“Os preto acha que tem direito”: alunos de Economia da UFMT são denunciados por mensagens racistas
Boletim de ocorrência relata troca de mensagens, áudios e figurinhas ofensivas em grupos de WhatsApp usados por estudantes; Centro Acadêmico cobra apuração dos fatos
“Por causa de vc os preto lá tá achando q tem direito agora”; “Eu sou a favor da minha mulher e da minha filha [...] O resto das mulher tem que se f* mesmo”. Essas e outras mensagens foram compartilhadas em grupos de WhatsApp usados por estudantes de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, e passaram a ser investigadas pela Polícia Civil após uma denúncia de manifestações racistas e misóginas ocorridas entre os dias 3 e 4 de outubro.
Luiz Leite
Conforme o boletim de ocorrência, os episódios começaram durante uma discussão política no grupo “Informes - Economia”, administrado pelo Centro Acadêmico do curso. Segundo o registro, um dos participantes enviou uma figurinha em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com a pele negra e sendo associado à imagem de um bandido, conteúdo descrito no documento como de cunho racista.
Na sequência, outro estudante teria se dirigido a um colega com a expressão “eae carvão”. Os dois participantes foram retirados do grupo, que posteriormente foi restringido pelos administradores para impedir novas mensagens.
Com o bloqueio das conversas, parte da discussão teria migrado para outro grupo, chamado “Geral” e administrado pela Atlética Monopólio. Conforme o boletim, foi nesse espaço que os ataques se intensificaram.
Entre as mensagens registradas está a frase “Por causa de vc os preto lá tá achando q tem direito agora”, enviada em referência à restrição imposta no primeiro grupo. O boletim também relata a publicação de uma figurinha na qual uma mulher negra aparece realizando um exame de ultrassom e a imagem atribuída ao feto é substituída pela de um macaco.
Áudios encaminhados ao grupo também fazem parte do material levado à polícia. Em um deles, um participante questiona: “Quer dizer agora que se eu chamar de neguinho é racismo?”. Em outro trecho, afirma: “Por isso tem que ser contra as muié mesmo [...] eu sou a favor da minha mulher e da minha filha, o resto das mulher tem que se f* mesmo”.
O boletim ainda registra uma mensagem em que um dos participantes afirma estar “doido” para enviar conteúdo ao grupo anteriormente bloqueado e menciona, em tom de ameaça, sobre uma “peixeira” (faca).
O que diz a UFMT
Procurada pela reportagem, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) informou, por meio de nota, que a denúncia atribuída a estudantes do curso de Economia foi encaminhada, nesta segunda-feira (5), pela Ouvidoria à unidade responsável e que já adota as providências administrativas cabíveis.
Ainda segundo a instituição, o procedimento tramita sob sigilo e, por isso, não serão divulgados nomes, número de envolvidos ou detalhes das manifestações. A universidade acrescentou que a apuração seguirá as normas internas, com garantia do contraditório e da ampla defesa, e reafirmou o compromisso com a diversidade, a dignidade e a manutenção de um ambiente universitário livre de discriminação e violência.
Outro lado
Em nota, o Centro Acadêmico de Ciências Econômicas repudiou os episódios e afirmou que foram compartilhados “áudios, mensagens e figurinhas de conteúdo explicitamente racista e misógino”. A entidade informou que retirou participantes do primeiro grupo e restringiu temporariamente o envio de mensagens após as primeiras manifestações.
Para o Centro Acadêmico, os episódios não podem ser tratados como simples divergência política. “São expressões de racismo, misoginia e violência que atingem diretamente a dignidade de mulheres e da população negra”, diz trecho da nota. A entidade também defendeu que os fatos sejam apurados e que eventuais responsáveis sejam investigados conforme os procedimentos aplicáveis.
A Atlética Monopólio, responsável pela administração de um dos grupos em que as mensagens teriam sido compartilhadas, também foi procurada pela reportagem para se manifestar sobre o caso, mas não respondeu até esta publicação. O espaço permanece aberto para manifestações.