Previsto para já começar a se configurar no segundo semestre deste ano, o El Niño, fenômeno de aquecimento acima de meio grau das águas do Oceano Pacífico, tem uma tendência diferente para 2026. Ao
, o climatologista e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Rodrigo Marques, explica que o que vem sendo popularmente chamado de "Super" El Niño pela mídia é, na verdade, um aumento de possivelmente até 3 graus na temperatura do oceano.
A projeção acende um alerta, visto que, na história da humanidade, quando o fenômeno aconteceu desta forma, o mundo sofreu impactos irreparáveis. Em Mato Grosso, o evento climático pode afetar diretamente na safra 2026/2027.
"As consequências foram terríveis para a população da Terra como um todo. Trazendo para a gente, sobretudo, aconteceu um ["Super" El Niño] no final do século XIX, que fez com que tivesse uma crise alimentar enorme em várias partes do mundo. Inclusive, estima-se que muita gente acabou morrendo em decorrência disso. Você tem um impacto muito grande na safra de produção agrícola, porque o El Niño muda o sistema de chuva da Amazônia", afirma Rodrigo.
Você tem um impacto muito grande na safra de produção agrícola, porque o El Niño muda o sistema de chuva da Amazônia
O climatologista detalha que, durante o El Niño, o que acontece é uma inversão de circulação. Usando como exemplo a Amazônia, Rodrigo destaca que, ao invés de se ter um ar quente e úmido subindo, com a inversão, o que realmente ocorre é um ar seco descendo.
"O ar seco é soprado de cima para baixo. E, quando o ar é soprado de cima para baixo e vai descendo, é como se ele fosse comprimido, apertado. Quando isso acontece, aumenta o grau de agitação das moléculas de ar e a temperatura mede o grau de agitação das moléculas. Quanto mais agitada, mais quente. Então, quando o ar desce, ele esquenta. Se ele esquenta, como que forma nuvem? Porque, para formar uma nuvem, o ar tem que resfriar. Isso acaba com a chuva na Amazônia", completa.
Para Mato Grosso, Rodrigo faz um alerta sobre os impactos do "Super" El Niño no sistema de chuvas. O profissional relembra que, no estado, a época chuvosa tem início no final de setembro e, com a configuração do fenômeno, a tendência é que haja um atraso neste começo.
Isso afeta diretamente as produções agrícolas, já que a falta de chuvas associada aos picos de calor que costumam acontecer na primavera, que se inicia nesta época do ano, levam a um resultado preocupante: a não germinação do que é plantado.
"A previsão para Mato Grosso é que fique mais quente e seco. O que se espera aqui é que episódios de elevadas temperaturas e irregularidade de chuva sejam cada vez mais normais. Isso não quer dizer que um ano ou outro possa ter chuva. [...]. Esse ano, por conta da configuração do El Niño, muito provavelmente, o período mais frio tende a ficar agora em maio e junho. Porque, com a configuração do El Niño, a tendência é não ter intensidade das frentes frias", conclui.
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