Com túneis alagados, motoristas ilhados e morte, caos expõe fragilidade de SP diante do temporal
Imagens nas redes mostravam dezenas de veículos enfileirados, parcialmente afundados, e pessoas refugiadas sobre os capôs
Em poucos minutos, o temporal que atingiu São Paulo ontem transformou ruas e túneis em rios, arrastou carros e deixou motoristas ilhados sobre os próprios veículos. A chuva, que começou por volta das 16h30, expôs novamente a vulnerabilidade da cidade diante de precipitações intensas: no túnel do Anhangabaú, no Centro, dezenas de automóveis ficaram semissubmersos, enquanto outros pontos registravam alagamentos, interrupções no trânsito e falta de energia. Na Zona Norte, um deslizamento sobre uma residência deixou um morto.
O túnel do Anhangabaú, oficialmente chamado João Paulo II, é uma espécie de “ponto central” de São Paulo — ele passa sob o vale de mesmo nome, que divide ao meio o centro da cidade, e também liga as avenidas Tiradentes e Nove de Julho, que seguem para as zonas Norte e Sul. Os alagamentos ali eram frequentes até o início dos anos 2000, quando a capital paulista passou a receber uma série de “piscinões” para conter as cheias repentinas.
Reprodução/TV Globo
Ontem, imagens nas redes mostravam dezenas de veículos enfileirados, parcialmente submersos, e pessoas refugiadas sobre os capôs. Quando o nível baixou, alguns automóveis estavam empilhados uns sobre os outros. O Terminal Bandeira e o túnel Ayrton Senna também alagaram.
Os bombeiros foram acionados para resgatar duas vítimas no local. Até o fechamento desta edição, não havia informações sobre elas. Em um vídeo que circulou em um grupo de mensagens de taxistas, um motorista relatava a situação de dentro do túnel:
— Pessoal, perdi meu carro hoje no Vale do Anhangabaú. Evitem a região — afirmou. — Estou em cima do carro, com o passageiro ainda.
Intransitável
O Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) da prefeitura registrou ao menos outros nove pontos de alagamento na capital, quatro deles intransitáveis. No Centro, a água tomou áreas sob o elevado Nove de Julho e a Rua do Glicério. Na Zona Sul, onde houve granizo, o trânsito foi interrompido em duas importantes avenidas.
Os bombeiros receberam, durante a tarde, sete chamados para quedas de árvores, dois para desabamentos e 14 para enchentes. A Enel, distribuidora de energia na capital e na Região Metropolitana, registrou interrupção no fornecimento em mais de 40 mil imóveis no auge do temporal.
Em nota, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) atribuiu a formação das áreas de instabilidade à combinação de calor e maior disponibilidade de umidade na atmosfera. A entrada da brisa marítima teria contribuído para formar as nuvens que provocaram as pancadas de chuva.
A previsão para hoje ainda indicava chuva moderada a forte e potencial para novos alagamentos. De acordo com o CGE, o tempo permaneceria instável, com curtos períodos de melhora ao longo do dia.
Amanhã, a passagem de uma frente fria ao largo do litoral paulista deve manter o céu encoberto e o tempo chuvoso, principalmente à tarde. Com o solo encharcado, aumenta o potencial para alagamentos e deslizamentos em áreas de risco.
Obras atrasadas
O alagamento do túnel do Anhangabaú expõe o atraso nas obras de recuperação. Contratados por R$ 6 milhões em dezembro de 2025, os serviços tinham entrega prevista para 31 de maio. Em 2024, a prefeitura havia identificado fissuras, infiltrações, tubulação rompida e problemas na captação de água da chuva, entre outras falhas.
Em julho, o Consórcio Hidropav-Protende pediu mais três meses, alegando interferência de manutenção emergencial da rede elétrica. A prefeitura autorizou a prorrogação, e o contrato subiu para R$ 9 milhões. O prazo de 30 de setembro também não foi cumprido. O consórcio pediu novo adiamento, até janeiro de 2027, ainda sem resposta do município. A empresa municipal SPObras afirmou, em nota, que “as obras no Túnel Anhangabaú iniciadas em dezembro de 2025 não têm qualquer relação com o sistema de drenagem do local”.