O Brasil é um dos países que mais consome e produz novelas no mundo. Crescemos em meio a folhetins distópicos, totalmente ficcionais, com leve inspiração na realidade, de época, enfim, é praticamente impossível encontrar um brasileiro que não conheça ao menos uma novela. E tamanha exposição transformou a população em personagem de sua própria novela, com direito a dramas, superações, amores, desilusões e o sonho de um final feliz.
Claro, não há novela que não tenha um vilão, o antagonista do “mocinho”, aquele que representa todo o mal, um ser que merece ser punido severamente, extirpado da convivência em sociedade, sem nenhuma chance de redenção. E é revestido do espírito de protagonista, disposto a acabar com o vilão, que o eleitor brasileiro tem ido às urnas, fazendo do dia da votação o seu “último capítulo”.
O eleitor “mocinho”, com um vilão bem definido, deu sua resposta nas urnas. Não importa qual seja o resultado do segundo turno, teremos um Brasil ainda mais à direita, com um grupo de senadores eleitos com o discurso de que derrubariam parte dos ministros do STF e reformariam o Brasil
Em 2014, o vilão era aquele ser gestado durante as grandes manifestações de 2013. Não, eles não estavam contra apenas os R$ 0,20, mas sim defendendo a derrubada de “tudo o que está aí”, seja lá o que isso represente. Candidatos antissistema se elegeram aos montes, a presidente de turno conseguiu a reeleição em uma disputa apertada e, como sabemos, anos depois acabou derrubada do cargo por um parlamento hostil.
Já em 2018, o vilão da vez era o “petismo”, apontado como responsável pela corrupção generalizada que assolava o país. A junção de um desejo de mudança, da destruição do sistema como era conhecido e, ainda, de reflexos dos protestos de 2013 levou ao poder o bolsonarismo, que, além de reduzir a esquerda a quase nada, engoliu os políticos da chamada direita tradicional.
Mas aí veio a pandemia da Covid-19, e o herói de 2018 se tornou o vilão de 2022. A ordem era derrotar o bolsonarismo e o rastro de mais de 700 mil mortes, parte delas podendo ser evitadas, como demonstrado pela CPI instalada no Senado. Criou-se uma frente ampla: Lula, depois de 580 dias preso, uniu-se a adversários históricos e lá foi o eleitor às urnas para acabar com mais um vilão.
E assim chegamos aos dias de hoje, com um novo vilão: o Supremo Tribunal Federal (STF), ou parte dele. O ódio nutrido por parte do eleitorado, que viu Bolsonaro ser derrotado por uma margem muito estreita de votos, foi potencializado por novos escândalos de corrupção, como o dos descontos associativos do INSS e o Banco Master, este ainda mostrando relações, no mínimo, questionáveis do ex-controlador, Daniel Vorcaro, com membros da Corte. E é importante entender: quando um escândalo de corrupção eclode, ele sempre afeta o governo de turno, não importa se foi esta a gestão que iniciou a investigação do caso.
O eleitor “mocinho”, com um vilão bem definido, deu sua resposta nas urnas. Não importa qual seja o resultado do segundo turno, teremos um Brasil ainda mais à direita, com um grupo de senadores eleitos com o discurso de que derrubariam parte dos ministros do STF e reformariam o Brasil. E é isso o que parte da população deseja, ainda que não saiba muito bem o que representam todas essas mudanças.
O problema é que, ao contrário da ficção, a vida real não tem último capítulo. Não há roteiro definitivo, mocinho permanente ou vilão eterno. Nada impede que os heróis de hoje sejam transformados nos vilões de amanhã — e que o eleitor, mais uma vez, seja chamado a escolher quem deve ocupar cada papel.
Talvez essa seja a grande diferença entre a política e a novela: na televisão, a história termina quando sobem os créditos. Na vida real, o capítulo seguinte começa justamente quando acreditamos que a história acabou.
Gláucio Nogueira é jornalista em Cuiabá
Entre na comunidade do Rdnews no WhatsApp e acompanhe as notícias em tempo real; Acesse







