Cuiabá, 22/09/2026

Lula faz último discurso do mandato na ONU nesta terça. Saiba o que esperar

Às vésperas da eleição, presidente deve defender soberania brasileira em meio a tensões com os EUA e tentativas de interferência no pleito

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre os trabalhos da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York (EUA), nesta terça-feira (22/9). No discurso, o líder brasileiro deve abordar os principais desafios da política externa, além de destacar a defesa da democracia e da soberania brasileira a menos de duas semanas do 1º turno das eleições.

Tradicionalmente, o representante brasileiro é o primeiro chefe de Estado a discursar na tribuna da ONU. Logo depois, fala o anfitrião, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A sequência é uma das marcas do evento e coloca, no mesmo palco, diferentes visões sobre os principais temas da agenda internacional.

Ricardo Stuckert

Esta será a 10ª participação de Lula no encontro, que reúne os 193 países-membros da ONU, e o último discurso do atual mandato. Nesta 81ª edição, o tema é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: Uma ONU que apresenta resultados para todos”. A expectativa é de que a fala do presidente brasileiro dure cerca de 20 minutos, um pouco acima dos 18 minutos do discurso do ano passado.

Segundo auxiliares, Lula deve abordar a defesa do multilateralismo, da soberania e da democracia, além de tratar do processo eleitoral brasileiro em um contexto de acusações e suspeitas de interferência estrangeira.

Nessa segunda-feira (21/9), em entrevista à CNN Internacional, Lula afirmou estar “um pouco preocupado” com a atuação do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e com uma possível interferência dele nas eleições brasileiras. Segundo o petista, a preocupação se deve ao fato de Rubio ser “muito próximo” da família Bolsonaro.

O presidente ressaltou, porém, que, até o momento, há apenas suspeitas sobre essa possibilidade, mas citou, sem apresentar mais detalhes, possíveis indícios de interferência norte-americana nas eleições por meio do uso de inteligência artificial.

Lula também voltou a dizer que pediu diretamente a Trump que o país não interfira no processo eleitoral brasileiro. “Ele [Trump] já disse a muitas pessoas que não interferirá nas eleições brasileiras. E é bom que ele tenha dito isso. É bom que ele aja assim. Esse é o papel que espero de um presidente”, relatou. O brasileiro também voltou a dizer que o norte-americano age como “imperador”.

Na semana passada, veio a público a informação de que o governo dos EUA apresentou a negociadores brasileiros um documento no qual pedia que “dissidentes políticos” do Brasil não fossem presos, detidos ou impedidos de participar do pleito deste ano. A proposta foi apresentada durante as negociações sobre o tarifaço e imediatamente rejeitada pela gestão Lula.

Além disso, a Casa Branca divulgou, na quarta-feira passada (16/9), outro documento no qual acusa o Brasil de falhar no combate às facções criminosas PCC e Comando Vermelho. Para o governo brasileiro, a medida foi interpretada como mais uma tentativa de politizar o debate sobre o combate ao crime organizado.

Os episódios se somam a uma sequência de atritos que elevaram a preocupação no Palácio do Planalto com possíveis tentativas de interferência no processo eleitoral brasileiro.

Apesar do cenário, a aposta é que Lula não deve fazer menções diretas aos Estados Unidos ou a qualquer chefe de Estado ao tratar do tema na ONU. A avaliação é que o presidente passará o recado de maneira polida, mas firme, em linha semelhante ao discurso no ano passado.

Mesmo que não seja o tema central do discurso, a defesa da integridade do processo eleitoral brasileiro é vista como necessária diante dos crescentes “ataques” à democracia ao redor do mundo.

Críticas ao Conselho de Segurança

O discurso de Lula também deve marcar posição sobre temas centrais da agenda internacional, como os conflitos globais e os desafios do multilateralismo, incluindo questões relacionadas ao meio ambiente, às mudanças climáticas, aos direitos humanos e ao comércio.

Defensor da reforma do Conselho de Segurança da ONU, o presidente também deve cobrar mudanças na composição do órgão para torná-lo mais representativo e efetivo diante dos conflitos em curso.

Nessa segunda-feira, Lula subiu o tom contra o colegiado, formado por China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia. Ele afirmou que a ONU “está desacreditada” e perdeu capacidade de solucionar conflitos.

“O que os líderes estão fazendo? Nada. Eles não estão fazendo nada. Permanecem calados, em silêncio, apenas esperando e observando a confusão se desenrolar”, criticou.

Além dos cinco membros permanentes, o Conselho de Segurança é composto por outros 10 integrantes rotativos, eleitos para mandatos de dois anos e que também participam das decisões. Apenas os cinco membros permanentes, contudo, têm poder de veto.

Lula defende que a falta de representatividade no Conselho beneficia seus membros, que votam de acordo com os próprios interesses. Na avaliação do petista e de integrantes do governo brasileiro, o atual modelo não é capaz de evitar guerras nem de solucionar conflitos. Nesse sentido, o Brasil pleiteia, desde a criação da ONU, um assento permanente no colegiado, além da inclusão de um representante africano.

Encontros com aliados nos EUA

Nessa segunda-feira (21/9), Lula teve três reuniões com aliados internacionais em Nova York.

De manhã, o petista teve um encontro bilateral com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi. Na ocasião, Lula anunciou que o país vizinho cedeu ao Brasil parte da cota de exportação de carne bovina que seria encaminhada ao mercado chinês.

Em seguida, o titular do Planalto se reuniu com o prefeito de Nova York (EUA), Zohran Mamdani. Os dois conversaram sobre defesa da democracia, enfrentamento ao extremismo na política e políticas públicas de inclusão social.

À noite, Lula se encontrou com o senador dos EUA, Bernie Sanders.

Reunião com Trump é descartada

Como mostrou o Metrópoles, Lula não deve se reunir com Trump antes da abertura da Assembleia Geral. Até a última atualização, segundo fontes do Palácio do Planalto, não havia pedido de reunião bilateral por parte dos governos brasileiro ou norte-americano.

A expectativa, no entanto, é que os dois líderes conversem informalmente, como ocorreu na edição do evento no ano passado.

Em 2025, os chefes de Estado tiveram um breve encontro nos bastidores do evento. Na ocasião, o norte-americano declarou que teve “excelente química” com o brasileiro. Depois disso, os líderes tiveram uma série de reuniões e telefonemas que contribuíram para uma aproximação na relação entre os dois países.

A agenda do presidente brasileiro em solo norte-americano será breve. A previsão é que Lula embarque de volta ao Brasil no início da tarde desta terça-feira, logo após o discurso. Antes da abertura e da fala na ONU, marcada para 10h (horário de Brasília), o presidente deve se reunir apenas com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

A viagem foi planejada para ser curta em razão do período eleitoral. Além de fazer um gesto de respeito ao pleito, Lula tem atos de campanha programados para os dias seguintes.