Cuiabá, 30/10/2026

Gol de quem?

Gol de quem?

   A ex-senadora pelo estado de Alagoas, Heloísa Helena, costumava se referir à mudança do perfil de alguns políticos, os quais contrariavam tudo o que pregaram antes da eleição (e até mesmo se tornavam contrários à ideologia do partido pelo qual foram eleitos), de “estelionato eleitoral”.
 
   Estelionato é o famoso crime insculpido no artigo 171 do Código Penal, que assim prescreve:
 
   “Estelionato
Art. 171: Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento.”
 
   Pois bem, acabamos de vivenciar um processo eleitoral onde toda a população foi às urnas para escolher o prefeito e os vereadores de seus municípios. Alguns prefeitos reeleitos, outros em seu primeiro mandato, a essa altura já deveriam estar pensando em 2009, traçando metas para o município, visando uma boa condução dos trabalhos para os próximos quatro anos.
 
   O problema do “estelionato eleitoral” surge quando os eleitos já iniciam as campanhas pensando em abandonar o mandato antes da metade para poderem concorrer a outro cargo. Depois de passar noventa dias abraçando o povo, pedindo voto, andando pelas ruas, os prefeitos de meios-mandatos vão passar 16 meses no cargo para deixar o vice comandando o município por outros 32.
 
   Será que a população elegeria o vice para comandar o município se ele fosse o cabeça da chapa? Será que o candidato eleito e que pretende ir às urnas em 2010 avisou o povo que seria prefeito apenas por menos da metade do mandato?
 
   É neste sentido que se mostram contornos que delineiam a ação e que fazem parecer realmente uma atitude de “estelionato eleitoral”: houve o engodo do povo, um ardil para mantê-lo em erro, elegendo “A” para que “B” ganhe o mandato.
 
   É bem verdade que o procedimento não é novidade no cenário político nacional, o que em nada diminui o engodo. Por todo o país a classe política promove ações nesse sentido, o que contribui para o descrédito da categoria.
 
   Fazendo uma metáfora futebolística, tão em voga no Planalto, o abandono do mandato antes do final do “primeiro tempo” é como se um artilheiro fizesse o gol, trocasse de camisa com um jogador menos expressivo, saísse de campo e deixasse o substituto comemorando o gol feito e continuando o jogo até o apagar das luzes.
 
   À torcida, abobalhada com a manobra, restará apenas a pergunta: afinal, foi gol de quem?

   Xisto Bueno é assessor parlamentar em Cuiabá