O Poeta e a Cidade
Luiz Henrique Lima
Mais que muitos escritos políticos, a poesia influenciou os rumos da humanidade. Foi Homero quem imortalizou o heroísmo de gregos e troianos. Foi Camões quem, ao cantar as aventuras dos navegadores portugueses, produziu a obra-prima que consolidou nosso idioma. Foram os versos satíricos de Voltaire que minaram os alicerces do absolutismo monárquico. Foi a pena de Castro Alves descrevendo o sofrimento dos africanos escravizados que mobilizou a inteligência brasileira na luta abolicionista. Foram os poemas de Neruda e de Brecht que emocionaram gerações de idealistas contra as injustiças sociais. E tantos mais, como Dante, Shakespeare, Hugo e Maiakovski que cantando o amor e os dramas humanos deram identidade e voz à multidão de anônimos que somos.
Na semana do Natal, tive a ventura de participar no Cine Teatro Cuiabá de uma noite memorável de celebração da poesia, da arte, da cultura, da história e do amor a Cuiabá.
Foi o evento de lançamento do terceiro volume da Trilogia Cuiabanade Silva Freire, intitulado "ossatura da cuiabania" - Cultura & busca de identidade.
A história da obra e da sua recuperação paraser publicada 30 anos após os dois primeiros volumes da trilogia é por si só merecedora de um estudo à parte, pois testemunha as dificuldades e vicissitudes que a cultura brasileira enfrenta, mormente longe do eixo Rio-SP, e ao mesmo tempo exemplificaatenaz resistência ao tempo e ao esquecimento que somente a criação autêntica e de qualidade consegue sustentar.
A organização dos textos é assinada por Larissa Silva Freire Spinelli, João Paulo Lacerda Paes de Barros e Maria Teresa Carrión Carracedo, cuja dedicação e competência os tornaram credores da gratidão e admiração dos amantes da literatura.
A ediçãodo livro é primorosa, característica da cuiabaníssima Entrelinhas Editora, como sempre caprichosa em todos os detalhes, e cujo padrão de excelência a coloca no primeiro patamar do mercado editorial brasileiro.
Gostei muito também da apresentação de Charivari, documentário em vídeo, dirigido por Juliana Segóvia, Maurício Pinto e Sérvulo Del Castilo. A obra audiovisual recupera imagens e falas do poeta Silva Freire e combina elementos de poemas, imagens de Cuiabá e fragmentos de sua trajetória de militância política, sempre na esquerda democrática, na luta pela justiça social e na resistência à maldita e corrupta ditadura de 1964.
“Obrigado a toda a família Silva Freire pelo convite, pela acolhida e pela amizade, especialmente a Leila, Murillo e Naise, Daniela e Bebeto, Larissa e Raul e Glenda”
É necessário assinalar que tanto o livro como o documentário foram desenvolvidos com recursos da Lei Aldir Blanc, importante instrumento de apoio à cultura instituído por iniciativa do Congresso Nacional, e implementado pela Secretaria Estadual de Cultura, cuja orientação, felizmente para Mato Grosso, em nada se aproxima do obscurantismo reacionário que prevalece na esfera federal.
Em noite tão prazerosa, o auditório do Cine Teatro Cuiabá não estava abarrotado, mas cada um dos que ali estavam presentes trouxe a sua porção de amor à arte e todos saíram com um sentimento de plenitude e leveza após um evento que combinou emoção, informação, contemplação e satisfação.
Obrigado a toda a família Silva Freire pelo convite, pela acolhida e pela amizade, especialmente a Leila, Murillo e Naise, Daniela e Bebeto, Larissa e Raul e Glenda!
Parabéns a todos que contribuíram para essa belíssima e importantíssima publicação!
Grandes poetas transportam para a contemplação universal o microcosmo de suas cidades, como Bandeira fez com Recife, Drummond com Itabira, Quintana com Porto Alegre e Cora Coralina com Goiás.
Impossível conhecer e amar de fato a Cuiabá tricentenária sem mergulhar fundo nos versos de Silva Freire.
Luiz Henrique Lima é professor e Auditor Substituto de Conselheiro do TCE-MT