Cuiabá, 15/10/2026

Lula defende redução da maioridade penal, pede investigação no STF e se responsabiliza por dificuldades

Entrevista faz parte da cobertura do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, que terá também conversa com Flávio Bolsonaro e debate entre os candidatos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quinta-feira (15) em entrevista à TV Globo ser favorável à redução da maioridade penal no caso de crimes hediondos. Atualmente, a maioridade é de 18 anos, e Lula defendeu que ela caia para 16 anos em algumas situações. 

"Acho que a sociedade brasileira inteira é favorável à punição de qualquer crime hediondo", disse. 

Manuella Mello/Globo

Lula foi questionado ainda sobre suspeitas de envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro, dono do Master e atualmente preso. O presidente defendeu que os ministros citados sejam investigados. 

“Nem os ministros da Suprema Corte estão isentos de passar para a sociedade a ideia de ética, a ideia de probidade. Ou seja, não é possível que apareçam na Suprema Corte tantas denúncias. A sociedade brasileira precisa que isso seja apurado. Eu já conversei três vezes com o presidente [do STF, Edson] Fachin, dizendo que é importante que ele, enquanto for presidente, faça a apuração que tiver que fazer e que julgue”. 

Lula tenta a reeleição em disputa no segundo turno. A entrevista, conduzida pela jornalista Renata Lo Prete, faz parte da cobertura do segundo turno das Eleições 2026.

Assista a entrevista aqui.

O que Lula disse na entrevista à Globo

  • Redução da maioridade penal: Lula defendeu reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal em casos de crimes hediondos.

  • Investigação de ministros do STF: Lula defendeu a apuração de denúncias contra ministros do Supremo e disse ter cobrado providências do presidente da Corte, Edson Fachin, três vezes.

  • Responsabilidade pelo governo: Lula assumiu a responsabilidade pelas dificuldades e pela rejeição à gestão, afirmando que não pode transferir a culpa a outras pessoas.

  • Facções como terroristas: Lula rejeitou a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA e afirmou ter proposto parceria ao governo Trump no combate ao crime organizado.

  • Segurança pública: Lula defendeu ampliar a atuação do governo federal no combate ao crime organizado por meio da PEC da Segurança Pública.

  • Relação com os EUA: Lula disse que prefere negociar com Trump, mas diz que pode retaliar os EUA caso não haja acordo sobre as tarifas.

Confira os principais temas da entrevista de Lula à Globo

Maioridade penal

Lula se declarou favorável à redução da maioridade penal para 16 anos no caso de crimes hediondos. “Acho que a sociedade brasileira inteira é favorável à punição de qualquer crime hediondo”, disse.

O presidente havia sido questionado sobre uma emenda feita pelo líder do PT no Senado, Camilo Santana, para a votação da PEC da Segurança Pública. Lula defendeu que a redução da maioridade penal seja discutida de forma separada à proposta de emenda.

“A PEC não estava discutindo isso [redução da maioridade penal]. O PL tentou apresentar uma proposta reduzindo para 14 anos, e aí o Camilo apresentou a proposta para 16", disse Lula. “Primeiro você discute a PEC, aprova a PEC, e aí você pode discutir a maioridade penal ou não.”

STF e Master

O presidente foi questionado sobre suspeitas de envolvimento de ministros do STF com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master, que está preso.

Lula afirmou que Moraes "era o mais implicado" com Vorcaro quando o caso foi debatido em uma sessão do Supremo em setembro e citou relações de outros magistrados com o ex-banqueiro.

"O [Dias] Toffoli também está implicado, o André Mendonça também está implicado e o Kássio [Nunes Marques] está implicado. Agora está todo mundo implicado", disse Lula.

Lula defendeu a investigação de todos os envolvidos no Caso Master, incluindo ministros do STF, e disse que "não é possível imaginar que a sociedade brasileira vai aceitar que não seja apurado tudo e sobre tudo e que não fique pedra sobre pedra e se puna quem precisar punir".

O presidente afirmou que o país precisa aproveitar as revelações do caso Master para estabelecer regras éticas mais rígidas no Judiciário. Segundo ele, os episódios envolvendo ministros do Supremo deveriam servir para “moralizar muitas coisas no país”.

Lula defendeu a criação de regras de conduta mais rigorosas para integrantes da Corte. “Quem quiser ser rico não pode ser ministro da Suprema Corte”, disse.

Relação com os EUA

O presidente Lula (PT) afirmou que poderá adotar medidas de reciprocidade comercial contra os Estados Unidos caso não consiga chegar a um acordo com o governo de Donald Trump sobre as tarifas impostas aos produtos brasileiros.

“Não quero fazer. Eu quero continuar negociando, mas se for necessário fazer, nós vamos fazer”, disse.

Lula afirmou que, apesar das tensões iniciais com o governo americano e dos tarifaços aplicados ao Brasil em 2025 e 2026, conseguiu estabelecer uma relação civilizada com Trump e que os dois já tiveram três conversas.

Segundo Lula, representantes dos dois governos continuaram negociando, e ele acredita que será possível chegar a um acordo.

O presidente destacou que o Brasil ampliou suas relações comerciais com outros países, apesar da queda de 9% no comércio com os Estados Unidos.

Responsabilidade por rejeição

Lula assumiu a responsabilidade por dificuldades enfrentadas pelo seu governo. Questionado sobre o que teria feito de maneira diferente, o presidente afirmou que não poderia atribuir a culpa a outras pessoas.

“Se eu não conseguir ser compreendido pela sociedade brasileira sobre o que o governo faz, eu não posso ficar jogando a culpa em ninguém. Eu tenho que jogar a culpa em mim”, disse. 

Lula avaliou que parte das dificuldades enfrentadas por sua gestão esteve relacionada à situação em que encontrou o país ao assumir a Presidência, depois do governo de Jair Bolsonaro (PL). O presidente afirmou que precisou dedicar os primeiros dois anos à recuperação do país e citou o que classificou como desmonte de dez ministérios. 

“Eu só lamento que eu não tenha tido a capacidade de fazer o povo compreender as coisas que eu fiz, porque foram muitas coisas”, afirmou. 

Governabilidade e Congresso Nacional

Outro assunto abordado foi a governabilidade de um eventual próximo mandato do PT diante do novo Congresso: o PL elegeu 121 deputados federais e 19 senadores.

O presidente focou sua resposta nos números da esquerda, afirmando que, para o seu governo atual, foi eleito com 70 deputados e 9 senadores. Segundo ele, com essa composição, conseguiu aprovar “99% de tudo” que fizeram no Congresso, incluindo a reforma tributária.

Lula também disse que, com exceção do PL, todos os partidos participaram do seu governo. “Tivemos uma grande participação das pessoas no governo. É por isso que nós conseguimos aprovar tudo. E se não for assim, você não governa o país”, disse.

Flávio Bolsonaro será entrevistado nesta sexta (16)

Lula abre a série de entrevistas da Globo com os candidatos que disputam a Presidência neste segundo turno das eleições. A ordem das entrevistas foi definida por sorteio em reunião com representantes das campanhas.

O candidato Flávio Bolsonaro (PL), que também disputa o segundo turno da eleição presidencial, será entrevistado na sexta-feira (16), também por Renata Lo Prete.

Quando será o debate presidencial da Globo?

No dia 23 de outubro, a TV Globo realizará o último debate entre os candidatos à Presidência da República no segundo turno das Eleições 2026.

Foram convidados Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O encontro será realizado nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, e mediado pelo jornalista César Tralli.

O debate será transmitido ao vivo pela TV Globo, com exibição simultânea pela GloboNews e pelo g1, logo após o Jornal Nacional.