Cuiabá, 16/10/2026

6,7 mil servidores têm mais de 60% da renda comprometida por consignados

Mesa técnica instalada no TCE debate situação preocupante de servidores e foi motivada após a abertura de uma investigação de possíveis fraudes de empresas consignatárias conveniadas ao Estado

Cerca de 37 mil servidores ativos do Governo de Mato Grosso possuem empréstimos consignados na folha de pagamento. Ao todo, incluindo ativos e aposentados, o número de servidores que possuem consignados chega a 62.135. Desse total, mais de 6,5 mil estão com mais de 60% da renda comprometida pelos supostos empréstimos - veja quadro.

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Os dados fornecidos pela Secretaria de Estado e Planejamento e Gestão (Seplag) foram apresentados durante a reunião de instalação da mesa técnica do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), que debate o superendividamento do funcionalismo público estadual.

Conforme as informações repassadas, cada servidor possui, em média, cinco empréstimos, os quais têm comprometido a remuneração e provocado endividamento na classe.

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A reunião da mesa técnica desta segunda-feira (26) foi motivada após a abertura de uma investigação de possíveis fraudes de empresas consignatárias conveniadas ao Estado, em relação a créditos e valores consignados aos servidores ativos e inativos. 

Uma das empresas alvo é a Capital Consig, que foi denunciada por servidores em setembro de 2024 por descontos injustos, já que não tinham contratado empréstimos. Desde então, as operações com a instituição foram suspensas. 

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Aposentada da Secretaria de Educação (Seduc-MT), a professora Adélia de Almeida relatou que questionou descontos em seu holerite em 2022. No entanto, teve a surpresa de que se tratava de um cartão de crédito que nunca contratou. Atualmente, ela não consegue cancelar, mesmo com registro de boletim de ocorrência e reclamação no Procon. 

“Eu não contratei e estou reclamando exatamente disso. A princípio, me colocaram que todos tinham o cartão, mas eu não tenho cartão e está descontando”, contou a servidora. 

Gabriel Rodrigues

Professora Adélia de Almeida

Após a apresentação dos dados da Seplag, os deputados estaduais se manifestaram favoráveis à defesa dos servidores e, consequentemente, do ressarcimento. A deputada Janaina Riva (MDB) argumentou que o maior desconforto é com a Capital Consig e defende que seja empregada uma força-tarefa para bloqueio de valores do banco. 

“Para que ocorra a segurança do devido processo legal, porque é um banco jovem. Nós tememos que, ainda mais depois das suspensões que foram realizadas para contrair novos consignados, daqui a pouco decretem falência e sumam com o dinheiro. É 'daqui pra ali'”, argumentou a parlamentar. 

Os deputados Paulo Araújo (PP), Wilson Santos (PSD), Henrique Lopes (PT), Eduardo Botelho (União Brasil) e Lúdio Cabral (PT) também defenderam a investigação da Capital Consig. Wilson ainda aventou a possibilidade de envolvimento da empresa com o crime organizado. 

“Há suspeitas de que este Capital Consig seja um braço de alguma facção criminosa de São Paulo. Há fumaça em relação a isso, porque o crime organizado tem lavado dinheiro em vários setores da economia nacional”, destacou o deputado.

Criação da mesa técnica

A sugestão de instalação de uma mesa técnica foi apresentada pelo vice-presidente do TCE, conselheiro Guilherme Maluf, após uma série de denúncias de supostas irregularidades na cobrança de empréstimos consignados. A ideia da mesa técnica é buscar uma solução consensual para a o problema. 

Ao propor a mesa técnica, Maluf destacou que o Estado só pode descontar até 35% do salário para cobrir as parcelas contratadas e que as denúncias incluem descumprimento dessa norma prevista na legislação, além da existência de contratos sem assinatura e ausência de canais formais de reclamação. Ele também chamou atenção para a oferta agressiva de crédito por parte das financeiras.

“São quase 40 instituições ofertando crédito e o servidor muitas vezes não sabe nem quanto deve, quando contratou ou qual foi a taxa de juros. A pessoa endividada perde o controle da vida financeira, não sabe mais para onde recorrer, entra em desespero”, afirmou, na ocasião.

 O Governo determinou a criação de uma força-tarefa para apurar as situações denunciadas por servidores. Já na Assembleia, deputados cobram informações do Executivo e tramita um decreto legislativo, proposto pelo deputado estadual Wilson Santos, que busca sustar os efeitos do convênio 030/2022, suspeito de descontos indevidos nos empréstimos consignados de servidores públicos estaduais de Mato Grosso.