Cuiabá, 01/11/2026

Capital deixa de merecer o título de Cidade Verde, avaliam pesquisadores

Nestes 298 anos de fundação, a capital de Mato Grosso, Cuiabá, certamente tem pouco a ver com o apelido ganho desde pelo menos o século 19, de acordo com alguns historiadores, pelas mãos e boca de Dom Francisco de Aquino Correa. A considerar nosso aglomerado urbano, não somos mais a Cidade Verde há muito. Árvores são arrancadas ano após ano, década após década, por iniciativa governamental ou privada.

O último grande desbaste, sentido, visto e percebido por todos, aconteceu por força das obras – jamais concluídas – para a Copa do Mundo da Fifa, quando os últimos exemplares  de vegetação existentes nas principais avenidas (Prainha, do CPA, Coronel Escolástico e Fernando Correa) foram arrancadas para a construção do Veículo Leve sobre Trilho (VLT). Obras essas abandonadas no ano do evento (2014), com promessas de serem retomadas no próximo mês.

Assim, se tudo der certo, o cuiabano enfim andará de trem em 2019.

Pelo que apurou o #rdnews, com cuiabanos comuns - nativos ou não, que conheciam a cidade pelo menos desde meados dos anos 1980 - e pesquisadores, ninguém ficou muito satisfeito. Tentamos traçar um diagnóstico de como vidas verdes foram se perdendo, especialmente nas três últimas décadas, e os impactos disso na vida social e na dificuldade para suportar o clima sempre de alta temperatura, na terra da manga e do guaraná ralado.

Para o geógrafo Antonio Latorraca Neto, cujo mestrado baseou-se nos efeitos sobre a paisagem ao longo do eixo um e dois da construção do VLT na capital, a ausência de áreas verdes na região central é um problema percebido em duas frentes: a inexistência de uma política urbana adequada e a falta de conscientização ambiental quanto à importância da presença das árvores na cidade.

Gilberto Leite

 Prainha foi completamente escavada e foram retirados os restos de vegetação. Aridez ficou evidente

Após analisar a mudança da paisagem ao longo desse eixo e os estudos técnicos realizados pela Secopa e pelo consórcio do VLT, o pesquisador concluiu que vários outros estudos técnicos obrigatórios não foram feitos. Essa discussão levava em conta o planejamento urbano ideal pra uma cidade ecologicamente sustentável.

O resultado das pesquisas iniciadas em 2013  viraram a tese Impactos Socioambientais e Qualidade Ambiental: O Caso da Implantação do VLT em Cuiabá, defendida em 2016. Latorraca Neto percebeu que áreas como a praça em frente ao Shopping Pantanal, que abriga o monumento a Ulisses Guimarães (na avenida do CPA), e a região do 9º BEC (avenida Fernando Correa), que já vinham perdendo paisagem verde, foram simplesmente devastadas na tal preparação pra Fifa.

“Há um grande processo de impermeabilização do solo em torno das avenidas que não foi causado diretamente pelo VLT, mas são impactos das obras da Copa e das próprias operações econômicas ali realizadas. Afinal de contas, o VLT, segundo os estudos do consórcio, passaria pelas áreas mais ativas economicamente do estado”, explica Latorraca Neto.

Mesmo assim, os construtores nunca disponibilizaram, por exemplo, o número de árvores retiradas desses lugares. “Não fiz o controle sobre a quantidade de árvores retiradas, mas sabe-se que foi ainda menor do que o previsto, mas só porque a obra não foi concluída”. Ou seja, se seguir como foi até aqui, o estrago será ainda maior.

Sempre que se tira árvores, o que acontece é o aumento da temperatura no microclima das imediações de onde essas áreas verdes desaparecem, explica o mestre em geografia, e o nascimento das chamadas ilhas de calor. Latorraca Neto lembra que esse é um problema brasileiro, observado quando participava de um projeto integrante do Observatório das Metrópoles, do Instituto de Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR /UFRJ), do qual a Cidade Verde não escapou.

Ambientalista, jornalista de meio ambiente há 18 anos, professora universitária e educadora ambiental, Juliana Arini é cuiabana e lembra bem de sua cidade nos anos 1980, quando era muito mais arborizada. “Ainda existiam os quintais cuiabanos e era comum ver muitas mangueiras pela cidade, mas as pessoas adquiriram o habito de ver as árvores como inimigas. Primeiro começaram com grandes podas, depois literalmente cortaram as árvores para não ter que varrer as folhas das calçadas”.

Isso foi tornando a cidade como um todo, e o centro em particular, mais cinza. Ela explica o quanto isso fez as épocas de seca ainda piores devido ao fato de as regiões onde antes havia vegetação hoje serem ocupadas por asfalto e concreto, formando ilhas de calor e reduzindo muito a umidade.

“A super impermeabilização do asfalto faz com que certos locais virem verdadeiros caldeirões. Ao menos nas avenidas parecia que iam preservar os ipês, pingos de ouro, acácias e flamboyants que embelezavam a paisagem de Cuiabá“, continua Arini. Desde o início da construção do VLT, “sem nenhum tipo de projeto executivo ou planejamento, decidiram primeiro sentenciar as árvores da cidade” e o resultado é que a capital perdeu muito mais áreas verdes e sombras.

