Retomado em janeiro de 2020, dez anos após a paralisação do serviço no Estado, o processo de transplante renal em Mato Grosso só atendeu quatro pacientes em parceria com o Hospital Santa Rosa. No mesmo ano, o hospital particular não renovou o contrato com o Estado, por desacordo entre as partes. Com isso, a oferta de procedimentos gratuitos foi interrompida novamente e os pacientes reingressaram na lista de espera nacional, que tem mais de 59 mil pessoas.
De acordo com a informações da Secretaria Estadual de Saúde (SES-MT), os pacientes que precisam de transplante de rim são encaminhados pelo serviço de Tratamento Fora Domicílio do Sistema Único de Saúde (SUS) para serem transplantados em outros estados. No caso de Mato Grosso, normalmente são transferidos para São Paulo, Santa Catarina, Paraná ou Goiás,
Ao
, o presidente da Associação dos Pacientes Renais e Transplantados (Apret-MT), Carlos Antônio Pereira, 59, explica que a lista de espera é grande e, mesmo quando a ligação tão esperada acontece, o paciente que precisa se deslocar para passar pelo procedimento cirúrgico enfrenta um "perrengue".
“Ter que viajar pode ser um pouco mais difícil”
Carlos Antônio, presidente da Apret-MTSegundo ele, o paciente não sabe quando será contemplado, mas precisa estar pronto e de malas feitas se acaso receber a notícia de que deve comparecer o mais rápido possível em um hospital no qual está cadastrado para passar pelo transplante.
“Ter que viajar pode ser um pouco mais difícil, porque tem que sair daqui para fazer exames onde foi transferido na lista de espera. E de 2 em 2 meses, precisar retornar para manter o cadastro atualizado. Se você está na fila dos do transplantes e é chamado, você tem que chegar rapidamente ao local onde vai acontecer o procedimento e depois fica 90 dias lá. Então, é muito difícil devido ao custo”, detalha Carlos Antônio.
O próprio Antônio está há 24 anos na lista de espera para o transplante de rim. Desde quando se inscreveu na lista de espera nacional, já teve a oportunidade de ingressar entre os pacientes de São Paulo, mas por problemas de saúde não pode continuar. Desta vez, ele busca um doador em Curitiba, e já se prepara para viajar até a cidade para realizar os exames.
Viagem e permanência aumentam o custo do tratamento
“Muitas vezes as pessoas não têm como se manter lá. Mas, mesmo sem condições, vai e somente quando volta que recebe a ajuda de custo”
Carlos AntônioDurante todo o tratamento, os pacientes atendidos pela SES recebem R$ 100 por dia para ajudar nos custos durante períodos de compromissos clínicos. “Essa quantia torna-se insuficiente, porque a pessoa nunca vai sozinha, sempre leva um acompanhante. E o custo torna-se caro, afinal tem os custos com alimentação, um lugar para ficar lá, a preocupação com a higiene, porque existe um cuidado redobrado com o risco de contaminação. Tudo isso deixa mais caro e mais dificil”, explica o presidente da Apret.
Segundo Carlos Antônio, anteriormente o valor para o auxílio aos pacientes transplantados era ainda menor, sendo pagos somente R$ 24,50 por diária - um auxílio que até hoje só é repassado ao cidadão após a comprovação de que ele realmente esteve em atendimento médico referente ao tratamento.
“Muitas vezes as pessoas não têm como se manter lá. Mas, mesmo sem condições, vai e somente quando volta que recebe a ajuda de custo. Porque para ter direito ao valor, primeiro tem que ir”, ressalta.
Carlos Antônio revela que a Apret está articulando uma forma de solicitar que o repasse do auxílio seja transferido a cada 15 dias. “Essa situação de que se o pedido de transplante for atendido, tem que sair correndo, impede até a pessoa de se preparar. Então, essa é uma forma de ajudar a pessoa a conseguir ter condições de fazer o tratamento, sem tanta preocupação”, argumenta.
O presidente ainda lembra que quando os pacientes eram tratados em Cuiabá existia a possibilidade de ter estadia em casa de familiares ou amigos, no caso das pessoas que vinham do interior. Diferente das viagens para outro estado, nas quais os pacientes precisam garantir moradia, alimentação e transporte.
Pacientes em hemodiálise
Conforme os dados do Sistema de Informação Ambulatorial (SIA), há uma média de 1.713 pacientes em hemodiálise, que é um tratamento de remoção do líquido e substâncias tóxicas do sangue, como se fosse um rim artificial. O procedimento é realizado em clínicas particulares que prestam serviço ao Governo e oferecem o tratamento gratuito direto aos pacientes, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em sete municípios de Mato Grosso.
“Aqui, 80% das clínicas são boas, apesar de que há pouco tempo tivemos um problema em Cuiabá. As clínicas não estavam recebendo verba para a realização dos atendimentos e estavam fechando. Então ficou muito difícil mesmo, mas já está se normalizando”, esclarece Carlos Antônio.
Retomada das cirurgias
A SES informou ao
que a expectativa é de que em 2023 seja retomada a realização de transplante renal no estado, com forte investimento na capacitação dos profissionais que atuam na rede assistencial. Contudo, o presidente da Apret acredita que ainda serão precisos pelo menos dois anos para a volta dos atendimentos.
“Há uma especulação de que o tratamento reinicie na Santa Casa, mas é preciso estruturar muito ainda. Estamos acompanhando, porque a Santa Casa tem condições, porém é preciso um contrato com o Ministério Público Federal, não é simplesmente querer e abrir vagas. Foi um processo que aconteceu no Santa Rosa, mas infelizmente não teve continuidade. Acho que para voltar a ter o transplante em Mato Grosso vai demorar mais uns dois anos”, projeta.
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