Mato Grosso se destaca negativamente entre os estados brasileiros no que diz respeito às emissões de gases de efeito estufa (GEE) provenientes das queimadas, especialmente em áreas ligadas à expansão agropecuária. Segundo o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, o estado ocupou a liderança nacional, emitindo 92,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, derivado do agro, no ano de 2023.
Diante do cenário, o professor Leone Curado, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) destacou a relevância do agronegócio para Mato Grosso e o Brasil, mas alertou sobre a necessidade de união entre os setores para conciliar produção e preservação ambiental.
Conforme publicado pelo
, Mato Grosso registrou um alto número de queimadas em 2024, contribuindo significativamente para as emissões de GEE no Brasil. No Pantanal, por exemplo, houve um aumento de 249% da área devastada pelo fogo, em comparação à média dos cinco anos anteriores, totalizando 874 mil hectares a mais, segundo o Monitor do Fogo do MapBiomas.
Outro ponto destacado pelo Anuário é que, embora Mato Grosso tenha registrado uma redução de 46,3% na área desmatada entre 2023 e 2024, o número de queimadas não acompanhou essa queda, indicando um desafio na transição para métodos mais sustentáveis de manejo do solo. Para os pesquisadores, o desmatamento ilegal vem sendo combatido com maior rigor, mas a fiscalização das queimadas continua sendo um desafio devido à extensão territorial do estado e à escassez de infraestrutura para monitoramento e controle.
Ao
, o professor Leone Francisco Amorim Curado, da UFMT, explicou que, apesar das políticas públicas existentes no estado, a fiscalização esbarra na dificuldade de acesso a propriedades rurais remotas. "Acredito que isso também é um reflexo da falta de conscientização ou até mesmo da falta de vontade dos proprietários rurais de buscar alternativas que não envolvam o uso do fogo", afirmou.
Segundo o Anuário, o setor agropecuário representa 37,6% das emissões totais de GEE, em Mato Grosso, visto que as queimadas são utilizadas frequentemente para a renovação de pastagens e para a abertura de novas áreas de cultivo, principalmente para a soja e para a criação de gado.
Leone destacou a importância do agronegócio para o desenvolvimento do estado e do país, mas ressaltou que falta uma “união entre todos os setores”, para encontrarmos saídas em que o meio ambiente não seja prejudicado, assim como a produção também não sofra prejuízos.
“Já existem alguns apontamentos, alguns estudos que vão nessa linha. Então, eu acredito que a conscientização, mas sobretudo a união, tanto de agricultores quanto de pesquisadores, como os setores da sociedade em geral, é fundamental para que haja uma solução em que todos possam ganhar”, afirmou o professor.
Impactos e desafios para o meio ambiente e a economia
O Anuário alerta que os incêndios florestais estão entre os desastres “naturais” mais recorrentes em Mato Grosso, ocupando a sétima posição no ranking nacional, com maiores perdas privadas. Além dos danos ambientais, como a degradação do solo e a perda de biodiversidade, os efeitos das queimadas podem comprometer a segurança alimentar e a economia local a longo prazo, afetando a produtividade agropecuária e a imagem do estado no mercado internacional.
“Basicamente as queimadas dependem de fatores meteorológicos, fatores do próprio ecossistema - temperatura, umidade negativa - e, principalmente, das ações humanas. Por exemplo, para fazer uma queimada eu preciso ter condições ideais de temperatura, mas eu preciso também ter o chamado combustível, para que se possa queimar”, ressaltou Leone.
Ainda segundo o professor, a crescente demanda global por produtos agropecuários sustentáveis também coloca Mato Grosso em uma posição delicada. Muitos países e compradores internacionais impõem restrições a produtos associados ao desmatamento e às queimadas, o que pode impactar as exportações do estado, especialmente de carne e soja.
“Eu acredito que a conscientização, mas sobretudo a união, tanto de agricultores quanto de pesquisadores, como os setores da sociedade em geral, é fundamental para que haja uma solução em que todos possam ganhar”
Leone Francisco Amorim CuradoAlém disso, Leone destacou que as queimadas impactam não apenas a fauna, a flora e a economia, mas também a saúde da população. "Mesmo quando ocorrem em zonas rurais, a corrente de vento carrega a fumaça para as cidades, afetando a qualidade do ar e gerando problemas respiratórios", afirmou.
Políticas de mitigação e desafios para o futuro
O governo de Mato Grosso tem implementado medidas para mitigar as emissões de GEE e reduzir as queimadas, como o programa “Carbono Neutro MT”, que busca neutralizar as emissões até 2035. O estado também participa de iniciativas internacionais como o programa Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal (REDD+) e campanhas de descarbonização. No entanto, especialistas apontam que, apesar dessas iniciativas, ainda há desafios para garantir sua efetividade e adesão no setor agropecuário.
"A proposta em si é bem aceita, mas a aplicação exige maior envolvimento da sociedade e dos produtores. Não adianta apenas o governo propor medidas se não houver adesão efetiva. Acredito que seja um conjunto de fatores e não é só um setor da sociedade que vai conseguir ter êxito. Eu acredito que a proposta tem, sim, o seu mérito, mas é necessário que haja uma operação conjunta da sociedade para que possa ter sucesso nessas iniciativas", destacou Curado.
Questionado sobre a atuação do governo em relação a implementação de leis e multas contra aqueles que cometem crimes ambientais e se há a necessidade de um endurecimento das punições, Leone afirmou não acreditar que o endurecimento solucionará o problema em questão.
“As leis são extremamente necessárias, mas eu não acredito que somente a parte das leis e aplicações de multas sejam suficientes para solucionar esse quadro. Enquanto toda a população em si não começar a ter essa visão, essa ideia de que nós fazemos parte de um ecossistema e que se a gente desonrar o ecossistema vamos desonrar a nós mesmos e enquanto não começarmos a ter, pelo menos, uma parte considerável de todos os setores da sociedade com essa visão, nós ainda ficaremos muito tempo com esse problema”, ressaltou.
Outro ponto apresentado pelo professor é a necessidade do uso das tecnologias para antecipar e coibir as queimadas ilegais e não só monitorar remotamente, mapear e identificar focos de queimadas/incêndios, como tem sido feito atualmente.
“Eu acho que o mais interessante seriam estratégias ou técnicas que pudessem prever, para que eu não veja a área queimada para depois agir, mas que eu possa, inclusive, ter alguma técnica, algum artifício que possa prevenir as queimadas. E é nesse sentido que digo que só a legislação não dá conta, porque a legislação vai lá e multa, mas aquela área já foi queimada, o estrago já foi feito”, explicou
Para Leone, com a pressão crescente por uma economia mais verde e responsável, Mato Grosso precisa acelerar a transição para práticas mais sustentáveis, garantindo não apenas a redução de suas emissões de gases de efeito estufa, mas também o seu espaço na competitividade no mercado global.
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