Cuiabá, 22/09/2026

Paccola cita hipocrisia da sociedade e manda recado a PMs: Não se abalem

Vereador atirou e matou agente do sistema socioeducativo na sexta (1º) e se pronunciou sobre o caso em plenário

O vereador tenente-coronel Marcos Paccola (Republicanos) usou a fala a tribuna da Câmara de Cuiabá nesta terça (05), para pedir aos policiais militares que "não se abalem" diante de casos como o dele, que atirou e matou o agente do sistema socioeducativo Alexandre Miyagawa, de 41 anos, na última sexta (1º). O caso ocorreu na última sexta (1º), no Bairro Duque de Caxias na Capital, e tem causado comoção e protesto contra o parlamentar.

"Quero falar com os policiais, porque muitos têm me mandado mensagem: não se abalem, não esmoreçam. Infelizmente, nessa situação, algumas pessoas dizem que não sou policial, não sou vereador. Eu estou vereador, mas eu sou policial, irei morrer policial e serei policial todos os dias", disse.

"Não se abalem com as críticas de pessoas que vão nos julgar por meio de opinião pública, internet, sites de repercussão. Nada é mais sublime do que a nobre missão da segurança: servir e proteger a sociedade mesmo com risco da própria vida", completou.

Aquela arma que você coloca na cintura para proteger a sua vida, quando usada de maneira irresponsável, essa mesma arma que te protege, é a que pode te matar

Vereador Marcos Paccola

Segundo Paccola, os policiais precisam honrar seu juramento de proteger a vida a qualquer custo e, naquele momento, ele pensou que Alexandre poderia atirar contra a companheira dele.

"No momento eu tive três ou cinco segundos de decisão, a partir do momento que ele ergueu a arma por cima da cabeça. Em uma discussão de casal, uma mulher andando de costas e um homem sacando uma arma, sem nenhuma ameaça à frente dele, não tinha qualquer outra possibilidade de interpretação se não de que ele iria executar aquela mulher na frente de todos, motivo pelo qual eu tomei a atitude que tomei naquele momento, dentro do procedimento pelo qual eu fui treinado", disse.

Em um discurso que durou cerca de oito minutos, Paccola lamentou a morte do agente, negou despreparo e chegou a citar um trecho da Bíblia lido a ele pelo colega de Parlamento, Pastor Jeferson (PSD), durante culto ecumênico realizado na Câmara de Cuiabá.

"A fala do Pastor Jeferson me tocou muito, a palavra de João [13:7], que diz que 'você não compreende agora o que Eu estou fazendo a você, porém, mais tarde entenderá'. Não sei porque o designío de Deus fez com que nós estivéssemos naquele dia, naquele momento, naquela hora, para ter aquele resultado", disse.

Ainda no início do discurso, Paccola citou que Alexandre "em determinado momento, por motivo que não sei o qual, decidiu fazer o uso de maneira errônea desse instrumento que nós protegemos o direito de todo cidadão usar", ao citar o momento em que o agente supostamente teria sacado a arma, resultando na reação do vereador.

Em trecho do discurso, ele chegou a fazer alerta aos que possuem porte de arma, afirmando que devem ter condutas compatíveis com aquilo que se espera de um agente de segurança pública.

Nós temos uma regra chamada três, três, três. São três segundos para em três metros executar três disparos para resolver uma situação em que você pode sair vivo ou morto

Vereador Marcos Paccola

"A todos os policiais que trabalham, inclusive aqueles que têm o porte da arma de fogo: aquela arma que você coloca na cintura para proteger a sua vida, quando usada de maneira irresponsável, essa mesma arma que te protege, é a que pode te matar", afirmou.

Policial da reserva, Paccola defendeu que possui preparo para agir em situações como a vivida na última semana, ressaltando que tem registrado 100 mil tiros em treinamento e mais de mil horas de cursos, além de ser formado em operação especiais e táticas e como sniper pela Polícia Federal, sendo fundador do Grupo de Atirador de Precisão do Bope e tendo instruído mais de 2,5 mil pessoas na disciplina de “Sobrevivência Urbana”, que trata do uso da arma por policiais no dia de folga.

"Sociedade hipócrita"

Paccola ainda aproveitou para rebater as críticas que têm recebido desde o episódio, defendendo que seja feita a justiça pelos órgãos competentes, e não pelos "juízes da internet".

"Sou policial 24h e sempre cumpri o meu juramento de servirem proteger e defender a sociedade mesmo com risco da própria vida, sabendo que a mesma sociedade hipócrita, demagoga, que cobra ação, quando você age, é a primeira a julgar", disse.

"Nós temos uma regra chamada três, três, três. São três segundos para em três metros executar três disparos para resolver uma situação em que você pode sair vivo ou morto. E aí você vai ser julgado por ser perito de WhatsApp, juiz de Facebook, promotor de Instagram, pessoas que quando veem uma barata pulam para cima de uma cadeira desesperadas porque não sabem o que fazer. Elas terão a vida inteira para ficar te julgando", criticou.

Protesto e afastamento

Paccola tem sido pressionado a pedir o afastamento do cargo, o que foi reforçado em documento assinado pelo Sindicato de Agentes Socieducativos e entregue ao presidente da Câmara, Juca do Guaraná (MDB), lido na sessão de hoje. O vereador, porém, não falou a respeito de deixar o cargo e saiu do plenário logo após o seu pronunciamento, ficando em seu gabinete com os assessores.

O caso

Paccola justificou o ato que culminou na morte de Alexandre Miyagawa afirmando que o agente do Centro Socioeducativo Pomeri estava armado e envolvido em uma briga com uma mulher.

O parlamentar afirma que agiu em legítima defesa e a favor da mulher ameaçada. Já a namorada da vítima, Janaina Sá, negou a versão do parlamentar por meio de vídeo postado nas suas redes sociais. Ela afirmou que não houve agressão e que Alexandre estava com a arma na cintura e o celular na mão.​

A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar o caso.