Cuiabá, 17/09/2026

Cármen Lúcia pede desculpas ao país e diz estar triste com crise no STF

Ministra afirmou estar profundamente consternada durante sessão sobre as mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou estar em estado de “profunda consternação e tristeza” diante da crise enfrentada pela Corte. A declaração foi feita durante a sessão plenária desta terça-feira (15), convocada para discutir o relatório que aponta a troca de mensagens entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.

“Eu me encontro, como talvez muitos de meus colegas, em estado de profunda consternação e tristeza. Hoje, um dos colegas me perguntava se eu estava contrariada com alguma coisa. Não. Eu disse: estou triste, não apenas pelo tema que nos traz aqui, mas porque este Supremo Tribunal Federal, guarda da Constituição por determinação nela expressa, provocou um mal-estar cívico em todas as cidadãs e cidadãos brasileiros nesses últimos dias”, declarou.

Alejandro Zambrana/STF

 

Cármen Lúcia também pediu desculpas ao povo brasileiro e afirmou que gostaria de ter contribuído para acalmar a crise institucional.

“Eu peço desculpas ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura diferente. Acho que todos nós aqui queríamos a mesma coisa, que era tentar resolver, e as questões não foram resolvidas e foram crescendo demais. Estou pedindo desculpas ao presidente do Supremo, a todos os colegas, mas, principalmente, ao povo brasileiro, porque realmente queria ter sido melhor e poder ter ajudado a acalmar as coisas, e não consegui”, afirmou.

A crise na Corte começou no início de setembro de 2026, após o levantamento do sigilo de relatórios da Polícia Federal elaborados nas investigações sobre fraudes financeiras envolvendo o Banco Master.

Um dos documentos identificou 52 mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes entre dezembro de 2023 e novembro de 2025, quando o empresário foi preso pela primeira vez.

Julgamento suspenso

A sessão desta terça-feira terminou com placar de 4 votos a 3 para manter separadas as análises das condutas de Alexandre de Moraes, na relação com Vorcaro, e de André Mendonça, responsável pela condução do relatório do caso Master.

Presidente do STF e relator da sessão, Edson Fachin votou pela separação dos casos ao analisar uma questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes. Ele foi acompanhado por André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia.

Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes votaram para que os casos fossem analisados conjuntamente.

Flávio Dino havia acompanhado essa corrente, mas mudou o voto e apresentou pedido de vista, suspendendo o julgamento.

Entenda a crise no STF

A crise se intensificou depois que André Mendonça retirou o sigilo de relatórios da Polícia Federal sobre as investigações do Banco Master.

Além das 52 mensagens entre Vorcaro e Moraes, os documentos apontaram encontros presenciais entre os dois e um contrato de R$ 130 milhões firmado pelo banco com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

A divulgação provocou um confronto entre Moraes e Mendonça, relator das investigações do caso Master. Moraes acusou o colega de liberar os autos de forma “seletiva” e omitir documentos.

Mendonça negou a acusação e afirmou que manteve sob sigilo apenas informações necessárias para preservar investigações em andamento e dados de terceiros.

A disputa também envolveu o acesso às provas extraídas do celular de Vorcaro. Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes solicitaram acesso integral ao material.

Após determinação de Zanin, a PF confirmou, na segunda-feira (14), que entregou cópias do acervo digital aos três gabinetes. A Procuradoria-Geral da República (PGR) também se manifestou favoravelmente à ampliação do acesso aos documentos.

Diante do conflito, Fachin decidiu separar os processos. O caso envolvendo as mensagens entre Vorcaro e Moraes começou a ser analisado nesta terça, enquanto as acusações de Moraes contra Mendonça ficaram para 23 de setembro.