Cuiabá, 10/10/2026

Dona de berçário teria esfregado fezes no rosto de crianças, afirma Polícia Civil

Casal foi indiciado por maus-tratos e tortura contra 8 crianças; local cobrava até R$ 948 por criança

O casal proprietário de um berçário e hotel infantil no Centro de Sorriso (a 397 km de Cuiabá) foi indiciado pela Polícia Civil pelos crimes de tortura e castigo, ameaça, maus-tratos e omissão perante a tortura. O inquérito policial foi concluído e encaminhado nesta segunda-feira (24) ao Poder Judiciário. Ambos seguem presos preventivamente em unidades prisionais da região Norte do estado.

A investigação apurou denúncias contra oito crianças com idades entre zero e cinco anos, faixa etária atendida pelo berçário. O estabelecimento cobrava valores de até R$ 948 por criança. 

Entre as agressões narradas por nove ex-funcionárias do estabelecimento há relatos de tapas nas nádegas e na boca, mordidas, puxões, golpes com raquetes, empurrões e beliscões contra as vítimas. A alegação era de os atos serviam para disciplinar as crianças. No entanto, as agressões eram imputadas a outras crianças pela proprietária da creche, quando questionada pelos pais.

Ilustração

Dois episódios relatados no inquérito chamaram a atenção da Polícia Civil durante a investigação, que teriam sido cometidos contra duas crianças que ficavam no berçário. Em um deles, a proprietária do local teria esfregado a calcinha e fralda sujas de fezes no rosto das vítimas, a fim de puni-las por defecarem e doutriná-las conforme seu método. Outro relato aponta que uma criança autista foi obrigada pela dona do berçário a comer areia, quando ela forçou um punhado de areia na boca da menor.

De acordo com a delegada Jéssica Assis, do Núcleo de Atendimento à Mulher, Criança e Idoso da Delegacia de Sorriso, o casal torturava as crianças de maneira explícita, certo da impunidade diante dos atos ilícitos que ocorreriam há anos sem que nenhuma ação fosse tomada.

“Estavam convictos nas manipulações que faziam com os pais das vítimas e seguros de que não seriam descobertos porque a maior parte das crianças sequer conseguia falar, já que eram bebês”

Jéssica Assis

“Estavam convictos nas manipulações que faziam com os pais das vítimas e seguros de que não seriam descobertos porque a maior parte das crianças sequer conseguia falar, já que eram bebês”, destacou a delegada.

No decorrer do inquérito, as testemunhas corroboraram as denúncias feitas pelos pais das vítimas e relataram ainda as ameaças feitas pelos donos do berçário. “Os depoimentos são consistentes e confirmam diversas informações que levam à conclusão de que as violações ocorridas no local eram sistêmicas, contínuas e extremamente graves, a ponto de ter colocado em risco a vida de inúmeras crianças, há, no mínimo, quase quatro anos”, explica a delegada.

Além disso, testemunhas e uma das vítimas relataram a existência de um “cantinho do pensamento”, que consistia em um corredor escuro, que dava acesso ao quarto da proprietária, onde ela trancava as crianças que se comportavam mal e as deixava sozinhas, por até duas horas.

A mulher foi indiciada por tortura contra cinco crianças e maus-tratos contra três; já o marido dela responderá por um crime de tortura, cinco omissões perante a tortura e ameaça contra uma ex-funcionária.

Torturas

Os relatos apontaram sufocamentos, mordidas, tapas e puxões de orelha conforme narraram as cuidadoras ouvidas na delegacia. Conforme a Polícia Civil, contra um bebê de apenas um ano de idade, foram diversas sessões de tortura. Ele seria amarrado pela dona do berçário a um toco, com um cinto, e deixado debaixo do sol por horas, até chorar e adormecer sentado.

Em outra situação narrada à Polícia Civil, uma menina de quase dois anos de idade teria sofrido violência quando foi imobilizada para que parasse de chorar. A investigada teria colocado o joelho no peito da criança como tentativa de fazê-la parar de chorar, na presença de várias crianças da creche.

Reprodução/SoNotícias

Delegada Jéssica Assis, responsável pela investigação e indiciamento do casal dono de um berçário em Sorriso

Um depoente ouvida na delegacia relatou que, em uma das situações, a dona do berçário jogou água com uma mangueira no rosto de um bebê. Vários relatos apontam o uso de mangueira contra as crianças, em situações e períodos distintos. Uma testemunha disse que havia severas restrições ao uso do aparelho celular no local e que nunca contou os fatos a ninguém porque achava que não acreditariam nela sem filmagens ou fotos.

Uma testemunha que trabalhou como ajudante nos cuidados com as crianças contou que bebês de seis a nove meses eram deixados sozinhos no berço, com mamadeiras na boca, e as cuidadoras eram proibidas de pegá-los no colo para alimentar. As crianças ainda seriam chamadas de "porcos, nojentos, sebosos, mortos de fome".

A dona do local ainda foi acusada de tirar comida da panela e não esfriar para as crianças, além de deixar os bebês passarem o dia todo sem trocar de fralda. Já o dono da creche foi puxaria crianças pelas orelhas e as colocaria de castigo, sentadas em um canto.

Uma testemunha relatou ter sido intimidada pela investigada, que teria dito que, se a denunciasse, saberia que foi ela. A testemunha pediu demissão por não aguentar presenciar o sofrimento das crianças.

“As investigações devem continuar, inclusive, porque diversas mães entraram em contato com a delegacia manifestando interesse em serem ouvidas”

Delegada Jéssica Assis

Escuta especializada

Seis crianças que passaram por situações de tortura na creche e berçário foram ouvidos em procedimento de escuta especializada. A escuta é feita por profissional especializado e é aplicada em casos de crianças vítimas e testemunhas de violência.

Quatro delas relataram espontaneamente episódios de violência que presenciaram na creche. Há um vídeo, fornecido por uma mãe, de uma criança que foi ao local uma única vez, para uma festa, e presenciou as crianças sendo agredidas com tapas e chineladas.

Pais ouvidos

A delegada Jéssica Assis também ouviu 17 pais e responsáveis legais por crianças que foram atendidas na creche. Segundo a Polícia, o casal procurou mães que denunciaram as agressões na tentativa de manipular, dissuadir e intimidar. Diversas testemunhas relataram ameaças pelo marido da dona da creche.

“As investigações devem continuar, inclusive, porque diversas mães entraram em contato com a delegacia manifestando interesse em serem ouvidas”, explicou a delegada, acrescentando que a maioria das pessoas foram ouvidas após a prisão do casal, o que se mostrou necessário diante da intimidação feita pelos investigados.

O familiar de uma criança relata depois que o menor ficou com ferimentos depois de um episódio em que teve a boca cheia de areia pela dona da creche. A testemunha contou ainda que a criança ficou com trauma, pois quando passam em frente à creche, o menino grita "não, não, não" e se joga para baixo do banco do carro. Em certa ocasião, quando a criança ainda frequentava o berçário, o menor chorou copiosamente ao chegar ao local.

A criança passou a apresentar mudanças de comportamento, como retração, dificuldade na fala e colocar os mãos no rosto quando alguém se aproximava dele, fechando os olhos, como se estivesse prestes a ser agredido. A mãe da criança conta que foi procurada pela dona da creche quando disse que ir retirar o filho do lugar e foi indagada se sabia de denúncias sobre maus-tratos no estabelecimento.