Sem chapa, MDB de MT ficará fora da Câmara pela 1ª vez em 32 anos
Cientista política aponta perda de lideranças, dificuldades de articulação e concentração de estratégias eleitorais
Em fevereiro de 2027, o MDB de Mato Grosso viverá um momento histórico. Pela primeira vez em 32 anos, a sigla não terá um representante do Estado na bancada federal. O dado é ainda mais significativo quando se observa que, desde a divisão que resultou na criação de Mato Grosso do Sul, em 1977, esta será apenas a segunda legislatura em que o partido ficará sem um deputado federal mato-grossense. A primeira ocorreu entre 1991 e 1994. Dados da Justiça Eleitoral apontam que a legenda é a terceira em número de filiados no Estado.
Na avaliação da cientista política Christiany Fonseca, o fato, mais do que uma simples derrota eleitoral, sintetiza um processo que inclui a saída de lideranças, a dificuldade de atrair novos quadros para a composição de chapas e a concentração das estratégias eleitorais em projetos individuais.
Bruno Spada / Câmara dos Deputados
“O dado mais significativo não é simplesmente o partido ter perdido duas cadeiras federais, mas ter chegado às eleições de 2026 sem apresentar candidatos para disputá-las”, ressalta.
Para a disputa deste ano, o MDB não lançou chapa de candidatos a deputado federal, mesmo após as saídas de Emanuel Pinheiro Neto, que migrou para o PSD, e Juarez Costa, que se filiou ao Republicanos. O partido chegou a definir nomes para disputar as oito vagas de Mato Grosso na Câmara dos Deputados. A lista incluía políticos como os ex-prefeitos de Várzea Grande, Kalil Baracat, e de Sinop, Rosana Martinelli. Entretanto, a direção optou por concentrar os recursos financeiros na chapa de deputados estaduais e na candidatura ao Senado da presidente estadual da sigla, a deputada Janaina Riva, que terminou a disputa em terceiro lugar.
A decisão, justificada pelo MDB como uma tentativa de trilhar um “caminho mais consistente para ampliar sua representatividade e sustentar o crescimento nos próximos anos”, não produziu o resultado esperado. Além da derrota de Janaina, o partido reduziu sua representação na Assembleia Legislativa, passando de quatro parlamentares eleitos em 2022 para três em 2026.
“A projeção de uma liderança não se converte automaticamente em fortalecimento institucional. Quando a estratégia de um partido passa a gravitar em torno de uma candidatura majoritária, existe o risco de que outras dimensões de sua organização, especialmente a construção das chapas proporcionais, recebam menor centralidade”, avalia Christiany.
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Para a cinetista política Christiany Fonseca, resultado é explicado pela junção de vários fatores
Embora integrantes do partido atribuam, reservadamente, parte do encolhimento à condução de Janaina, que assumiu o comando após três décadas de domínio do ex-senador, ex-governador e ex-deputado federal Carlos Bezerra, a cientista política pondera que o processo de enfraquecimento não começou com a atual presidente.
“Não seria correto atribuir exclusivamente a Janaina um processo de enfraquecimento que apresenta antecedentes históricos. Entretanto, também não se pode desconsiderar que a condução de uma legenda exige conciliar a viabilização de projetos individuais com a preservação de sua representação coletiva”, salienta.
História
Fundado em 1966, durante a ditadura militar, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) surgiu como partido de oposição à Aliança Renovadora Nacional (Arena), legenda que representava a sustentação política do regime. Ao longo dos anos, tornou-se uma das principais vias institucionais de manifestação da oposição, reunindo lideranças de diferentes correntes políticas.
Na década de 1970, especialmente com o início da abertura política durante o governo do general Ernesto Geisel, a legenda ampliou sua presença no Congresso Nacional. Em 1979, com o fim do bipartidarismo, o MDB passou a se chamar Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
A sigla teve participação de destaque no movimento Diretas Já e na Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição de 1988. Em 2017, resgatou sua denominação histórica e voltou a se chamar MDB.
Deputados mato-grossenses
Na primeira eleição para deputado federal após a divisão de Mato Grosso, em 1978, o MDB elegeu dois representantes: Gilson de Barros e Carlos Bezerra. Com o avanço do processo de redemocratização, o partido ampliou sua presença e conquistou quatro das oito cadeiras do Estado em 1982, com a reeleição de Gilson e a eleição de Dante de Oliveira, Márcio Lacerda e Milton Figueiredo.
Em 1986, já no período de transição democrática, a legenda ampliou sua bancada para cinco deputados federais: Osvaldo Sobrinho, Joaquim Sucena, Antero Paes de Barros, Rodrigues Palma e Percival Muniz.
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Nas eleições de 1990, o partido experimentou sua primeira grande derrota na disputa legislativa federal e ficou sem representantes. José Lacerda foi o candidato mais votado da legenda, com pouco mais de 21 mil votos.
O MDB voltou à bancada federal mato-grossense nas eleições de 1994, com a eleição de Tetê Bezerra, esposa de Carlos Bezerra, que tomou posse em fevereiro de 1995. Em 1998, a legenda voltou a ampliar sua representação, com a eleição de Tetê e do professor Wilson Santos, que posteriormente seria prefeito de Cuiabá por dois mandatos.
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Em 2002, Rogério Silva foi o único deputado federal eleito pelo PMDB em Mato Grosso. Tetê Bezerra ficou na suplência e retornou à Câmara em janeiro de 2004, após a saída de Rogério.
Em 2006, Carlos Bezerra conquistou uma das vagas e voltou a ser o único representante da legenda na bancada federal, condição que manteve até as eleições de 2018, quando ganhou a companhia de Emanuel Pinheiro Neto e Juarez Costa. Em 2022, a bancada voltou a encolher, com a derrota de Bezerra e a reeleição de Emanuelzinho e Juarez.
Futuro
O encerramento do processo eleitoral exige uma reflexão sobre os rumos da legenda, avalia Christiany. Para ela, o MDB ficou comprimido entre a esquerda e o bolsonarismo, que protagonizaram a disputa política em Mato Grosso, sem conseguir consolidar sua presença em nenhum dos dois campos.
A situação evidencia um dilema comum aos partidos de centro: a aproximação com um dos polos não assegura necessariamente a adesão daquele eleitorado e, ao mesmo tempo, pode reduzir a capacidade de interlocução com os segmentos situados no campo oposto. É uma avaliação que também encontra respaldo na leitura do deputado estadual Eduardo Botelho (MDB), derrotado nas urnas, sobre as dificuldades da legenda em conquistar eleitores dos dois lados da polarização.
Assessoria
Deputada estadual de 3 mandatos, Janaina Riva é a atual presidente do MDB em Mato Grosso
Na avaliação da cientista política, a questão central agora é definir qual projeto partidário será reconstruído, algo que vai além de uma eventual troca de comando.
“A recuperação institucional exige reconstruir as bases municipais, fortalecer a militância, ampliar a participação das lideranças regionais e estabelecer critérios mais consistentes para a formação de chapas. Também será necessário discutir a identidade política da legenda e sua capacidade de construir alianças sem depender exclusivamente da força eleitoral de outros partidos”, conclui.