Segunda prefeita da história de Mato Grosso, Sarita Baracat desafiou seu tempo
Sarita Baracat de Arruda tem 86 anos anos, nasceu em Várzea Grande e entrou para a história de Mato Grosso como a segunda mulher a ocupar um cargo público no executivo do Estado. Foi entre 1967 e 1970, quando tornou-se prefeita da cidade onde viveu a maior parte da vida. Oito anos depois, foi eleita deputada estadual entre 1978 e 1982. Era o primeiro parlamento após a divisão.
Acervo Pessoal
Dona Sarita Baracat nunca vestiu muito bem a roupa de submissão à sociedade patriarcal. Sempre teve voz própria
Desnecessário porém inescapável lembrar que naqueles tempos, como hoje ainda, as mulheres tinham pouquíssimas voz e vez tanto na vida íntima quanto na convivência social. Representatividade era uma palavra ainda a ser criada e coronéis determinavam os rumos das eleições.
Mulheres deviam obediência a seus maridos, violência psicológica e até castigos físicos eram tolerados e raramente punidos. Ainda assim, dona Sarita Baracat decidiu começar sua carreira política em plena ditadura militar, em fins dos anos 1960.
Se nos dias que correm contamos com somente uma mulher (Janaína Riva) e nenhuma vereadora, desde as últimas eleições, não é difícil imaginar como funcionava o mundo à volta de dona Sarita. Ela é mais uma das personalidades homenageadas na série de minidocumentários criada pelo departamento de comunicação do Estado, Tipos Mato-grossenses.
Os jornais e revistas exaltavam o que seria um bom comportamento feminino: limpar bem a casa, agradar o marido, receber visitas, saber “se comportar” em público. Nada disso impediu a mãe de dois filhos se fazer ouvir e tentar contribuir com sua cidade e depois seu Estado, sem sequer dar ouvidos ao machismo e julgamentos.
Ela mesma conta no vídeo que gostava do confronto com o esperado e imposto pelo status quo da época. Fazia coisas dignas de escândalo para além do discurso e do colocar-se opinativamente, ela usava calças compridas, fumava, se posicionava. Privilégios absolutamente masculinos e criticados inclusive por outras mulheres.
“Ganhou a eleição em 1966 e tornou-se a primeira prefeita eleita de Mato Grosso”
Para ir ainda mais longe, ela sempre amou futebol, sendo torcedora fanática do Clube Esportivo Operário Várzea-Grandense, equipe, aliás, durante décadas (inclusive na de sua fundação) ligada à sua família. Ela participou também da criação do primeiro campo industrial de Mato Grosso, em Várzea Grande.
Como o nome entrega, a família Baracat é de origem síria. Seus pais, Miguel Baracat e Warda Zain, vieram a se conhecer e casar na Argentina. De lá, mudaram-se para Várzea Grande com seus filhos Sarita mais outros sete irmãos.
Com apenas 20 anos, foi trabalhar como tesoureira da Prefeitura de Várzea Grande. Dois anos depois, começou a dar aulas de sociologia, história e geografia. Corria o ano de 1957 quando ela decidiu seguir carreira na política concorrendo ao cargo de vereadora. Foi a mais votada naquela eleição. Em 1960, casou-se com Emanuel Benedito de Arruda e foi mãe de dois meninos: o colunista social e jornalista Fernando Baracat e o também ex-deputado Nico Baracat.
Em 1966, após a desistência do candidato do Arena, teve seu nome colocado ao escrutínio popular. Ganhou a prefeitura e entrou pra história por seu pioneirismo. Já pelo MDB, em 1978, venceu nova eleição, agora para deputado estadual.
Atualmente, dona Sarita Baracat de Arruda ainda mora no velho casarão da infância, um grande quintal cheio de árvores, à moda várzea-grandense e cuiabana. Lá, recebe sempre parentes e amigos.
Completou 50 anos de diplomação em 2017 como prefeita em Mato Grosso. Há cinco anos, sofreu um duro revés, quando seu filho mais novo, Nico Baracat, morreu em consequência de um acidente de carro.
Assista o documentário feito em homenagem à Sarita em Mato Grosso: