empatou sete e perdeu duas. O time se transformou no “rei dos empates”, mas os números mostram que o problema vai muito além da dificuldade em vencer. O setor ofensivo é um dos piores da competição, com apenas quatro gols marcados, reflexo direto da pouca criatividade e da baixa eficiência no ataque. Defensivamente, os números até chamam atenção de forma positiva, apenas cinco gols sofridos, mas a solidez atrás perde valor quando o ataque praticamente não funciona.
O aproveitamento de apenas 33% deixa o clube perigosamente próximo da zona de rebaixamento. Atualmente na 16ª colocação, com 10 pontos, o cenário já começa a preocupar seriamente torcedores e dirigentes. A equipe não vence há cinco rodadas, acumulando quatro empates consecutivos antes da derrota para o Náutico, por 1 a 0, nos Aflitos.
O momento como mandante talvez seja o retrato mais alarmante da crise. Já são oito partidas sem vitória na Arena Pantanal, sequência que se arrasta há cerca de três meses. O estádio, que em outros momentos foi um trunfo do Cuiabá, hoje se tornou símbolo da frustração coletiva. O público baixo nos jogos reflete o distanciamento da torcida, cansada das atuações pouco convincentes e cada vez mais temerosa de uma queda inédita para a Série C.
O presidente Cristiano Dresch tenta sustentar o discurso de reconstrução. Segundo ele, o clube praticamente montou um novo elenco após o rebaixamento, o que explicaria a falta de entrosamento e os problemas atuais. O dirigente chegou a afirmar que, em uma das partidas recentes, apenas o lateral Calebe permaneceu entre os atletas da temporada anterior. O argumento mostra o tamanho da reformulação, mas também evidencia um possível erro de planejamento, onde a perda quase completa da base que sustentava o time nos anos anteriores.
Dresch reconhece que o principal problema está no ataque e admite limitações técnicas no elenco. A abertura da próxima janela de transferências, em 20 de julho, surge como esperança para mudar o cenário. O primeiro movimento já aconteceu com a chegada do atacante Marcos Júnior, ex-Fluminense. Ainda assim, existe a percepção de que apenas reforços pontuais talvez não sejam suficientes para resolver uma crise que parece também emocional e estrutural.
Após a derrota para o Náutico, o presidente protagonizou uma entrevista explosiva, criticando duramente o gramado dos Aflitos, a arbitragem e a estrutura oferecida pelo clube pernambucano. Dresch comparou as condições da Arena Pantanal ao estádio adversário e reclamou do desequilíbrio estrutural dentro da Série B. O discurso, no entanto, divide opiniões. Enquanto parte entende a indignação do dirigente, outra parcela vê a postura como uma tentativa de desviar o foco dos problemas internos do Cuiabá.
Do lado da comissão técnica, Eduardo Barros adotou um tom diferente. O treinador reconheceu a dívida com a torcida e admitiu que o time produziu menos do que deveria, especialmente dentro de casa. Barros destacou que a responsabilidade é coletiva, envolvendo jogadores, comissão técnica e diretoria, em uma fala mais alinhada ao sentimento atual da arquibancada.
O principal desafio do Cuiabá neste momento parece ser psicológico e esportivo ao mesmo tempo. O time não transmite confiança, cria pouco, joga sob pressão e convive com a ansiedade crescente da torcida. A Série B costuma punir equipes que demoram a reagir, principalmente aquelas que entram em espiral de empates e derrotas sem conseguir recuperar autoestima.
O confronto diante do CRB, no próximo domingo (31), ganha peso de decisão logo na 11ª rodada. Mais do que os três pontos, o Cuiabá precisa dar sinais de reação. Porque, hoje, o clube que há poucos anos representava organização e ascensão no futebol brasileiro vive uma realidade preocupante, e já começa a olhar mais para baixo na tabela do que para qualquer possibilidade de recuperação.