Cuiabá, 03/10/2026

CV triplica número de faccionados, e em seis meses, movimenta quase R$ 10 mi

Organização criminosa já conta com 30 mil membros e tem braços estendidos nos 141 municípios de MT

Imagem Ilustrativa

O tamanho da principal facção criminosa de Mato Grosso, conhecida como Comando Vermelho (CV), triplicou em menos de três anos. Investigação que embasou a Operação Ativo Oculto, deflagrada na última quinta-feira (23), aponta que, atualmente, a organização conta com 30 mil integrantes, o que equivale à população de Poconé (a 100 km de Cuiabá), cidade portal do Pantanal no Estado. Em 2020, eram 10 mil faccionados ao grupo. Chama a atenção, ainda, o montante movimentado pela cúpula criminosa do CV em apenas seis meses em Mato Grosso: quase R$ 10 milhões.

As informações foram levantadas pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público Estadual (MPE), e constam em decisão judicial sigilosa que autorizou a operação, à qual o #rdnews teve acesso.

A investigação aponta que, com estratégia e ousadia, os membros da facção estão expandido negócios para o social de vários bairros da Grande Cuiabá e mudando a forma de utilizar o dinheiro, usando familiares e amigos para lavarem as somas “arrecadadas” pela organização.

Dados compilados pelo Gaeco apontam que, periodicamente, valores são transferidos para faccionados incumbidos de guardar a quantia para a organização criminosa. Essas transações são feitas por meio de Pix, razão pela qual foi possível levantar a quantia movimentada via consulta junto ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Foi por meio desse levantamento que o Gaeco descobriu supostas ligações entre o apontado fundador do CV em Mato Grosso, Sandro Louco, e os 11 presos na operação Ativo Oculto. O nome da operação, aliás, faz alusão a Sandro, que encontra-se preso na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá.

Arte: Rodinei Crescêncio/RDNews

Organização e lavagem de dinheiro

 A investigação expõe que, para assegurar o bom andamento dos crimes praticados, os integrantes do CV estão tentando desenvolver uma rede de comunicação com grande compartimentação das informações, buscando limitar o número de interlocutores. Tal sistema restrito pode ser identificado como uma “rede fechada”, da qual participam poucos criminosos, assegurando que as atividades criminosas não sejam anuladas, por exemplo, no caso de prisão de uma ou outra liderança.

As atividades ilegais exercidas, dentre as quais o tráfico de drogas ainda é o “carro chefe”, geram vultuosas quantias que, além de custear ostentações de estilos de vida incompatíveis com a capacidade lícita econômica dos integrantes e familiares, são “reinvestidas” na própria facção para assegurar seu crescimento e o domínio do território.

“No afã de assegurar o proveito econômico escuso, segundo a representação, os principais líderes da organização utilizam de diversos métodos de lavagem de dinheiro”

Trecho dos autos

“No afã de assegurar o proveito econômico escuso, segundo a representação, os principais líderes da organização utilizam de diversos métodos de lavagem de dinheiro, perpetrados, supostamente, em coautoria pelos alvos da presente representação, familiares, cônjuges, companheiros e pessoas com próxima ligação aos líderes identificados”, diz trecho dos autos.

O #rdnews compilou os dados e somou valores de movimentação da facção apresentados pelo Coaf. Somente Luiz Fagner Gomes Santos, o Passat, preso preventivamente na operação e apontado como tesoureiro do CV, movimentou em dois meses R$ 2,4 milhões para a facção.

Ao todo, o Gaeco acompanhou a movimentação financeira de pelo menos 23 faccionados e familiares. Em um semestre, como atividades intensificadas nos últimos dois meses, a organização movimentou em Mato Grosso R$ 8,9 milhões.

Os dados apontam que, atualmente, o Comando Vermelho está presente nos 141 municípios, com atuação forte nas cidades da fronteira do Estado e expandindo violentamente para o Norte. A hegemonia da facção é mantida às custas de extremada violência, torturas, homicídios, sequestros e uma guerra contra membros de facções rivais.

Agente Oculto

O juiz João Bosco Soares da Silva, do Núcleo de Inquéritos Policiais (Nipo), é quem assina a decisão que determinou o cumprimento de 271 mandados judiciais, sendo 112 bloqueios e sequestro de bens e valores, 125 ordens de busca e apreensão e 34 prisões.

Entre os mandados de prisão cumpridos está o de Thaisa Souza de Almeida, esposa de Sandro Louco. Ainda foram alvos, além do próprio Sandro, outros supostos líderes da facção: Sebastião Dandão, Fabio Farrame, Nego Renildo, Miro Loco, Leonardo Imperador, Jonas K9, Demiz Fusca, Luiz Fagner Tchutchuca, Gilson Russo, Toleacil Trolha, Rudiney Pinguim, Fabio Lacoste, Reginaldo Bongo, Joadir Piripaque, Wellington Pacato, Aldemir Japa, Sergio Lacraia, Renato Vermelhão, Paulo Paiacam, Leonardo Maresia e Ulisses Mano Coroa.