Existem muitas pesquisas, alguns estudos apresentados à época da construção pelo próprio Consórcio VLT, que mostram as áreas verdes como fundamentais para a qualidade de vida da população. A ambientalista lembra, entretanto, que nos bairros mais populosos quase não há árvores, muito menos praças. “Isso é muito ruim, pois causa uma sensação de não pertencimento às pessoas, fora que aumenta os casos de estresse, depressão e ansiedade”, pontua.

Impermeabilização faz certos locais virarem caldeirões. Retiraram das avenidas os ipês, pingos de ouro, acácias e flamboyants que embelezavam a paisagem de Cuiabá nos anos 1980, lembra ambientalista

Psicólogo e mestre em educação pela UFMT, Jeysson Fernandes da Cunha estudou os efeitos das obras da Copa nas crianças entre nove e 12 anos de idade. Entre os muitos entendimentos possíveis no trabalho realizado com um grupo de 40 meninos e meninas, percebeu certa tendência deles "assumirem a configuração do espaço privado como referência para se pensar o espaço público, sendo definidos como lugares gratuitos”, explicou o psicólogo.

Seu trabalho de pesquisa utilizou referenciais teóricos em diálogos entre psicologia social, sociologia e arquitetura e urbanismo. “Compreendemos que o comportamento dos sujeitos na cidade recebe influências sociais e históricas. A Copa do Mundo de Futebol em Cuiabá foi um evento emblemático sobretudo pelas transformações urbanas havidas em razão da realização do megaevento e anunciadas como legado da Copa”.

No entanto, as tais transformações urbanas foram sentidas pelos pequenos de forma a corroborar para que eles assumissem espaços privados da capital (shoppings, franquias de lanchonete, restaurantes) como modelo de qualidade de vida e lugar para eles, enquanto que os espaços públicos (rodoviária, praças e ruas) devem necessariamente ser evitados por gerarem medo e insegurança. “Nota-se, desta forma, que o megaevento de natureza privada produziu impactos na cena pública, sendo percebidos pelas crianças, influenciando suas significações e comportamentos”.

O trabalho de Jeysson se chama Representações Sociais de Crianças Sobre Cuiabá Antes e Depois da Copa do Mundo 2014. Os 40 meninos e meninas foram divididas em quatro grupos de 10, em três regiões administrativas de Cuiabá: Sul, Leste e Oeste.

Mesmo sem ter recebido esses dados e entrevistada em separado, a educadora ambiental e professora Juliana Arini percebeu algo semelhante no comportamento social, a partir da própria vivência. Para ela, ter acesso às áreas verdes em Cuiabá virou luxo da classe média alta, “que pode comprar casas em condomínios fechados. Esses empreendimentos vendem justamente o que a falta de praças e arborização rouba das pessoas: o direito à qualidade de vida, cidadania e ao convívio social, ou seja, o simples direito de brincar na rua e ter uma pracinha para seus filhos”.

Isso era simplesmente o comum para a geração de nossos pais, quando Cuiabá fazia jus ao apelido dado pelo arcebispo Aquino Correa. “Tinha com abundância (áreas verdes, praças públicas) e nós pudemos viver um pouco ainda nos anos da década de 1980. Eu tive o privilégio de ver a cidade inclusive com algumas praias de rios limpas, com as do rio Coxipó. Hoje, perdemos até isso”, lamenta.

Gilberto Leite

Recentes vítimas do corte desordenado foram as substitutss dos cacaueiros da Alencastro dos 80

Os locais mais recentes onde árvores estão sendo arrancadas e patrimônio histórico indo abaixo estão localizados na chamada Ilha da Banana e na Praça Alencastro. Na primeira, para retomada das obras abandonadas na época da Copa; a segunda, por força de uma reforma colocada em marcha pela prefeitura de Cuiabá. O arquiteto, urbanista e professor universitário José Antonio Lemos dos Santos escreve, em seu livro Cuiabá e a Copa, que não consegue entender a necessidade que as administrações públicas da capital têm de “precisar destruir patrimônio histórico, o velho, para construir o progresso, o novo” e isso às vésperas dos 300 anos de fundação.  “Nada tão vergonhoso no tricentenário do que o Centro Histórico como está. Mas a esperança morre por último e não custa relembrar que, afinal, Deus é brasileiro e o Bom Jesus é de Cuiabá”, escreveu, em artigo recente.

Outro lado

A assessoria de comunicação do Consórcio VLT informou ao #rdnews que não tem dados precisos sobre os números de vegetação verde retirados dos canteiros, assim, estimam que foram entre 2.800 a 3.000  árvores e plantas ornamentais, mas que “todo o trabalho de poda e retirada foi amparado por licenças ambientais e projetos aprovados por órgãos competentes”. 

Também informaram que uma parte foi transplantada, “as que tinham raízes mais preservadas”, sendo retiradas de um ponto e replantadas em outro lugar. 300 mudas foram plantadas na Avenida do CPA. O projeto inicial previa o replantio de 3,5 mil árvores ao longo da linha do VLT. Como dito acima, a previsão de retorno das obras era maio, mas nova decisão judicial já barrou esse entendimento.