Cuiabá, 17/09/2026

Professor representa na OAB contra advogado de vítima que o denunciou por assédio

Na representação, professor Saulo Tarso Rodrigues, da UFMT, alega que advogado da vítima estaria “vazando” prints e documentos do caso para a imprensa

O professor afastado do curso de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Saulo Tarso Rodrigues, e a esposa dele, Josete Maria da Silva, entraram com representação no Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT) contra o advogado Yuri Machado, que faz a defesa da aluna que acusou o docente de assédio sexual e perseguição. Segundo o documento, o advogado estaria “vazando” print e documentos do caso, que corre em sigilo, para a imprensa.

PJC

Advogado Yuri Machado (à esquerda) e professor Saulo Tarso Rodrigues (à direita)

Conforme já publicado pelo #rdnews, a vítima relatou ter sido vítima de importunação sexual e perseguição desde fevereiro de 2026, no início do semestre letivo. Diante do risco à integridade psicológica da jovem, o juiz do plantão criminal da Comarca de Cuiabá, Marcos Terencio Agostinho Pires, proibiu Saulo de se aproximar a menos de 500 metros da aluna, de seus familiares e de testemunhas do caso. 

A UFMT também determinou afastamento cautelar do professor enquanto tramita uma investigação preliminar instaurada pela Corregedoria da instituição. No início de agosto, Saulo foi preso por descumprir medida cautelar. Ele foi solto nessa terça (1º).

Na representação feita à OAB, o professor e sua esposa alegaram que o advogado da vítima estaria vazando detalhes do processo, que está sob sigilo, para a imprensa. “O que se busca é a apuração de circunstâncias objetivas que ultrapassam o exercício ordinário da defesa, especialmente diante da aparente divulgação pública de prints, mensagens, informações, documentos e elementos relacionados a procedimentos que possuíam natureza sigilosa ou acesso restrito, bem como da divulgação de informações pessoais e do endereço residencial do Professor Saulo Tarso Rodrigues e de sua família”, diz trecho.

Eles citam uma matéria escrita por um portal da Capital, onde foi informado que o professor havia sido afastado provisoriamente das salas de aula “e apresenta uma narrativa extensa acerca das acusações formuladas pela estudante”.

“O conteúdo jornalístico afirma, ainda, que determinadas informações teriam sido obtidas pelo veículo 'com exclusividade', circunstância que assume especial relevância para a presente representação, pois exige esclarecimento sobre qual foi a fonte dos documentos e informações que não se encontravam disponíveis publicamente de forma ordinária”, acrescenta o casal.

Na representação, o casal pontua mais de uma vez que quer que seja investigada a origem de prints, mensagens, documentos e demais elementos divulgados pela imprensa. “Como documentos e elementos relacionados a procedimentos de acesso restrito chegaram aos veículos de comunicação?”, questionam.

“É necessário saber: quem tinha acesso aos documentos; quem possuía os prints; quem poderia ter realizado cópias ou capturas de tela; quem poderia ter encaminhado tais elementos aos jornalistas; quem tinha interesse na divulgação; quem efetivamente se beneficiou da exposição pública; e, principalmente, se houve participação direta ou indireta do Representado ou de sua constituinte na disponibilização desses materiais”, diz outro trecho.

Os dois ainda questionam “a quem interessa” a divulgação do material e a possível utilização da imprensa para produção de julgamento público antecipado, já que os fatos ainda são investigados. “A ampla divulgação dos fatos ocorreu quando ainda existiam procedimentos investigativos em andamento. Não havia decisão definitiva sobre as acusações envolvendo a acadêmica. Mesmo assim, a narrativa jornalística apresentou uma extensa exposição pública dos fatos, com reprodução de mensagens, alegações e circunstâncias pessoais”.

“Os representantes reiteram que não pretendem impedir o exercício da advocacia, restringir o direito de defesa ou censurar a liberdade de imprensa. O que se pretende é que seja investigado se houve ultrapassagem dos limites éticos da atuação profissional”, concluem.

O documento foi enviado ao Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-MT e o caso deve ser apurado.

O caso

Conforme publicado anteriormente pelo #rdnews, a vítima relatou à Polícia Civil que a convivência até então estritamente acadêmica teria passado a registrar atitudes impróprias do docente. A aluna alegou que o professor oferecia caronas constantemente, fazia sucessivos convites para sair ou tomar vinho e dispensava a ela um tratamento diferenciado em relação aos demais alunos. 

No episódio mais grave descrito no boletim de ocorrência, o investigado teria sentado ao lado da aluna durante uma aula e tocado a perna dela sem consentimento, por cerca de cinco segundos. Logo em seguida, teria enviado uma mensagem à jovem: “Você fica bem de vermelho”. Em outra ocasião, durante uma palestra, o docente teria colocado a mão na lombar da aluna ao posarem para uma foto, quase atingindo as nádegas. O gesto foi presenciado por colegas de turma, que reagiram ao comportamento do professor e alertaram para a “mão boba”. 

Diante das investidas, a aluna bloqueou o docente no WhatsApp. No entanto, a perseguição teria continuado por outros meios: o investigado teria usado o telefone da própria mãe, de 73 anos, para enviar mensagens, além de fazer abordagens por SMS e redes sociais. De acordo com o histórico do processo, a mulher do docente também chegou a entrar em contato com a jovem após achar o número dela no celular do marido, o que causou ainda mais constrangimento à vítima.

Mesmo após pedidos expressos da aluna para que mantivesse distância e parasse de procurá-la, o investigado teria continuado questionando outros estudantes e líderes de turma sobre a rotina e o paradeiro dela.

Em documento enviado à Corregedoria da UFMT, Saulo negou as acusações e afirmou que a relação com a aluna foi acadêmica, cordial e profissional. Ele questionou a veracidade e a integridade do material digital apresentado pela estudante à polícia, afirmando que não partiu de seu celular qualquer mensagem de teor amoroso.

O Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) acompanha o caso, que tramita sob segredo de Justiça.

Outro lado

Em nota, o advogado Yuri Machado afirmou que ainda não foi intimado de qualquer processo em seu desfavor na OAB/MT, mas que prestará os esclarecimentos devidos tão logo seja intimado.

Já a OAB-MT afirmou que "processos no Tribunal de Ética e Disciplina (TED) tramitam em sigilo e o resultado dos julgamentos ficam disponíveis ao público no site da OAB-MT".