Cuiabá, 21/09/2026

Ni olvido, ni perdón

Divulgação

Luiz Henrique Lima

O quebra-quebra perpetrado por fanáticos fascistas nas sedes dos poderes da República e a tresloucada destruição de inestimável patrimônio histórico e artístico não deveria ter surpreendido ninguém. Longe de ser um “ponto fora da curva” na trajetória extremista antidemocrática de que o Brasil foi vítima no último quadriênio, o 8 de janeiro representou um “gran finale” coerente com a escalada de destruição sistemática e planejada do Estado Democrático de Direito. Um “gran finale” violento, grosseiro, escatológico, brochante e fracassado perfeitamente à imagem dos desgovernados que o inspiraram.

Ainda assim, os atentados encontraram seus alvos desprevenidos e praticamente sem proteção, o que por algumas horas facilitou a rapina da tropa de vândalos. Ali não havia excursionistas ingênuos ou turistas distraídos, mas uma turba impregnada de ódio e imbuída do propósito criminoso de desmantelamento físico e simbólico das instituições republicanas.

Quem odeia o Supremo, no fundo odeia a Constituição da qual ele é o guardião.

Quem odeia o Congresso, na verdade odeia o povo que escolhe os que ali nos representam.

Quem odeia a Constituição e o povo é porque, de forma escrachada, odeia a democracia e, de modo enrustido, odeia também o próprio Brasil.

É gente que gostaria de ser europeia ou estadunidense e sofre com o “complexo de vira-lata”, bem descrito por Nelson Rodrigues. Gente que não se conforma com a miscigenação brasileira e a presença entre nós de forte influência de elementos culturais de origem africana ou indígena. Gente racista e preconceituosa, frustrada e ressentida, intolerante e medieval, hipócrita e covarde. Gente que cultua torturadores e que clama por ditaduras. Gente que, no momento mais trágico da pandemia da Covid-19, quando morriam quatro mil brasileiros todos os dias, promovia arruaças em frente a hospitais, agredia profissionais de saúde e da imprensa, profanava a memória dos que se foram e debochava da dor dos que ficaram. Esse é o perfil dos invasores/agressores de 8 de janeiro: negacionistas da ciência, da cultura e da arte, da democracia, da civilização e da própria humanidade.

A gravidade dessa violenta tentativa de assalto ao poder não pode ser minimizada pela incompetência dos que a executaram.

Quem odeia a Constituição e o povo é porque, de forma escrachada, odeia a democracia e, de modo enrustido, odeia também o próprio Brasil

De fato, é imprescindível um alerta: os episódios de 8 de janeiro não foram o último suspiro do fascismo brasileiro. Os ovos da serpente multiplicaram-se em nosso país, espalhando-se por todas as regiões e classes sociais. É necessário firmeza para combater o ideário extremista sempre que se manifestar, ainda que sob a “inocente” forma de “brincadeiras” de cunho homofóbico, racista, misógino ou veiculadoras de quaisquer preconceitos. É necessário determinação na pedagogia e na prática política de defesa da democracia e dos direitos humanos e sociais.

“Ni olvido, ni perdón”.

Certa vez vi esses dizeres pichados num muro de uma capital sul-americana. A mensagem se aplica aqui e agora.

A democracia tem o direito de autodefesa contra os liberticidas. Mais: sob pena de fragilizar-se irremediavelmente, tem o dever de investigar, julgar e punir todos os responsáveis pelos crimes de 8 de janeiro, não apenas os patéticos figurantes da malta invasora da Esplanada, mas também e com rigor os que dissimuladamente açularam, planejaram, facilitaram e financiaram a barbárie.

Luiz Henrique Lima é professor e escritor.