Cuiabá, 01/11/2026

Orquestra de MT possui o menor orçamento entre principais do país

Protásio de Morais

Orquestra de Mato Grosso se tornou referência no país e tem um orçamento de R$ 1,6 mi por ano

Presente na cultura brasileira desde o período colonial, a música de orquestra, com o passar dos anos, tem ganhado cada vez mais adeptos no país do samba e do carnaval. 

Na década de 1950, já havia um número considerável de grupos profissionais em plena atividade e com público cativo.

Mas foi a partir dos anos 1990 que um verdadeiro levante orquestral apresentou uma nova perspectiva que se espalhou por quase todas as Capitais brasileiras que ainda não dispunham de um grupo com programação regular, Cuiabá inclusa.

Isso mudou a partir de meados dos anos 2000, quando foi criada a Orquestra do Estado de Mato Grosso.

De lá para cá, centenas de instrumentistas e solistas nacionais e internacionais vieram para Mato Grosso, levando a OEMT a, apresentação após apresentação, fazer aumentar seu público enquanto influenciava e era influenciada no modo como é agora gerido todo o universo da música de orquestra do Brasil.

Entre os desdobramentos mais visíveis dessa nova percepção sobre a prática orquestral no país pode-se citar a reestruturação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo em 1997, as melhorias realizadas na Orquestra Sinfônica Brasileira em 2005, a fundação da Orquestra do Estado de Mato Grosso naquele mesmo ano e a estruturação da Filarmônica de Minas Gerais em 2008.

Para entender isso, é necessário observarmos um pouco como funcionam as orquestras, quanto custam e como são geridas. Em entrevista exclusiva para o RDNews, Diomar Silveira, diretor presidente do Instituto Cultural Filarmônica – Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, uma das mais tradicionais do Brasil, explica que “não é uma tarefa fácil manter uma orquestra de qualidade hoje, e é ainda mais difícil com o modelo ultrapassado de contratos efetivos. Prejudica muito todo o processo das orquestras e o mercado também. O maestro fica preso a um grupo de músicos com uma série de vícios difíceis de serem mudados, há um engessamento generalizado que reflete, inclusive, no mercado, com valores que não seguem o modelo ultrapassado”.

Carlos Alberto

Diomar Silveira diz que é difícil manter as orquestras no Brasil, especialmente por causa do modelo ultrapassado de contratos efetivos que são firmados

A OEMT é uma associação reconhecida como Organização Social da Cultura e mantém com o governo um contrato de gestão firmado em 2007. Esse é o mesmo modelo adotado por inúmeros equipamentos culturais no Brasil e pelas principais orquestras do país, como a Filarmônica de Minas Gerais, a Osesp e a Orquestra Filarmônica de Goiás, que está em vias de assinar o contrato de gestão com o governo do Estado vizinho no valor aproximado de R$ 8 milhões por ano, quase cinco vezes mais que o orçamento anual da OEMT, de R$ 1,65 milhão, de acordo com o informado pela assessoria de imprensa da entidade.   

“Aqui em Minas adotamos o modelo compartilhado entre o Estado e Instituto de Direito Privado (IDP), com contrato de gestão, para que o Estado se comprometa em manter a orquestra viva. Esse é modelo que defendemos aqui, mais produtivo, mais sadio, com mais possibilidades de entregar resultados de qualidade. A sociedade é exigente e quer qualidade nos serviços públicos”, continua Diomar Silveira.

Para ele, a OEMT segue a trilha certa com o modelo de gestão compartilhada porque apresenta repertórios de qualidade em concertos regulares. Entretanto, lembra: tem que seguir lutando sempre por melhorias para que possa ter uma orquestra ainda maior e, consequentemente, mais possibilidades.

As orquestras profissionais têm que pensar em salários competitivos e, para isso, é preciso comprometimento do poder público. “É como um time de futebol, os melhores talentos custam caro”, arremata Silveira. A OEMT, apesar de ser uma das mais jovens orquestras do Brasil, destaca-se entre as doze mais atuantes no país, de acordo com o publicado no Anuário Viva Música 2013 e, mais recentemente, no jornal Correio Braziliense.

Dentre as principais orquestras, a OEMT tem o menor orçamento. Figuram entre as doze a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), com orçamento de R$ 90 milhões anuais, a Filarmônica de Minas Gerais, com quase R$ 20 milhões ao ano, Orquestra Sinfônica do Paraná, com R$ 10 milhões, a Orquestra Sinfônica da Bahia, com R$ 7 milhões ao ano, e a Filarmônica do Espírito Santo, com R$ 4,6 milhões ao ano.

É interessante notar que a Filarmônica de Minas Gerais, a exemplo, recebe mais em um ano do que a OEMT recebeu ao longo de 10 anos (aproximadamente R$ 15 milhões em uma década, de 2007 a 2017). Os dados estão publicados no Anuário Viva Música.

Os incentivos direcionados a estas organizações são justificados pelo impacto que as orquestras causam nas comunidades em que atuam, que pode ser observado pela quantidade de apresentações e repertórios exibidos, atraindo cada vez mais adeptos da música de concerto, seja em apresentações no teatro ou em praças públicas e em escolas.

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Protásio de Morais

Maestro Leandro Carvalho lembra que, ao longo de pouco mais de uma década, a OEMT realizou concertos em 23 municípios de MT e que, pelo Brasil, foram 95 municípios visitados em 23 Estados

O maestro Leandro Carvalho argumenta que, por meio de concertos gratuitos ou a preços populares, a OEMT busca possibilitar o amplo acesso do público às suas atividades, em locais de fácil acesso, difundindo o repertório sinfônico e de câmara brasileiro, bem como o repertório de compositores estrangeiros.

“Também forma novas plateias com repertórios acessíveis e concertos em formato especialmente desenvolvidos para uma maior aproximação do público ao repertório brasileiro e universal de grandes compositores, contribuindo ainda com desenvolvimento de ações culturais em parceria com a escola formal e descentralizando o acesso à cultura”, defende o também secretário de Cultura do Estado.

Ele lembra que, ao longo de pouco mais de uma década, a OEMT realizou concertos em 23 municípios mato-grossenses. Pelo Brasil, foram 95 municípios visitados em 23 Estados. Ao todo, a OEMT realizou 623 concertos, exibindo 97 repertórios distintos, incluindo mais de uma centena de composições fundamentais da literatura universal.

Comissionou composições e arranjos especialmente escritos para o grupo, além do intenso trabalho de valorização de compositores mato-grossenses, como Tote Garcia, Mestre Albertino, José Agnelo Ribeiro, Guapo e, mais recentemente, Zulmira Canavarros. 

A intensa atividade da Orquestra de Mato Grosso lhe proporcionou, em 2009, reconhecimento nacional. Naquele ano, foi finalista do XII Prêmio Carlos Gomes de Ópera e Música Erudita, a mais importante premiação do gênero. Em 2014, a OEMT foi convidada a apresentar os resultados de seu trabalho num dos mais relevantes encontros do setor, o Classical Next, realizado em Viena, Áustria.

Em 2016, sua trajetória foi destaque, ao lado de renomadas orquestras brasileiras e internacionais, como a Sinfônica de Chicago e a Sinfônica de São Paulo, na programação da MultiOrquestra -- conferência internacional que reuniu importantes profissionais do setor orquestral em São Paulo. Em 2015, a Orquestra de Mato Grosso participou ainda do TransformOrchestraLeadership (TOL), programa oferecido pelo Conselho Britânico para o desenvolvimento de profissionais do setor. Para o próximo ano, a promessa é manter e ampliar as realizações.