Desestruturou nossa família e segue a vida normalmente, diz família de PM morto por policial civil em Cuiabá
Júri já foi adiado por quatro vezes; família relata o sofrimento por ter que reviver o momento de dor a cada decisão proteladora da Justiça
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Com o julgamento do policial civil Mario Wilson Vieira da Silva Gonçalves - flagrado por imagens de segurança, matando o policial militar Thiago de Souza Ruiz a tiros, em uma conveniência, em Cuiabá, no ano de 2023 - previsto para esta segunda-feira (15), a família do militar busca justiça após passar pela frustração de quatro adiamentos da possível sentença do Tribunal do Júri.
Em entrevista ao #rdnews, a prima de Thiago, Fabiana Nunes Ruiz Silva, relata o sofrimento constante da família, que precisou e ainda precisa reviver os momentos de dor a cada protelação do julgamento. Segundo ela, a sensação é de injustiça e favorecimento a uma das partes.
“Ele [Mario] acabou com toda a estrutura familiar: deixou uma mãe sem filho, uma filha sem pai e uma mulher sem marido. Deixou toda uma família desestruturada. E a vida do Mario seguiu normal. Ele continua no mesmo trabalho ”
Fabiana Nunes Ruiz Silva“A gente não entende de que lado a Justiça está: se é pra fazer o que é certo ou se está protegendo alguém. Eu não entendo o que acontece, se há brecha na Justiça pra cada vez adiar, adiar, adiar. Cada vez é uma desculpa: ‘Ah, é advogado que troca’ ou ‘Ah, é isso, é aquilo’. Mas e aí? E o nosso lado? Quem que está vendo o nosso lado? Aonde que a Justiça está pensando? Será que é lado de um só ou será que ela está pensando em ambas partes? Então, fica essa indignação”, desabafa Fabiana.
Fabiana destaca também o sofrimento da viúva de Thiago, que atravessa um período depressivo desde a perda do marido. Segundo ela, a prima, que também é policial civil, perdeu peso e já não consegue trabalhar. Após a determinação judicial que levou à liberdade de Mario, a viúva chegou a encontrar o policial civil em um supermercado, “vivendo a vida normalmente”.
“Ela está muito, muito mal mesmo. Ele [Mario] acabou com toda a estrutura familiar: deixou uma mãe sem filho, uma filha sem pai e uma mulher sem marido. Deixou toda uma família desestruturada. E a vida do Mario seguiu normal. Ele continua no mesmo trabalho. Ele é um covarde. Ele matou o meu primo, atirou nele pelas costas. Então, por que uma pessoa dessa ainda está vivendo normalmente em sociedade? Então, é difícil pra ela [esposa]”, destaca.
Fabiana fala sobre o próprio medo, caso encontrasse Mario. Ela, que é servidora pública e mora em São Pedro da Cipa (a 153 km de Cuiabá), destaca que precisa vir à Capital com certa frequência, devido ao trabalho. “Eu tenho muito medo de encontrar ele, pra falar a verdade. Muito, muito, muito medo mesmo. Porque eu não sei que reação eu teria, entendeu? Eu não quero encontrar ele na minha frente ou na rua. Não quero, não quero mesmo”, afirma.
Sobre a filha de Thiago, agora com 13 anos, Fabiana ressalta que a adolescente não gosta nem de ouvir falar sobre o julgamento, para evitar uma nova frustração. “Fala de julgamento, desmarca o julgamento. Fala de julgamento, desmarca o julgamento. Nossa família é uma só, então, a dor é muito grande. Você perder alguém que ama muito e nada a ser feito”, lamenta.
Ato antes do julgamento
Neste domingo (14), um dia antes do julgamento, a família de Thiago realizará uma vigília de oração, na Praça 8 de Abril - que fica em frente ao local onde o crime ocorreu -, às 17 horas, em memória ao militar.
“Eu e mais alguns familiares vamos um dia antes. Pra gente poder demonstrar um pouquinho dessa dor que a gente sente. Porque pra família não existe um esquecimento. Se a Justiça esqueceu ou se alguém esqueceu ou acha que está tudo resolvido, para nós ainda não está. Porque a dor vai ser eterna. Então, a gente nunca vai esquecer. Pode passar o tempo que for, a dor vai continuar aqui, por tudo que aconteceu aquele dia”, diz Fabiana.
Emocionada, ela lembra do primo que estava sempre sorrindo, era carinhoso e muito cuidadoso com a família.
“Nossa família é uma só, então, a dor é muito grande. Você perder alguém que ama muito e nada a ser feito”
Fabiana Nunes Ruiz Silva“Lembrar do Thiago é lembrar dele sorrindo o tempo todo. Aquela pessoa carinhosa, que fazia graça por tudo. É muito difícil lembrar dele. A saudade cada vez aumenta. Saber que nunca mais você vai ter contato com essa pessoa, ouvir aquelas gargalhadas que estrondavam aonde você estivesse. Não existia tristeza, porque ele era o tempo todo muito alegre. Muito protetor. Muito cuidadoso. Quando a gente saia ele falava: ‘Não passa por determinado lugar. Tenha cuidado com esse local’. Ele era aquela pessoa que tinha preocupação com a gente. Que queria o bem da gente. Então, é muito difícil”, recorda.
O caso
O crime aconteceu na madrugada do dia 27 de abril de 2023, no interior da conveniência de um posto de combustível, em Cuiabá. Imagens das câmeras de segurança do estabelecimento mostram Mario e Thiago sentados na mesma mesa, ingerindo bebida alcoólica.
Em depoimento, uma funcionária da conveniência afirmou que os policiais estariam se desentendendo antes do crime. Em um determinado momento, Thiago levantou a camiseta, momento em que Mario pega a arma de fogo do militar e aponta contra Thiago. Na sequência, os dois iniciam uma luta corporal e o policial civil atira contra Thiago, depois é visto correndo para fora da conveniência.
Mario foi preso em flagrante e, durante audiência de custódia no dia 28 de abril, a Justiça converteu a prisão para preventiva.
Em setembro do mesmo ano, o desembargador Rui Ramos, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), concedeu liberdade a Mario, suspendendo o porte de arma e proibindo que ele se aproximasse das testemunhas do caso.