Cuiabá, 06/10/2026

Polícia descarta a tese de que amiga fez disparo acidental e vê homicídio doloso

Rodinei Crescêncio

Delegado titular da Delegacia Especializadas do Adolescente (DEA), Wagner Bassi, durante coletiva na tarde de hoje após encerramento do inquérito do caso

A Polícia Civil concluiu que a adolescente de 14 anos, que atirou e matou a amiga Isabele Guimarães Ramos, da mesma idade, cometeu um ato infracional correspondente a homicídio doloso. Por ser menor de idade, a atiradora não pode ser indiciada. A pena máxima para esse tipo de caso é internação em unidade socioeducativa por 3 anos.

Isabele foi morta com um tiro no rosto em 12 de julho dentro do banheiro de uma das suítes da residência da família Cestari, no condomínio de luxo Alphaville I, em Cuiabá. A arma usada, uma pistola Imbel, calibre 380, pertencia ao pai do namorado da atiradora.  

Rodinie Crescêncio

Delegado Wagner Bassi, da DEA: adolescente era treinada e assumiu o risco de matar

O inquérito do caso foi encerrado pelas delegacias especializadas do Adolescente (DEA) e de Defesa da Criança e do Adolescente (Deddica) nesta terça (1º de setembro), conforme anunciado na tarde de hoje pelo delegado Wagner Bassi, titular da DEA, durante coletiva na sede da Polícia Civil, em Cuiabá. Na ocasião, estavam presentes representantes da Politec e do IML.

"A adolescente era treinada, capacitada, então, no mínimo, ao manusear a arma dentro do banheiro com a amiga ela assumiu o risco de gerar a morte da adolescente", disse o delegado durante a coletiva.

Bassi complementou ainda. “Para nós, a conduta é clara. Essa conduta, dessa forma, e considerando as incompatibilidades todas das versões apresentadas pela adolescente na sequência dos fatos, a gente acha que a conduta é dolosa por no mínimo por ter assumido o risco", explicou. 

Pai indiciado

Conforme a polícia, o pai da atiradora, o empresário Marcelo Cestari, foi indiciado por homicídio culposo, pois “agiu com imprudência e negligência ao permitir que a filha pegasse essa arma". Além disso, foi negligente ao entregar uma arma para adolescente e isso gerou resultado (morte). Também responderá por crime de fraude processual. 

Já Glauco Fernando Mesquita Corrêa da Costa, proprietário das armas e pai do namorado da menina que atirou em Isabele, teve indiciamento por omissão de cautela na guarda de arma de fogo.

Os indiciamentos são resultado das investigações, depoimentos testemunhas e laudos realizados pela Politec. Os autos já estão com o Ministério Público de Mato Grosso (MPE), que deve acionar a adolescente na Vara da Infância e Juventude e os adultos na Vara Criminal correspondente.

Provas

Segundo a polícia, o namorado da atiradora deixou a arma alimentada, com cartucho, mas sem bala na câmara, quando saiu às 21h59, antes de Isabele ser morta, menos de dois minutos depois.

O delegado Wagner Bassi revelou que desse momento em diante foram só 36 segundos até a amiga de Isabele pegar o case onde estava a arma do crime e subir as escadas da residência até seu próprio quarto, local do homicídio.

Ainda de acordo com as autoridades policiais, a adolescente deixou a maleta cima do móvel e pegou uma das armas. Logo após, foi até o banheiro onde Isabele estava. A vítima estaria fumando cigarro eletrônico. As duas ficaram 1min18s no banheiro. Nesse intervalo aconteceu o disparo.

É também é nesse momento, segundo a investigação, que houve o carregamento da arma com o golpe no ferrolho (colocou a munição na câmara). O chamuscamento no rosto (tatuagem do disparo), identificado pela perícia técnica, mostrou a distância entre 20 e 30 cm para o disparo.

Conforme os peritos, a autora do crime estava de frente para a vítima. O tiro atingiu o nariz da menor e transfixou para a sua cabeça, ainda segundo o laudo. Conforme a descrição dos laudos, o impacto do disparo fez com que Isabele caísse de joelhos para frente e depois para trás no banheiro, ficando apenas com cabeça no box.

Em depoimento à polícia, a garota alegou que o disparo contra a amiga foi acidental e ocorreu quando tentou guardar o case da arma, deixado na residência pelo seu namorado, um rapaz de 16 anos.

Porém, laudos da Politec colocaram em xeque a versão da adolescente, apontando que o disparo contra Isabele não ocorreu de maneira casual.

Reconstituição

Para fechar o entendimento, autoridades policiais e da Politec realizaram, em 19 de agosto, a reconstituição detalhada do crime.

Na ocasião, os trabalhos foram realizados com base informações científicas apuradas em laudo da perícia oficial, que remontou a cena do crime, indicando como ocorreu o disparo, a trajetória da bala, distância do atirador para vítima, a forma como adolescente caiu após ser atingida e maneira a qual a polícia a encontrou.

Todas as pessoas intimadas pela Polícia Civil compareceram no local, com exceção da adolescente que fez o disparo. A defesa da dela protocolou um pedido na tarde do dia 17 informando que ela não participaria da reconstituição, pois não tinha condições psicológicas. A garota foi representada por uma pessoa que tinha peso e altura compatíveis.